A onda de calor que está reescrevendo a história climática da Europa

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24 Junho 2026

A França viveu nesta semana sua noite mais quente desde 1947, escolas fecharam de Londres a Roma e o número de mortes por afogamento já passa de 40. O que estamos vendo não é só um verão quente, mas o retrato do que vem por aí.

 A informação é de Henrique Cortez, jornalista e ambientalista, publicada por EcoDebate, 23-06-2026. 

Tem uma frase, que li de uma moradora de Bruxelas, repetida em uma reportagem desta terça-feira, que considero assustadora: “E se, no futuro, tivermos que viver esse tipo de situação dia após dia?” Com 25 anos, ela estava tentando se refrescar numa fonte pública, junto com outras dezenas de pessoas que fugiam do calor da forma que conseguiam.

Essa pergunta resume bem o que está acontecendo na Europa agora. Porque o que estamos vendo não parece mais um evento isolado, daqueles que a gente lembra por décadas como “o verão de tal ano”. Parece, cada vez mais, um ensaio do normal.

Vamos aos números, porque eles contam a história melhor do que qualquer adjetivo.

Na madrugada de segunda para terça-feira, a França registrou a noite mais quente desde que o país começou a medir temperaturas, em 1947. O indicador nacional, uma média entre as temperaturas diurnas e noturnas de 30 estações meteorológicas, chegou a 29,8°C segundo dados provisórios da Meteo-France. A temperatura mínima média do país bateu 21,6°C, superando o recorde anterior, de julho de 2019.

Pode parecer só um número, mas noites quentes assim são particularmente perigosas. O corpo humano precisa de horas de temperatura mais baixa para se recuperar do calor acumulado durante o dia. Quando essa pausa não existe, o risco para a saúde aumenta, especialmente para crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas.

E os recordes não pararam na noite. Cidades como Bordeaux e Poitiers, no sudoeste e centro-oeste da França, bateram suas marcas históricas absolutas de temperatura máxima, com termômetros passando dos 41°C, números nunca vistos desde que essas estações começaram a operar, há quase um século em alguns casos.

O que é o bloqueio ômega?

Boa parte das reportagens desta semana menciona um termo que talvez você não conhecesse até agora: bloqueio ômega. É o fenômeno meteorológico que está sustentando essa onda de calor e, segundo meteorologistas, pode continuar influenciando o clima europeu por dias ou até semanas.

A explicação, de forma simples, é a seguinte: uma massa de ar frio posicionada perto de Portugal funciona como uma espécie de bomba, empurrando para o norte o ar quente que vem do norte da África. Esse padrão cria uma configuração parecida com a letra grega ômega, com ar quente concentrado no centro e ar mais frio nas bordas. O resultado é um efeito de “tampa de panela”: o calor fica represado, sem conseguir se dissipar e as temperaturas sobem dia após dia.

Escolas fechadas, ferrovias paralisadas e cidades em alerta máximo

Na prática, essa configuração atmosférica virou rotina interrompida para milhões de pessoas.

Na Inglaterra, dezenas de escolas anunciaram fechamento antecipado nesta terça-feira, com previsão de continuar fechadas por mais dois dias. O Met Office, agência meteorológica britânica, emitiu um raro alerta vermelho de calor para partes do centro e sul do país, apenas a segunda vez que isso acontece. As temperaturas podem chegar a 40°C, um número sem precedentes para esta época do ano, segundo o cientista-chefe da agência, Stephen Belcher. A linha ferroviária que liga o nordeste da Inglaterra a Londres chegou a emitir um alerta de “não viajar”.

Na França, onde mais de 90% da população vive sob alerta vermelho ou laranja por calor extremo, a Torre Eiffel e o Museu do Louvre anunciaram fechamento antecipado. Em Paris, pais de uma escola primária colaram cobertores térmicos nas janelas das salas de aula e juntaram dinheiro para comprar toldos para o pátio porque os ventiladores que receberam, segundo uma das mães envolvidas, “não diminuem a temperatura nas salas”.

Na Espanha, quase todo o território está sob alerta de calor, com partes do sul e do norte no nível máximo, classificado pela agência AEMET como “perigo extraordinário”. Na Itália, o Ministério da Saúde decretou alerta vermelho em 15 cidades, incluindo Roma e Milão, esta última também enfrentou apagões provocados pelo uso disparado de ar-condicionado.

Quando o calor entra onde devia ser seguro

Um dos detalhes mais inquietantes dessa onda de calor é que ela não está poupando os lugares que deveriam proteger as pessoas mais vulneráveis.

Na Espanha, a falta de ar-condicionado em alguns hospitais levou o sindicato de enfermagem SATSE a denunciar publicamente as condições de trabalho. Segundo o sindicato, as temperaturas em algumas unidades atingem e superam os 30°C, bem acima do limite de 27°C estabelecido por lei para ambientes de trabalho. A orientação recebida pelos profissionais, de acordo com a denúncia, foi fechar janelas e baixar persianas “o máximo possível”.

Na França, a situação levou a central nuclear de Golfech, no sudoeste do país, a ser desligada: a temperatura da água do rio Garona, usada para refrigerar os reatores, chegou perto dos limites operacionais seguros.

As mortes que o calor não causa diretamente, mas provoca

Um dos números mais duros desta semana não veio de termômetros, mas de balanços de busca e resgate.

Em reunião de crise, o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, classificou como uma “triste calamidade” o fato de que cerca de 40 pessoas, a maioria jovens, morreram afogadas na França desde 18 de junho, ao buscar rios, lagos e canais para se refrescar do calor. Na Alemanha, a polícia confirmou cinco mortes em acidentes de natação apenas durante o último fim de semana.

É uma das consequências menos óbvias e mais trágicas das ondas de calor extremo: o desespero por refrescar o corpo leva muita gente a se arriscar em águas que não conhece, sem supervisão, em busca de um alívio rápido.

Trabalhadores que não têm a opção de ficar em casa

Enquanto autoridades de praticamente todos os países afetados recomendam evitar esforço físico nas horas mais quentes do dia, beber água e redobrar os cuidados com pessoas vulneráveis, uma parte da população simplesmente não tem essa escolha.

Trabalhadores de uma fábrica da Stellantis perto de Mulhouse, na França, anunciaram que vão encerrar seus turnos mais cedo entre terça e domingo, em protesto contra as condições de trabalho durante o calor extremo. É um gesto pequeno frente ao tamanho do problema, mas que expõe algo real: para muita gente, “ficar em casa no calor” é um privilégio, não uma opção.

A Áustria, Polônia, Hungria e Croácia também emitiram alertas de calor para parte de seus territórios, e serviços de emergência na Hungria e na Eslovênia já registram pedidos de ajuda de pessoas idosas.

É “só mais um verão quente”?

A pergunta que fica e que a moradora de Bruxelas fez de forma tão simples é se episódios como este vão continuar sendo excepcionais ou se vão se tornar parte do calendário europeu.

A resposta da ciência climática, de forma consistente, aponta para a segunda opção. Ondas de calor recorrentes são um dos sinais mais claros do aquecimento global e cientistas vêm alertando que elas devem se tornar mais frequentes, mais longas e mais intensas à medida que a humanidade continua queimando combustíveis fósseis. Não é a primeira onda de calor da Europa neste ano — em maio, o continente já havia enfrentado um episódio histórico de calor antecipado — e especialistas apontam que esse padrão, de eventos extremos cada vez mais próximos uns dos outros, tende a se repetir.

Talvez o mais difícil de processar nessa história não sejam os números em si, mas a sensação de que estamos vendo, em tempo real, o momento em que um “recorde histórico” deixa de ser uma curiosidade de jornal e passa a ser um aviso sobre o que vem a seguir.

Nota da Redação: Esta matéria foi escrita com base em reportagens e dados meteorológicos oficiais publicados até a terça-feira, 23 de junho de 2026. Números de óbitos e alertas meteorológicos são provisórios e podem ser atualizados pelas autoridades competentes.

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