Onda de calor histórica na Europa foi agravada pelas mudanças climáticas, diz estudo

Foto: Lucian/Unsplash

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29 Junho 2026

Cientistas da World Weather Attribution apontam que extremos de junho seriam quase impossíveis sem o aquecimento causado por ações humanas.

A reportagem é de Aldem Bourscheit, publicada por Observatório do Clima, 27-06-2026.

O calor intenso no verão europeu não é novidade, mas a chegada antecipada dos dias mais quentes e os recordes seguidos de temperatura registrados nesta semana não teriam sido possíveis se as mudanças climáticas estivessem fora da equação, diz um estudo da organização World Weather Attribution (WWA) divulgado nesta sexta-feira (26).

A análise revelou que, há apenas 50 anos, o calor de junho na Europa teria sido 3,5ºC mais frio. O trabalho também mostrou que as noites de calor extremo registradas atualmente são cerca de 100 vezes mais prováveis do que eram há apenas 23 anos, durante a onda histórica de calor de 2003, que matou cerca de 70 mil pessoas.

Até o momento, o calor extremo na Europa já deixou cerca de 50 mortos, e milhões de pessoas tiveram de vivenciar temperaturas de até 12ºC acima da média para o mês na França, Alemanha, Itália, Espanha e Inglaterra. Aulas foram suspensas, transporte público e fornecimento de energia ficaram intermitentes e alertas foram acionados em dezenas de cidades.

Cientistas da Suécia, Dinamarca, Estados Unidos, Holanda, Irlanda e Reino Unido, responsáveis pela análise, apontam que o ar quente vindo do Saara, o céu aberto e o sol forte ajudaram a elevar as temperaturas. Mas ressaltam que a crise climática tornou tudo muito mais grave.

“A ciência sobre como as mudanças climáticas agravam as ondas de calor é incontestável. A cada poucos anos, vemos recordes de calor serem quebrados na Europa. Este ano, isso aconteceu em meses consecutivos”, ressaltou Theodore Keeping, pesquisador no Imperial College London. A onda de calor atual é a segunda registrada em 2026. A primeira foi em maio.

Conforme o estudo, a onda de calor deste ano foi a mais potente já avaliada e seria praticamente impossível ocorrer em junho sem a influência do aumento acelerado da temperatura média planetária, causado por ações humanas como a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento.

“As temperaturas diárias mais altas [na Europa] estão subindo a uma taxa cerca de três vezes maior do que a do aquecimento global, e as temperaturas noturnas, a uma taxa cerca de duas vezes maior. Muitas capitais estão vivenciando não apenas o período de três dias mais quente de junho, mas também o período de três dias mais quente desde 1950”, detalha o trabalho.

Em quase metade (45%) das 854 cidades analisadas em 30 países europeus, os recordes de calor já foram superados ou devem ser batidos até o fim de junho. O indicador usado, chamado “temperatura de bulbo úmido e globo” (WBGT), combina temperatura, umidade, sol e vento para estimar quanto calor o corpo humano realmente sente e quão difícil é se resfriar pelo suor.

O time de pesquisadores ressaltou, ainda, que as ondas de calor já causam mais mortes na Europa do que todos os outros “desastres naturais” combinados. Isso atinge todos que lá vivem, mas as principais vítimas são idosos, doentes, pessoas em situação de rua, migrantes e quem não tem ar-condicionado.

Durante o verão de 2022, mais de 60 mil pessoas morreram na Europa em consequência do calor extremo. No verão seguinte, significativamente mais ameno, foram registradas mais de 47 mil mortes relacionadas às altas temperaturas. Em 2025, a primeira onda de calor na Europa ocorreu no fim de junho e foi responsável pela morte estimada de 2,3 mil pessoas em 12 cidades europeias.

“As pessoas na Europa estão muito mais conscientes dos riscos do calor do que no passado, mas só isso não basta. Muitas pessoas ainda vivem, trabalham e estudam em locais que não foram projetados para as temperaturas que estamos vivenciando”, disse Carolina Pereira Marghidan, do Centro Climático da Cruz Vermelha.

Os cientistas também alertam que as soluções passam por reduzir rapidamente o uso de carvão, petróleo e gás, ampliar a energia limpa e preparar as cidades para temperaturas cada vez mais perigosas. Isso inclui mais áreas verdes e sombras, moradias e escolas mais frescas, proteção aos mais vulneráveis, acesso à água, alertas eficientes e serviços públicos prontos para lidar com ondas de calor cada vez mais frequentes.

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