Diálogo e reuniões secretas da elite. Artigo de Jorge Morla

Foto: Gage Skidmore | Wikimedia Commons

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27 Junho 2026

O vazamento de informações do grupo criado por Peter Thiel gerou todo tipo de teorias online.

O artigo é de Jorge Morla, escritor do El País, trabalha desde 2014 para a Babelia, Cultura e Internacional, especialista em cultura digital e palestrante frequente em rádios, conferências e exposições, publicada por El País, 25-06-2026.

Eis o artigo.

Você talvez se lembre de De Olhos Bem Fechados, o último filme de Stanley Kubrick, aquele em que um médico interpretado por Tom Cruise se infiltra em uma reunião secreta da "elite" e testemunha um ritual macabro ao qual os mortais comuns não têm acesso. A realidade é mais prosaica, mas não menos conspiratória: atualmente, a internet está em polvorosa com a revelação do Dialog, um clube tão exclusivo quanto o do filme, mas real, onde a "elite" se reúne para discutir o presente e o futuro do mundo.

Graças a um vazamento da hacker suíça Maia Arson Crimew, corroborado pela Wired, descobrimos o funcionamento interno da organização. Ela foi fundada em 2006 pelo enigmático Peter Thiel, investidor do Vale do Silício, padrinho político de grande parte da nova direita tecnológica americana e cofundador da Palantir. Durante anos, o Dialog promoveu encontros privados, apenas para convidados, com a presença de bilionários, políticos de alto escalão, militares, executivos de tecnologia, acadêmicos, jornalistas e algumas celebridades. Os nomes são diversos, incluindo Elon Musk, Ted Cruz, Kaja Kallas e Garry Kasparov.

Graças aos documentos vazados, também sabemos como o grupo opera. Descobrimos que ele não apenas convida pessoas, mas também as avalia: aparentemente, os participantes recebem uma classificação interna, uma espécie de ranking que os divide nas categorias A, B e C. A categoria C é reservada para as pessoas mais influentes e desejáveis. Curiosamente, os organizadores analisam aspectos como relevância pública, influência política, rede de contatos e até mesmo notoriedade na mídia, e usam essas informações para determinar matematicamente com quem cada participante deve se encontrar. É uma mistura de LinkedIn, Tinder e SPECTRE (a usada pelos vilões de James Bond). A internet, claro, fez o que a internet faz quando descobre que pessoas muito ricas e muito poderosas se reúnem em segredo: imaginou que o destino do planeta está sendo decidido ali. Os tópicos de conversa vazados também não ajudam a diminuir a tensão: "Como criar uma religião", "Tecnologias de combate", "Terceira Guerra Mundial". Embora também existissem grupos de discussão mais mundanos: "Como está sua vida sexual?", por exemplo.

O interessante, porém, não é a existência do Dialog. As elites sempre criaram espaços exclusivos para networking, e não é nenhuma novidade que empresários, políticos e reguladores compartilhem uma mesa, uma bebida e uma pauta. O que é realmente surpreendente talvez seja o que um dos participantes que teve sua identidade revelada, o economista Nathan Taukus, disse. Após seu nome ser divulgado, Taukus relatou que o mais surpreendente nessas reuniões foi que as pessoas falavam exatamente da mesma forma a portas fechadas como falavam em público. Não havia máscara, nenhuma grande revelação, nenhum plano mestre escondido em um cofre: a portas fechadas, os participantes repetiam exatamente os mesmos slogans que usam e publicam em seu dia a dia.

Por muito tempo, houve um certo conforto intelectual em pensar que as declarações mais extravagantes de alguns magnatas da tecnologia faziam parte de uma estratégia de comunicação ou de uma provocação calculada. O vazamento do Dialog aponta na direção oposta. Ou seja, não há uma agenda secreta, porque a agenda é pública. Peter Thiel, que ultimamente tem dado palestras sobre a vinda do Anticristo, passou anos defendendo ideias que, duas décadas atrás, pareceriam ficção científica; executivos da Palantir escrevem manifestos sobre o destino do Ocidente, e Elon Musk publica suas obsessões ideológicas diariamente.

Ora, acontece que tudo isso é real, que essas pessoas defendem em privado exatamente as mesmas coisas que defendem em público. No fim, a grande revelação do Dialog poderia ser resumida em uma frase menos conspiratória, mas muito mais reveladora do que parece: os homens mais poderosos do mundo acreditam em seus próprios tuítes.

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