Gaza. A vida além dos escombros. Artigo de Majd al-Assar

Foto: Anadolu Agency

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27 Junho 2026

"Como a fênix que renasce das próprias cinzas, a vida continua. Não porque os sofrimentos tenham acabado. Não porque as feridas tenham cicatrizado. Os escombros ainda estão aqui. Os lugares vazios à mesa continuam vazios. As memórias não se apagam. Mas o amor também permanece", escreve Majd Al-Assar, em artigo publicado por La Stampa, 25-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Por um instante, a menina fica suspensa no ar, entre a terra e o céu. Abaixo dela, o pai abre os braços. Crianças se reúnem ao redor para assistir à cena. Atrás delas, estende-se uma paisagem que nenhuma criança deveria conhecer: concreto em pedaços, aço retorcido e restos de casas que um dia abrigaram fotos de família, pastas escolares, vestidos de noiva e todas as pequenas coisas que compõem uma vida normal.

No entanto, o olhar dos presentes volta-se para a menina. A guerra passou anos tentando impor uma única imagem de Gaza: a devastação. Nessa foto, está por toda parte. Os escombros saturam cada canto da imagem. Dominam o horizonte. Falam de perdas tão imensas que são difíceis de quantificar.

E, ainda assim, a vida obstinadamente desponta na foto. Por anos, Gaza viveu à sombra da morte. Famílias enterraram seus entes queridos, buscaram pelos desaparecidos, fugiram de um abrigo para outro e viram ruas familiares desaparecerem sob pilhas de poeira e destroços. Casas foram arrasadas. Vizinhos desapareceram. O futuro, também, parece ter se esvaído. Contudo, algo sobreviveu tenazmente. Talvez seja justamente isso que a imagem soube capturar melhor do que qualquer manchete de jornal.

Aqueles mesmos pais que reviraram os escombros em busca de sobreviventes agora lançam seus filhos ao ar. Aquelas mesmas mães que suportaram meses de medo, fome e deslocamento estão trazendo novas vidas ao mundo. Bebês estão nascendo por toda Gaza. Às vezes, nascem em tendas açoitadas pelo vento e pela chuva que penetra em seu interior. O primeiro choro de um recém-nascido muitas vezes ecoa de lugares onde jamais se esperava que uma nova vida surgisse; mas carrega consigo a mesma promessa de todo recém-nascido em qualquer canto da Terra.

A vida continua.

Onde antes ecoava o estrondo das explosões, agora se ouvem músicas de casamento. Casais marcam encontros em meio a ruas em ruínas e prédios despedaçados para celebrar uniões adiadas pela guerra. Contra o fundo dos escombros cinzentos, se destaca o branco imaculado das vestes de casamento. Uma risada rompe o silêncio. Antigas tradições, parcialmente soterradas pela dor, reafirmam-se mais uma vez.

A cena capturada por essa fotografia reflete exatamente essa história. É a história de um povo que reúne os fragmentos dispersos de suas vidas e tenta recompô-los, moldando algo que se assemelhe à normalidade. Um muro reconstruído. Uma barraca armada ao lado de uma casa destruída. Crianças inventando brincadeiras onde não existem mais parquinhos. Pais realizando pequenos milagres cotidianos, dando vida a momentos de alegria quase do nada.

Como a fênix que renasce das próprias cinzas, a vida continua. Não porque os sofrimentos tenham acabado. Não porque as feridas tenham cicatrizado. Os escombros ainda estão aqui. Os lugares vazios à mesa continuam vazios. As memórias não se apagam. Mas o amor também permanece. O amor pelas crianças. O amor pela própria casa. O amor por aquele pedaço de terra onde as gerações anteriores deixaram suas pegadas.

O pai que lança sua pequena filha para o alto, sobre as ruínas, não está fugindo da realidade; ele a habita. Ele sabe exatamente o que os cerca. Mas, por um efêmero instante, oferece à pequena algo mais forte do que a destruição ao seu redor: a sensação de que o mundo ainda pode reservar maravilhosas.

Essa é a mensagem silenciosa transmitida por essa fotografia. Os prédios podem ter desabado. Ruas inteiras podem ter desaparecido, mas o instinto humano que leva a amar, ter esperança, celebrar, trazer filhos ao mundo e imaginar um futuro não ficou soterrado sob os escombros. E assim, em meio aos destroços, uma menina voa pelo ar, uma risada derrota a gravidade, enquanto, abaixo dela, uma cidade ferida persiste na tarefa difícil e tenaz de continuar viva.

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