A Copa do Mundo 'ad maiorem gloriam' de Trump

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16 Junho 2026

"Mas a falta de escrúpulos mais flagrante é a inversão dos valores que o esporte deveria defender, especialmente um evento como a Copa do Mundo, que deveria ser o epítome da universalidade e inclusão defendidas pelos direitos humanos."

O artigo é de José Luis Pérez Triviño, publicado por El País, 16-06-2026.

José Luis Pérez Triviño é professor de Filosofia do Direito (credenciado como professor). Universidade Pompeu Fabra, Barcelona. Membro do Conselho Acadêmico do Mestrado Europeu em Esporte, Ética e Integridade (MAiSI). Ex-presidente da Associação Espanhola de Filosofia do Esporte. Ex-membro da Comissão de Ética da Real Federação Espanhola de Futebol. Diretor da revista "Fair Play: Revista de Filosofia, Ética e Direito Desportivo".

Eis o artigo. 

Segundo o escritor uruguaio Eduardo Galeano, quando a Copa do Mundo começava, ele colocava uma placa em seu quarto com os dizeres "Fechado para futebol" e só a retirava quando o torneio terminava ou a seleção uruguaia era eliminada. Parece um tanto estranho que, para o autor do aclamado livro As Veias Abertas da América Latina, o futebol servisse como meio de se distanciar do mundo e de todas as suas vicissitudes econômicas, políticas e sociais. De certa forma, isso parecia validar o diagnóstico dos movimentos de esquerda a respeito do papel do esporte — e especialmente do futebol — como uma superestrutura que mascarava ou até mesmo justificava as injustiças produzidas pelo capitalismo. O futebol, então, seria um cúmplice involuntário, mas, em última análise, um colaborador, dos excessos do capitalismo contra a classe trabalhadora, impedindo-a de tomar consciência de todas as injustiças que sofria.

Pode-se pensar que a Copa do Mundo de 2026 cumprirá essa mesma função, não apenas internamente — as questões políticas e jurídicas não estarão mais no centro das atenções da mídia — mas também geopoliticamente. Em outras palavras, por pouco mais de um mês, torcedores ao redor do mundo estarão absortos em assistir e desfrutar de rivalidades "nacionais", mesmo que elas aconteçam em um campo de futebol. E assim, a população global em geral, mas especialmente aqueles em países envolvidos em conflitos armados, poderá esquecer momentaneamente as dificuldades e injustiças que enfrenta.

Mas essa não parece ser a atitude de Donald Trump. Ele parece determinado a que a Copa do Mundo não só mostre, mas também destaque algumas das políticas mais belicosas e agressivas que adotou durante sua presidência. O futebol, a Copa do Mundo, não seria um esconderijo para suas ambições e políticas belicosas, mas uma vitrine para exibi-las abertamente. Essa é a sua psicologia: fazer da busca por seus interesses particulares uma virtude a ser ostentada. Referimo-nos aqui não apenas à arrogância de organizar uma Copa do Mundo onde tudo é excessivo e exagerado, exatamente como ele gosta. Uma Copa do Mundo com 48 seleções e mais de 100 jogos. Ninguém pedia um aumento no número de participantes, apesar das consequências negativas: o acúmulo de problemas organizacionais, que exigem que vários países sediem as partidas, e, além disso, do ponto de vista esportivo, o prolongamento do torneio, com a consequente redução do descanso dos jogadores e um aumento do risco de lesões.

A ostentação em torno desta Copa do Mundo e de seus dois principais patrocinadores, Infantino e Trump, não termina aí. Ela dá continuidade a uma lógica já estabelecida na FIFA em edições anteriores, mas elevada a um patamar superior: a obsessão pelo lucro. Isso se reflete não apenas na receita da venda de direitos de transmissão televisiva, graças ao aumento do número de partidas, mas também no sistema de ingressos, onde foi implementado o "preço dinâmico". Esses preços flutuam de acordo com a demanda, mas sempre sobem (nunca caem).

O resultado é que, enquanto o preço máximo no Catar já era exorbitante — US$ 1.600 —, estima-se que neste ano alguns ingressos possam custar até US$ 13.000, com o preço médio girando em torno de US$ 1.000. Isso significa que eles serão acessíveis apenas a um pequeno número de indivíduos ricos, muito além do alcance dos torcedores tradicionais, aqueles para quem o futebol, como aponta Jorge Valdano, é "a ópera dos pobres".

Mas a falta de escrúpulos mais flagrante é a inversão dos valores que o esporte deveria defender, especialmente um evento como a Copa do Mundo, que deveria ser o epítome da universalidade e inclusão defendidas pelos direitos humanos. É ultrajante que, em vez de acolher torcedores de todas as origens para promover a inclusão e a união — como Infantino gosta de proclamar —, o governo Trump mantenha suas restrições de entrada para 39 países, alguns dos quais participam do torneio e enviam árbitros ou torcedores. Isso significa que eles correm o risco de serem barrados na chegada ou, uma vez em solo americano, detidos e deportados, como é costumeiro para o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos).

Isso não é mera possibilidade. É uma realidade que já ocorreu com a deportação do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan. E a FIFA, que tem poder suficiente para impor condições onerosas ao país anfitrião e garantir lucros exorbitantes para seus patrocinadores, é cúmplice ao fechar os olhos para a situação. Mas isso não deveria ser surpresa a esta altura, dada a cumplicidade entre a dupla improvável formada por Trump e Infantino. O primeiro recompensa o segundo com um mercado potencial de mais de 300 milhões de fãs, e o segundo recompensa o primeiro não apenas com o Prêmio da Paz da FIFA, mas também com uma Copa do Mundo para sua maior glória.

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