29 Mai 2026
"A educação é realmente central, pois se não nos educarmos como seres humanos, livres, conscientes e responsáveis, a máquina logo acabará nos educando como usuários e nos manipulando como algoritmos, sem que o percebamos", escreve José Tolentino de Mendonça, poeta português e prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, em artigo publicado por La Stampa, 26-05-2026.
Eis o artigo.
Nomen omen, um nome é um presságio, uma espécie de sinalização viária ou missão anunciada. Se isso é verdade para os nomes em geral, é ainda mais verdade para o nome que um Papa escolhe, especialmente porque o faz na mais absoluta liberdade. O nome, inesperado, escolhido pelo Papa Prevost despertou, portanto, grande curiosidade, que agora encontra uma resposta poderosa em sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, apresentada no mês em que se celebra o 135º aniversário da Encíclica Rerum Novarum. Se, com sua postura corajosa sobre a questão operária, o Papa Leão XIII abria a modernidade “àquela reflexão sobre a sociedade, a economia e a política que hoje chamamos de 'Doutrina social da Igreja'” (MH, 3), o Papa Leão XIV quer hoje que aquela audácia de visão da realidade concreta não se perca, pois acredita que ela é parte integrante da vocação da Igreja.
Essa é a profunda convicção que guia o programa pastoral de seu pontificado e encontra em seu nome uma límpida chave de leitura. Leão não teme a enormidade da tarefa de interpretar os problemas de nosso tempo, fixando abertamente o olhar num cenário ambiguamente carregado de esperanças e medos. Tampouco teme parecer profeticamente contrário à corrente principal, com um discurso que alguns interessados contestarão como “sombrio ou pessimista”.
Na realidade, ele interpreta o presente não “como um destino fechado, mas como um campo aberto à conversão pessoal e coletiva” (MH, 210). É essa combinação profética de coragem espiritual e inteligência histórica que, precisa ser dito, torna essa encíclica um dos textos mais importantes do século XXI, um manifesto humanista que põe em foco a questão crucial sobre a qual somos hoje chamados a decidir o próprio futuro da humanidade: "o que significa salvaguardar a pessoa humana na era da inteligência artificial" Em meio à passividade generalizada de uma opinião pública desinformada e indiferente e ao atraso de governos com dificuldades de discernimento, a voz da Igreja se eleva, por meio da encíclica, a serviço de toda a humanidade, testemunho desarmado e desarmante, porém poderoso, do dever de não subordinar o ser humano ao poder da máquina: o dever inderrogável de permanecer humanos.
O perigo reside no fato de que as vantagens econômicas do formidável progresso tecnológico em curso possam nos cegar para os riscos de seu avanço desprovido de regras: não podemos ignorar, adverte o Papa, que nesta quarta revolução industrial que estamos vivendo com a transição digital, a dignidade humana está exposta a uma ameaça radical. As potencialidades desse novo instrumento são muitas, mas os perigos são igualmente grandes. Por isso, desde a primeira frase da encíclica, afirma-se que nos deparamos com "uma escolha decisiva" (e a palavra "escolha" aparece onze vezes no texto).
Escolha entre o sistema da meritocracia (que o Papa considera una ideologia particularmente insidiosa, porque substitui a ontologia pela eficácia do desempenho) e o reconhecimento da dignidade inalienável da pessoa humana; escolha entre a concentração de poder e das riquezas nas mãos de poucos (empresas e plataformas tecnológicas...) e a destinação universal dos bens; escolha entre o duplo erro de demonizar ou idolatrar os instrumentos, por um lado, e a estratégia pública de governá-los com critérios transparentes e democráticos, pelo outro; escolha entre a aceleração do paradigma tecnocrático nu e cru e o empenho com o desenvolvimento humano integral. Simplesmente investir a tecnologia de um poder messiânico (a encíclica fala do risco de uma "divinização") significa pretender sub-repticiamente que ela possa substituir ou transcender o humano.
A tecnologia não é neutra, pois assume a posição ideológica e os interesses de quem a concebe, financia, detém, regula ou utiliza. Assim, "não basta invocar genericamente a ética: são necessários quadros jurídicos adequados, vigilância independente, educação dos utilizadores, uma política que não renuncie à sua missão" (MH, 106). Fica, portanto, claro como a abordagem metodológica da Magnifica Humanitas seja promover a reflexão de natureza cultural, analisando, por exemplo, alguns dos dispositivos teóricos que servem de estandarte para os centros de poder tecnológico e colonizam os imaginários expressos nas redes sociais e nas mídias.
A mensagem transmitida por essa ideologia tecnológica é uma alucinação do futuro, na qual são cada vez mais vendidas as vantagens da potencialização mecânica indiscriminado do ser humano e de sua hibridização com a automação, e se monta uma ideia falsa de progresso como superação do humano. É um terreno fértil ideológico insidioso que encontra expressão crescente nas diversas correntes do transhumanismo e do pós-humanismo.
Diante desse cenário distópico, uma das propostas fortes do Papa é enfatizar o papel chave da educação, visto que atualmente não estamos preparados para lidar com a virada histórica que estamos vivendo.
A educação é realmente central, pois se não nos educarmos como seres humanos, livres, conscientes e responsáveis, a máquina logo acabará nos educando como usuários e nos manipulando como algoritmos, sem que o percebamos. É urgente, portanto, uma educação para a convivência responsável com o mundo digital, sem receio de introduzir medidas regulatórias de sobriedade, proteção e limitação. A defesa do ser humano na era digital é uma questão pública, já que a Inteligência Artificial pode ser uma aliada ou um acelerador de catástrofes sociais.
Cabe às sociedades e a cada um de nós fazer a nossa parte. O Papa Leão XIV apela à consciência global. E a maneira como o faz é crucial. Ao contrário dos autoritarismos exagerados de tantas lideranças contemporâneas, com seu estilo humilde e firme, Leão nos oferece um documento histórico que não procede por meio de ditames e ultimatos, mas fornece instrumentos de reflexão e de decisão autônoma e criativa: uma plataforma espiritual e cultural para começar a trabalhar seriamente todos juntos em nosso futuro comum.
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