Homilia do Cardeal Czerny pela 'amada terra de Cuba'

Cardeal Michael Czerny. (Fonte: Wikimedia Commons)

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18 Mai 2026

"Oremos, então, para que a amada terra de Cuba conheça dias de maior serenidade, de autêntico desenvolvimento humano e social, de harmonia e esperança", disse o Cardeal Michael Czerny, em homilia publicada por America, 15-05-2026.

A homilia foi proferida pelo Cardeal Michael Czerny, SJ, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, durante uma Missa pela Paz e Desenvolvimento Social em Cuba. A Missa foi celebrada na Igreja de Santo Inácio de Loyola, em Roma, no dia 15 de maio de 2026.

Eis a homilia.

Ouvimos a Palavra de Deus que a liturgia nos oferece nesta sexta-feira da sexta semana da Páscoa. Uma Palavra impregnada de perseverança e esperança. Na passagem dos Atos dos Apóstolos, vemos Paulo cansado, provado e confrontado com incompreensão e rejeição. Contudo, o Senhor lhe diz: “Não tenha medo; continue falando e não se cale”. É uma palavra que sustenta o coração do crente nos tempos difíceis da história. Uma palavra que preserva a confiança quando tudo parece frágil e precário.

No Evangelho segundo João, ouvimos outra imagem poderosa: a da mulher que sofre as dores do parto e que, ao dar à luz o filho, experimenta uma nova alegria, capaz de transfigurar a dor que suportou. Jesus fala assim aos seus discípulos para prepará-los para o tempo da provação, ensinando-lhes que o sofrimento da história não é alheio à obra de Deus e que toda jornada humana autêntica rumo à paz e à justiça requer paciência, discernimento e coragem espiritual.

Caros irmãos e irmãs, caros representantes institucionais, embaixadores e autoridades aqui presentes, nesta noite apresentamos ao altar do Senhor os sofrimentos, as esperanças e as expectativas do povo cubano. Fazemos isso com respeito, com sinceridade, com profundo afeto por uma terra que preza uma história rica em dignidade, cultura, sacrifício, fé e resiliência.

O ensinamento social da Igreja nos lembra claramente que a verdadeira paz se fundamenta em pilares morais e espirituais, antes mesmo dos políticos ou econômicos. Em “Pacem in Terris”, São João XXIII identificou a verdade, a justiça, a liberdade e o amor como condições indispensáveis ​​para uma convivência humana digna da pessoa humana. Essas palavras conservam um poder extraordinário ainda em nossos dias.

A justiça exige atenção concreta àqueles que mais sofrem.

A liberdade exige oportunidades reais de participação, escuta e responsabilidade compartilhada.

A verdade se torna uma forma de diálogo sincero, capaz de superar a propaganda, o endurecimento de atitudes e a desconfiança mútua.

O amor abre caminho para a solidariedade, para a partilha de bens materiais, culturais e espirituais entre os povos.

Dessa perspectiva, qualquer lógica de confronto constante corre o risco de agravar o fardo já pesado sobre as pessoas comuns, especialmente os mais pobres, os idosos, os doentes e as crianças. O Papa Leão XIV, em seus recentes apelos à comunidade internacional, lembrou-nos que nenhuma ordem estável pode surgir da força das armas ou da pressão que humilha os povos; o desenvolvimento humano, por outro lado, cresce por meio do diálogo, do direito internacional, da cooperação entre as nações e da salvaguarda da dignidade de cada ser humano. Nesse mesmo espírito, a ajuda humanitária deve chegar em quantidades suficientes e sem entraves, e jamais deve ser explorada para fins políticos ou geopolíticos.

Durante sua viagem apostólica a Cuba em 2015, o Papa Francisco também enfatizou, em sua homilia histórica na Praça da Revolução, em Havana, a necessidade urgente de colocar a pessoa concreta no centro da vida social e política, especialmente os vulneráveis, os feridos e os pobres. Ele disse que o serviço “nunca é ideológico”, porque surge da atenção genuína ao outro; “não precisamos de ideias, mas de pessoas”. Essas palavras permanecem extremamente relevantes hoje.

O apelo de São João Paulo II ainda ressoa com intensidade profética: “Que o mundo se abra para Cuba e que Cuba se abra para o mundo”. Não era um slogan político. Era um convite espiritual e humano para derrubar os muros da incompreensão, criar espaços de confiança mútua e permitir que os povos se encontrassem sem medo.

Estamos aqui esta noite, acima de tudo, para rezar. Em breve, a Eucaristia tornará presente o sacrifício pascal de Cristo, o Senhor crucificado e ressuscitado que carrega em si o sofrimento dos povos e as feridas da história. Diante dele, confiamos as famílias cubanas, os jovens em busca de esperança, os que ocupam posições de autoridade, os que sofrem e os que aguardam dias mais pacíficos.

O Evangelho nos oferece uma promessa: “A vossa tristeza se transformará em alegria”. Esta não é uma promessa ingênua. É a certeza cristã de que Deus continua a agir na história da humanidade, mesmo quando prevalecem as trevas e a confusão. O Espírito Santo continua a suscitar homens e mulheres capazes de construir fraternidade, reconciliação e caminhos de paz.

Oremos, então, para que a amada terra de Cuba conheça dias de maior serenidade, de autêntico desenvolvimento humano e social, de harmonia e esperança. Oremos para que cada decisão política, econômica e internacional seja guiada pela sabedoria, prudência e uma busca sincera pelo bem de todos. Oremos para que o Senhor incline os corações dos homens e mulheres à fraternidade universal.

E pedimos à Virgem da Caridade de El Cobre, tão amada pelo povo cubano, que acompanhe a jornada desta nação com sua proteção maternal e que vele em paz por todos os seus filhos.

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