14 Mai 2026
Uma clínica dos Médicos Sem Fronteiras é o único centro na Faixa de Gaza que imprime máscaras de fisioterapia essenciais para essas pessoas feridas, mas carece de suprimentos e pessoal médico porque Israel a proibiu de continuar operando na Palestina.
A reportagem é de Ahmed Abu Kmail e Beatriz Lecumberri, publicada por El País, 13-05-2026.
Mustafa Darduna observa em silêncio enquanto Rushdi Hamada, fisioterapeuta da clínica Médicos Sem Fronteiras (MSF) na Cidade de Gaza, mede sua cabeça e ajusta uma nova máscara transparente, cobrindo-o do queixo até atrás das orelhas. As cicatrizes das queimaduras que sofreu há um ano durante os ataques aéreos israelenses na Faixa de Gaza são visíveis em ambos os lados do rosto deste menino de 10 anos, com um olhar profundo e triste.
“Felizmente, os ferimentos melhoraram significativamente. Esta máscara de pressão é essencial para a recuperação dele, mas como o rosto dele cresce, ele precisa de uma nova a cada seis meses. É por isso que ele está aqui hoje, para que possamos colocar esta que conseguimos imprimir”, explica Hamada. “Mas temos quantidades muito limitadas de material para a impressora 3D, que precisa vir do exterior, e não conseguimos obter as permissões israelenses necessárias para a importação. Então, às vezes, temos que adiar os tratamentos dos pacientes”, acrescenta.
Esta clínica da MSF é a única fornecedora de máscaras de fisioterapia impressas em 3D na Faixa de Gaza, essenciais para prevenir desfiguração e incapacidade permanentes. Ela recebe entre 120 e 150 pacientes por dia, 60% dos quais sofrem de queimaduras, principalmente crianças. Um número significativo desses pacientes foi ferido durante ataques israelenses, enquanto outros sofreram acidentes domésticos, que estão se tornando cada vez mais comuns em meio às condições precárias das tendas e moradias improvisadas em que são forçados a viver em uma Faixa de Gaza praticamente em ruínas. Entre eles, há pacientes que precisam ser evacuados ou que necessitam de cirurgia plástica, atualmente impossível devido à falta de recursos e de pessoal médico especializado.
O alívio impossível para pacientes com queimaduras em Gaza
“Não entra nada desde janeiro. Estamos sufocando”, disse Fady Al Madhoun, médico desta clínica da MSF, a este jornal. Desde o início do ano, o governo israelense proibiu 37 ONGs de operarem em Gaza e na Cisjordânia. Entre elas está a MSF, que acusa, sem apresentar provas conclusivas, de contratar habitantes de Gaza que “estavam envolvidos em atividades terroristas”. Essa decisão significa que nenhum funcionário estrangeiro da organização humanitária, nem qualquer carregamento de medicamentos, pode entrar na Faixa de Gaza.
Já estamos com dificuldades para cuidar dos pacientes. Todos os dias me deparo com casos que me partem o coração porque não consigo tratá-los adequadamente.
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