Inclusão pastoral com exclusão doutrinal: Leão XIV, diversidade de gênero e unidade eclesial. Artigo de Enrique Vega-Dávila

Papa Leão XIV | Foto: Vatican Media

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28 Abril 2026

"Quando se afirma que as pessoas são abençoadas e não as uniões, não se trata de evitar confusão doutrinária, mas sim de produzir uma separação que permita a manutenção da norma sem assumir suas consequências; é importante afirmar precisamente que essa posição não é uma inconsistência interna do sistema, mas sua coerência mais profunda, ou seja, sua capacidade de administrar a graça sem colocar em risco a estrutura que hierarquiza as formas de vida"

O artigo é de Enrique Vega-Dávila, publicado por Religión Digital, 27-04-2026. 

Enrique Vega-Dávila é um homem gay, acadêmico e pastor. Possui doutorado em Estudos Críticos de Gênero pela Universidade Ibero-Americana da Cidade do México, mestrado e licenciatura em Teologia pela Faculdade Pontifícia e Civil de Teologia de Lima e bacharelado em Teologia pela Pontifícia Universidade Urbaniana de Roma. Leciona na Universidade Nacional Autônoma do México, na Faculdade de Filosofia e Letras. Seu trabalho situa-se na interseção entre teologia, gênero e crítica cultural. Ele também oferece apoio espiritual a pessoas em cuidados paliativos e é pastor de uma comunidade luterana independente comprometida com a diversidade a partir de perspectivas feministas.

Eis o artigo. 

O momento eclesial atual, no que diz respeito à diversidade sexual e de gênero, é marcado pela coexistência de novas linguagens e antigas fronteiras, o que nos obriga a questionar se os gestos de “acolhimento” celebrados hoje transformam efetivamente as condições de pertencimento ou se, ao contrário, as reorganizam sem alterá-las fundamentalmente. Porque quando a inclusão é formulada sem mudar a estrutura que distingue entre vidas plenamente reconhecidas e vidas apenas parcialmente admitidas, o que está em jogo não é mais o tom do discurso, mas a própria verdade e o alcance da fé. Quando falo de pleno reconhecimento, não me refiro apenas a uma mudança de linguagem ou a uma disposição afetiva de acolhimento, mas à possibilidade de que a vida concreta — relacionamentos, desejos, modos de amar — possa ser lida como um legítimo lugar teológico, isto é, como um espaço onde a verdade da existência se desenrola diante do Divino. Sem essa dimensão, o reconhecimento se reduz a uma hospitalidade condicional que não afeta a maneira como a Igreja discerne a presença da graça nas vidas.

Os esforços do Cardeal Marx, da Alemanha, demonstram que a divergência teológica e pastoral em torno da comunidade LGBT+ não pode mais ser adiada, e o documento "A bênção dá força ao amor" (Segen gibt der Liebe Kraft) busca colocar a dignidade humana no centro, afirmando que em todo relacionamento existe algo que pode ser reconhecido como bom. Embora essa proposta ainda seja limitada, representa um passo mais sério do que outras, pois apela a critérios pastorais, evita a rigidez litúrgica e invoca a liberdade de consciência, mesmo mantendo a recusa em equiparar essas bênçãos ao matrimônio. Nesse contexto, o apelo de Leão XIV à unidade da Igreja não resolve o problema, mas o desloca, pois essa unidade não pode ser entendida simplesmente como uniformidade moral ou disciplinar; sua própria interpretação faz parte da disputa teológica em curso. Nessa perspectiva, a máxima atribuída a Agostinho de Hipona — "Nos pontos essenciais, unidade; nas questões duvidosas, liberdade; em todas as coisas, caridade" — permite-nos compreender a unidade como uma fé compartilhada cuja expressão histórica, incluindo suas normas, sempre esteve sujeita ao discernimento. Desse ponto de vista, a questão do que é essencial inevitavelmente leva a indagar como e sob quais condições as vidas concretas participam — ou são excluídas — desse horizonte de fé.

A resposta do Papa revela um problema que vai além da ausência de mudança. Ele reside na forma como a mudança é encenada sem alterar as causas subjacentes da exclusão. No recente debate sobre bênçãos e diversidade de gênero e sexual, o que emerge é uma arquitetura refinada de controle teológico apresentada na linguagem da aceitação, herdando a abordagem "todos, todos, todos" promovida por seu predecessor, o Papa Francisco. Essa lógica já foi criticada. Em minha análise da Fiducia supplicans, argumentei que pessoas de diversas orientações sexuais e identidades de gênero já são uma bênção, e que esse reconhecimento por si só deveria bastar para afirmar nossa dignidade, sem condições adicionais. Dessa perspectiva, o texto, com ou sem a posição de Leão XIV, mostra-se insuficiente diante dos desafios atuais.

O que emerge, então, é uma operação de duas vertentes que combina a negação das bênçãos formais com uma proposta de inclusão que não modifica o quadro doutrinal. Isso permite à hierarquia articular uma fórmula pastoralmente eficaz para certos setores, mas doutrinariamente estagnada para aqueles que aspiram a uma mudança real, porque possibilita abençoar sem reconhecer, acolher sem igualar e aproximar sem transformar. Assim, a inclusão torna-se uma técnica para gerir limitações. Essa lógica não deve ser entendida como uma ambiguidade acidental, mas sim como uma decisão que mantém a continuidade com o quadro doutrinal expresso na Persona humana, posteriormente adotada pelo Catecismo da Igreja Católica e reiterada por diversos pontificados.

O cerne dessa estratégia reside na distinção entre a pessoa e a relação que ela estabelece, uma distinção que, na tradição moral cristã, busca salvaguardar a dignidade irredutível de cada indivíduo, mesmo em meio a práticas consideradas problemáticas por algumas tradições cristãs. Contudo, neste caso, essa distinção introduz uma ruptura teologicamente insustentável, pois pressupõe que a vida concreta possa ser suspensa sem afetar a forma como essa pessoa é reconhecida. A tradição cristã, desde Agostinho de Hipona até os desenvolvimentos contemporâneos, insiste que o amor não é um acidente moral, mas um locus teológico onde a verdade da existência está em jogo. Portanto, abençoar alguém e, ao mesmo tempo, repudiar a forma como essa pessoa ama não é um gesto neutro, mas uma forma de disciplina que opera sob o disfarce da inclusão.

Portanto, quando se afirma que as pessoas são abençoadas e não as uniões, não se trata de evitar confusão doutrinária, mas sim de produzir uma separação que permita a manutenção da norma sem assumir suas consequências; é importante afirmar precisamente que essa posição não é uma inconsistência interna do sistema, mas sua coerência mais profunda, ou seja, sua capacidade de administrar a graça sem colocar em risco a estrutura que hierarquiza as formas de vida.

Neste ponto, a interpretação otimista proposta pelo jesuíta James Martin é compreensível a partir de uma perspectiva pastoral que busca ampliar os espaços de acolhimento, mas se mostra insuficiente na medida em que desloca o conflito para o nível da linguagem e dos gestos, deixando intocado o plano em que se decide quem pode receber pleno reconhecimento. Isso não significa que não existam diferenças reais nas abordagens pastorais, nem que certos gestos não abram espaços antes inacessíveis, mas sim que, no estado atual do debate, essas diferenças não modificam o nível em que esse reconhecimento é definido e, portanto, continuam a operar dentro da mesma estrutura que produz posições assimétricas. Desse ponto de vista, tanto as posições conservadoras quanto as chamadas progressistas partem do pressuposto de que as pessoas LGBT+ ocupam uma posição subordinada simplesmente por existirem, e o fato de ser um problema “ocidental” não diminui sua importância, porque o que está em jogo são vidas reais.

Por outro lado, é necessário especificar onde reside o problema, uma vez que não se reduz a uma discussão sobre normas morais, mas afeta diretamente a compreensão da graça; se a bênção é concedida sem implicar o reconhecimento da vida concreta, então a graça corre o risco de ser vivenciada não como uma mediação de comunhão, mas como um recurso regulado, isto é, como um bem que é distribuído sob condições que não são nomeadas como tal.

Essa lógica gera um efeito que não pode ser ignorado, pois convida as pessoas a se aproximarem da Igreja sob a condição explícita de não terem sua experiência afetiva plenamente reconhecida, o que configura uma forma de acompanhamento que, embora apresentada como acolhedora, se baseia em uma assimetria doutrinal que deveria ser explicitada desde o início para evitar qualquer forma de desonestidade; a abertura pastoral pode ser legítima, mas não pode esconder o fato de que nem tudo pode ser validado sem entrar em conflito com a norma, à qual se exige a adesão confessional.

Quando Leão XIV afirma que a Igreja não deve se dividir em questões sexuais e propõe concentrar a atenção em outros temas, ele não está ampliando os horizontes, mas sim deslocando o conflito para um lugar menos incômodo, sem resolvê-lo. Isso porque as questões relacionadas à sexualidade não são secundárias, mas constitutivas da existência, e funcionam como um termômetro que nos permite identificar progressos ou retrocessos na forma como as vidas são reconhecidas. Portanto, o ponto decisivo não reside em suavizar a linguagem pastoral, mas na disposição de examinar a estrutura que produz a exclusão. A mitigação pastoral pode operar como uma ação paliativa que, longe de transformar, corre o risco de disfarçar a exclusão com palavras gentis nas quais a inclusão já está definida.

Finalmente, como teólogo queer, insisto que o problema não reside simplesmente em quanto pode ser incluído sem romper com a norma, mas sim no que essa norma revela sobre como a hierarquia católica escolheu nomear Deus e discernir sua ação. Se a graça só pode ser reconhecida onde certos modos de vida não desafiam a estrutura que os classifica, então não estamos lidando com neutralidade doutrinal, mas com uma teologia que predefine quais vidas podem se apresentar como portadoras de pleno significado. Nesse ponto, a tensão deixa de ser pastoral e se torna propriamente teológica e doutrinal, porque o que é questionado não é apenas a inclusão de algumas pessoas, mas a própria credibilidade de uma mensagem que se proclama universal, ao mesmo tempo que mantém condições diferenciais de reconhecimento.

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