28 Abril 2026
Em carta à Diocese de Jerusalém, o Patriarca escreve que hoje "a guerra se tornou objeto de adoração idólatra" e "os civis não são mais considerados vítimas colaterais". Ele denuncia a situação em Gaza e na Cisjordânia: "A agressão e os assentamentos estão aumentando".
A informação é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por La Repubblica, 27-04-2026.
Um diagnóstico lúcido, que reconhece a dor de todos, mas distingue entre ocupantes e ocupados, e um apelo final à coexistência da fraternidade e da paz. O Cardeal Pierbattista Pizzaballa publicou hoje uma carta pastoral dirigida aos fiéis de sua diocese, Jerusalém, na qual exorta os cristãos a viverem sem se deixarem abater pela atual "desordem global".
"7 de outubro de 2023 e a guerra em Gaza significaram algo diferente e devastador para cada um dos dois povos desta terra", escreve o Patriarca Latino de Jerusalém no texto de 32 páginas. "Para os palestinos, representa a fase final e dramática de uma longa história de humilhação e êxodo. Para os israelenses, no entanto, representa algo sem precedentes: uma violência que trouxe à tona os horrores ocorridos na Europa há oitenta anos."
Adeus multilateralismo
Antes de se concentrar na missão dos cristãos de Jerusalém e examinar as implicações pastorais concretas para os fiéis, sacerdotes, jovens e idosos, famílias, escolas e hospitais, a carta pastoral faz uma "avaliação do atual estado de desordem em que a Terra Santa e o mundo caíram".
Pizzaballa, que nas últimas semanas não poupou críticas à missão de paz de Donald Trump, observa que um mundo em que "a comunidade internacional, e em particular o mundo ocidental, acreditava numa ordem internacional baseada em regras, tratados e multilateralismo" foi substituído por uma situação em que "a guerra se tornou objeto de um culto idólatra", "os civis já não são considerados vítimas colaterais" e "algumas potências mundiais, que outrora se apresentavam como garantes da ordem internacional (...) escolhem de que lado ficar não com base na justiça, mas nos seus próprios interesses estratégicos e econômicos".
Jerusalém, Gaza, Cisjordânia
As referências aos acontecimentos atuais são claras: "Os Lugares Santos, que deveriam ser espaços de oração, estão se tornando campos de batalha pela identidade. Textos sagrados são invocados para justificar a violência, a ocupação e o terrorismo. Acredito que esse abuso do nome de Deus seja o pecado mais grave do nosso tempo", escreve Pizzaballa, que foi impedido de acessar o Santo Sepulcro pela polícia israelense durante a Semana Santa.
Em Gaza, que Pizzaballa visitou diversas vezes desde o início da guerra, "nossos irmãos (...) viveram durante anos sob bombas, sem água, sem comida, sem remédios. E agora vivem entre os escombros". Na Cisjordânia, "a agressão causada pela ocupação e a total ausência do Estado de Direito estão aumentando, com a expansão contínua dos assentamentos. Se essa tendência não for interrompida, corre-se o risco de cristalização de uma situação de ocupação permanente que erode qualquer possibilidade de uma solução justa e compartilhada". E em Israel, escreve o patriarca, "nossos irmãos e irmãs vivem em um contexto diferente, mas não sem seus problemas: discriminação social, desigualdade econômica e crescente insegurança".
Dor e dor
"A dor é sempre dor, e não é nossa intenção hierarquizar o sofrimento", escreve Pizzaballa. "Embora respeitemos as diversas situações e reconheçamos sua complexidade, não podemos considerá-las todas idênticas: há uma diferença entre quem exerce o poder e quem o sofre, entre quem governa e quem é governado, entre quem possui armas e quem é ameaçado por elas, entre quem ocupa e quem é ocupado. As responsabilidades são diferentes. Reconhecer essa diferença é um ato de respeito à justiça e à verdade."
Morto com inteligência artificial
De maneira mais geral, o Patriarca Latino aponta o dedo para o uso da inteligência artificial na guerra: "Estamos entrando em uma fase em que algoritmos estão selecionando alvos, tomando decisões que até recentemente eram exclusivamente humanas". Pizzaballa pergunta: "Muitas vezes me perguntei, por exemplo: quantas pessoas morreram nessas guerras recentes em nosso país por causa da 'decisão de um algoritmo'?"
O Patriarca Latino de Jerusalém lamenta que, também devido aos algoritmos das redes sociais, "estejamos cada vez mais nos isolando em grupos fechados, em enclaves sociais onde se encontram apenas pessoas que pensam da mesma forma, que falam a mesma língua, que compartilham os mesmos medos".
“Uma terra tão disputada quanto amada”
Mas "esta terra — tão disputada quanto amada — é lar de todos: judeus israelenses e árabes palestinos; cristãos, judeus, muçulmanos, drusos, samaritanos, bahá'ís e pessoas de todas as outras crenças. Foi Deus quem nos colocou aqui. Nós, cristãos, em particular, temos um mandato específico: ser sal e luz onde quer que estejamos."
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