Heresia-imortalidade virtual. "Há urgência de um 'novo humanismo' que contrarie o desequilíbrio entre uma ciência e tecnologia cada vez mais poderosas e uma política, uma ética e um direito cada vez menos capazes de oferecer um arcabouço de regras maduras e adequadas para defender a humanidade", afirma o Arcebispo Vincenzo Paglia, que há anos se dedica a reunir pioneiros e ideólogos da IA no Vaticano, muito antes de Peter Thiel lançar sua escalada aos céus proclamando a metafísica hi-tech. Em seu novo livro, La vita e l'attesa (A vida e a expectativa, em tradução livre, Vita e pensiero), o presidente emérito da Pontifícia Academia para a Vida reflete sobre as coisas derradeiras: da velhice à morte, da ressurreição à vida eterna. Sem esquecer de abordar o risco de uma nova teologia baseada na IA.
A entrevista é de Giacomo Galeazzi, publicada por La Stampa, 24-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Trump ameaça aniquilar civilizações com a guerra, e Thiel coloca a IA no lugar de Deus. Apenas prepotência?
O poder insensato da força prevalece, com as consequentes tragédias 'apocalípticas'. Conversei sobre isso com muitos leigos e constatei seu interesse. Recentemente, uma amiga me enviou uma breve reflexão de Habermas sobre o funeral de um seu amigo não crente, Max Frisch, que queria que seu funeral fosse realizado em uma igreja, mas sem padre e sem bênção: uma cerimônia claramente laica, porém em um lugar sagrado. Jürgen Habermas escreve que essa escolha documenta publicamente o fato de que a modernidade iluminada ainda não encontrou um equivalente adequado para a gestão religiosa do rito de passagem final que conclui uma história de vida. Melancolia por algo que se perdeu para sempre.
Seria a resiliência do sagrado?
Segundo o filósofo da Escola de Frankfurt, não podemos descartar a alternativa entre uma perspectiva antropocêntrica e um olhar que, à distância do pensamento teocêntrico ou cosmocêntrico, relativiza o ser humano. No entanto, faz diferença quando dialogamos uns com os outros e quando simplesmente nos limitamos a falar uns dos outros. Há tempo não faltam leigos abordando o tema do além, de Heidegger a Simone de Beauvoir, de Sartre a Bobbio, de Gadamer a Habermas, de Severino a Reale e Cacciari, de Violante a Polito. Enquanto isso, o neologismo ‘foreverismo’ indica a estratégia específica adotada pelo capitalismo e pelo marketing com vistas a uma osmose completa entre passado e presente. De modo a ter um ‘para sempre’ garantido pela tecnologia, enquanto a perspectiva do ‘pós-humano’ continua a ganhar terreno.
Até que ponto o imenso poder das novas tecnologias pode afetar?
A relação ambígua que as tecnologias emergentes também estabeleceram com a morte é preocupante. Devido ao poder da tecnologia, como alerta Schiavone, o homem contemporâneo está assumindo cada vez mais o controle de sua forma biológica a ponto de pretender se reapropriar de seu próprio destino. Semelhar-se a Deus não seria a condição de partida, pois isso nos levaria a um criacionismo implausível. Seria, em vez disso, o ponto de chegada, desejado e conquistado por nós a partir de certo ponto.
A fé é necessária para a vida após a morte?
Pelo viés leigo poderíamos deixar de chamá-la de nosso destino. Religiosamente, porém, é nossa perspectiva escatológica. Na realidade, estamos diante de uma mudança avassaladora que desafia a todos, principalmente os crentes. A tecnologia é tão invasiva que está alterando radicalmente a qualidade ‘natural’ da morte. Schiavone acredita que cada vez mais provavelmente seremos nós que decidiremos quando, como e, num futuro mais distante, até mesmo se morrer.
Uma imortalidade virtual?
Sim, há quem pense em uma ligação cada vez mais estreita entre tecnologia e imortalidade. Leão XIV já apontou isso. Muitas visões antropológicas atuais prometem imortalidade imanente, teorizando o prolongamento da vida terrena por meio da tecnologia. É o cenário do transumano, que desponta no horizonte dos desafios do nosso tempo. Dentro de algumas gerações, poderemos ter uma espécie humana pós-natural na Terra. Nessa linha, alerta Schiavone, teremos uma revolução cultural que vê a morte não mais confiada a uma situação natural imutável, mas sim às nossas próprias mãos. Ter vidas muito mais longas e plenas, dizer ‘chega, terminei’, poderá até se tornar uma escolha compartilhada por muitos. Com graves riscos.
O fim do humano, então?
Ainda me lembro do espanto dos participantes da assembleia da Pontifícia Academia para a Vida sobre a robótica – isso em 2019 – diante da convicta afirmação do cientista japonês Ishiguro: 'Somos a última geração orgânica, a próxima será inorgânica, talvez de lítio'. Encontramo-nos numa condição em que a velocidade da tecnologia é incomparável em relação à lentidão das escolhas humanistas. Elon Musk acredita que ‘a semi-imortalidade é uma questão facilmente solucionável; o envelhecimento pode ser alterado com os instrumentos biológicos certos. Nosso corpo é extremamente sincronizado com sua idade, justamente como um programa. Então, se pudermos mudar o programa, podemos viver mais’. E Mark Zuckerberg prometeu US$ 3 bilhões em dez anos para os programas médicos de sua fundação, para encontrar maneiras de ‘curar, prevenir e controlar todas as doenças de agora até o final do século’. Peter Thiel, fundador da Palantir, se rebela contra a ideologia da inevitabilidade da morte de cada indivíduo. O poder da tecnologia é enorme, e não basta simplesmente se contentar em impor parâmetros e limites à pesquisa."
Como devemos agir?
Leigos e crentes devem se engajar responsavelmente em uma reflexão ética que reequilibre o imenso poder da tecnologia. Não se trata de bloquear o desenvolvimento tecnológico. Mas também não se deve abandoná-lo ao seu próprio controle. O horizonte a ser seguido de forma resoluta é a humanização da tecnologia, não a tecnologização do ser humano. Em relação às 'coisas derradeiras', as tecnologias emergentes desafiam radicalmente a antropologia. O risco de desfigurar a vida a ponto de destruí-la é real, como a liberação e aceitação da guerra já evidenciam. O Criador confiou à humanidade uma dupla responsabilidade: o cuidado da ‘criação’ (o jardim bíblico) e o das ‘gerações’. Não nascemos simplesmente para nos adaptarmos à vida, nascemos para confrontá-la, para ajudá-la, para transformá-la, para torná-la melhor para todos, especialmente para aqueles que sentem maior dificuldade.