O 'magistério de Santa Marta', ou a homilia diária que enriquecia um dia

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24 Abril 2026

No aniversário da morte do Papa Francisco, entre as muitas lembranças e comentários que emergem e preenchem o "poliedro" do intenso pontificado — mas também de toda a vida de Jorge Mario Bergoglio —, parece-me que dois caminhos foram menos percorridos, dois caminhos que, no entanto, dizem muito do homem, do cristão e do pastor vindo "do fim do mundo".

O artigo é de Sergio Di Benedetto, professor de Literatura Italiana na Universidade da Suíça Italiana, em Lugano, publicado por Vino Nuovo, 23-04-2026.

Eis o artigo. 

O primeiro diz respeito a uma dimensão mais pessoal: o que e como palavras, gestos, ações, processos e documentos do Papa Francisco doaram à vida dos indivíduos. Sendo uma questão íntima, a resposta só pode ser única e diferente para cada um. Porém, parece-me que um motivo recorrente — e penso também no belo artigo publicado ontem por Lucio Brunelli sobre Isabel, a mulher transexual a quem Bergoglio lavou os pés na prisão na quinta-feira santa de 2015 — foi a capacidade, boa, rica, geradora de Francisco de não fazer ninguém se sentir errado. Claro, há erros, pecados, distâncias do Pai, mas o Pai nunca está distante de homens e mulheres. Não te fazer sentir errado nunca, mas sempre esperado, amado, acolhido: é o coração do pontificado da misericórdia. E o quanto isso dá esperança, consolação e força é um grande sinal do amor de um homem que se tornou papa já idoso, mas capaz de levar a si mesmo a Roma, ao trono de Pedro.

Depois há, como em cada um, os limites do caráter e das experiências. Porém seria ingeneroso, ao começar a traçar balanços, não lembrar quando e como foi escolhido Bergoglio: a renúncia de Bento XVI, uma cúria presa de 'corvos', o pedido explícito de abrir portas, janelas e corações. Algumas reconstruções históricas, feitas nas páginas dos jornais, parecem às vezes esquecer isso.

O magistério de Santa Marta

Uma segunda nota, menos considerada, diz respeito ao que foi verdadeiramente o "magistério de Santa Marta", como às vezes se tende a dizer de modo crítico. Para mim, ao contrário, o magistério de Santa Marta foi um dom precioso, e me refiro à Missa celebrada pelo Papa, quotidianamente, com outros fiéis, aberta a pessoas diferentes, com uma homilia simples, direta, densa, que transudava humanidade e vida concreta. Aquele pensamento sobre a Palavra do dia foi, para mim — mas sei que também para tantos outros — um quotidiano parar, breve certamente, mas significativo, sobre o Evangelho. Nunca li ou ouvi aquelas homilias sem encontrar algo que me estimulasse, me enriquecesse, me fizesse rezar, e ao mesmo tempo me fizesse sentir parte de uma Igreja, simplesmente.

Parecia algo tão simples: o papa celebra todos os dias uma Missa, por que não "abri-la"? É também isso um magistério que se faz próximo, que acolhe. Alguém sentiu saudade da luz acesa no palácio apostólico, como se o magistério de um papa pudesse sustentar-se num interruptor; para mim, pessoalmente, nutria aquela homilia de Santa Marta, que por tantos anos acompanhou uma viagem, um momento de pausa, um instante de reflexão.

No fundo, entre os muitos motivos de gratidão que tenho para com Jorge Mario Bergoglio — e que permanecem no fundo do coração, como para tantos —, quero lembrar dois: fez sentir que há legitimamente um lugar na Igreja para todos. E, segundo, mais pessoal: com escolhas de estilo, com palavras, com ações, de alguma forma, desmascarava a minha mediocridade e me empurrava a ser mais aderente ao Evangelho. E isso, estou convencido, é uma tarefa de pastor. E não é pouco.

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