07 Abril 2026
O papel dos países do Sul Global não pode ser o de um mero repositório de centros de dados. Há mais riscos a serem considerados além dos ambientais.
A reportagem é de Laura Marajofsky, jornalista especializada em cultura, sociedade e gênero, em artigo publicado por El País, 07-04-2026.
Eis o texto.
Embora as discussões na mídia sobre os usos da inteligência artificial (IA) tendam a se concentrar nos impactos sociais, culturais e educacionais, há uma questão urgente que merece destaque: os crescentes desafios geopolíticos e ambientais em países do Sul Global, como a Argentina, com vastos territórios e abundantes recursos naturais. Fala-se agora não apenas de uma bolha da IA, mas também da capacidade dessas gigantes de consumir enormes quantidades de energia. As cinco grandes empresas de tecnologia investirão US$ 736 milhões entre 2025 e 2026, segundo o Goldman Sachs, e a Agência Internacional de Energia afirma que, até 2030, elas absorverão aproximadamente 20% da demanda global de energia.
Quando foi anunciada, no ano passado, a possibilidade de construção de um centro de dados da OpenAI na Patagônia, muitas vozes alertaram para a perda da soberania digital, além dos custos ambientais. Esse investimento ocorre no âmbito do controverso RIGI (Regime de Incentivos para Grandes Investimentos), promovido pelo atual governo, que priva o governo federal de ferramentas para exigir padrões ambientais, fiscais e de produção local e que, para muitos críticos, nada mais é do que um plano gradual para entregar os recursos argentinos ao maior licitante estrangeiro.
De fato, está sendo discutida no Congresso uma reforma da Lei das Geleiras que poderia viabilizar atividades atualmente proibidas em áreas protegidas, como mineração e projetos de infraestrutura, o que constitui um sério retrocesso.
Yas García, diretora de IA e dados da Open Knowledge Foundation e da Jump Education, lamenta a falta de transparência nas parcerias público-privadas. "Geralmente é opaco porque mistura uso da terra, infraestrutura de rede elétrica, contratos de energia, benefícios fiscais (dependendo do país) e compromissos de emprego, tudo sob sigilo comercial", critica. Ela acrescenta que o lançamento do Stargate Argentina com a Sur Energy e a Open AI parece criar empregos, mas, na realidade, a força de trabalho será inicialmente para a construção. "É um ponto positivo, mas não escalável. Depois, restará uma pequena equipe." A questão para ela é o que dizem as entrelinhas dos contratos. "Terra? Energia? Quem paga pela infraestrutura?", questiona.
Num contexto em que as empresas se apressam a fechar negócios circulares (a OpenAI paga à Oracle por capacidade computacional, a Oracle paga à Nvidia por chips e a Nvidia investe milhões na OpenAI) e em que procuram fechar contratos antes do estouro da bolha, a ideia de construir um centro de dados em praticamente qualquer lugar, seja nos polos ou mesmo no espaço sideral, já não parece exótica.
Segundo Milagros Miceli, socióloga e doutora em engenharia da computação pelo Instituto DAIR e pelo Instituto Weizenbaum, a construção de centros de dados desempenha um papel crucial para convencer investidores. “O centro de dados é um local tangível que pode ser mostrado a um investidor para dizer: ‘Estamos fazendo algo’. A construção de centros de dados é, de certa forma, inseparável da bolha da IA, que é definitivamente uma bolha e, como tal, é sustentada por uma promessa: temos que investir porque isso vai melhorar tudo, porque isso vai revolucionar o setor.”
Miceli também destaca que, embora do ponto de vista técnico os sistemas de automação possam ser vistos não como consumidores vorazes de energia e dados, mas como algo mais sustentável, isso exigiria a criação de sistemas com menos dados, maior cuidado e infraestruturas muito menores. "Mas essa não é a mentalidade predominante na indústria de inteligência artificial, especialmente no Ocidente, especialmente no Vale do Silício", lamenta ele.
Mas, além das atitudes predominantes no exterior, a situação aqui não é melhor. Enquanto grandes corporações estrangeiras não encontram incentivos para mitigar o impacto ambiental da instalação desses centros, nem marcos legais que as obriguem a fazê-lo, na Argentina o projeto político de "desregulamentação" não só fomenta a falta de transparência no processo de negociação, como também se beneficia da própria ausência de controles em todos os níveis.
Há poucas semanas, o Ministro da Desregulamentação e Transformação, Federico Sturzenegger, declarou publicamente — contrariando a tendência até mesmo no Norte Global — que sua única tarefa é impedir qualquer regulamentação da IA. Que tipo de salvaguardas podemos esperar, então?
Dependência digital
Existem outros riscos a serem considerados além dos ambientais, e além da questão de haver ou não maior clareza em relação às condições de desenvolvimento da infraestrutura e ao uso de recursos locais. Estamos falando de algo muito importante, já destacado pela Nadia (Nó Argentino de Inteligência Artificial) em um manifesto que publicaram: nossa autonomia e nosso papel na cadeia de valor global da IA, para não acabarmos como um mero "repositório" de data centers.
O que a Argentina ganha com isso? É uma pergunta essencial, aplicável a toda a região, já que discutir o desenvolvimento de infraestrutura e tecnologia a partir do Sul Global é um dos maiores desafios. “Soberania digital não significa recusar investimentos; significa negociar de forma a garantir controle, transparência, retornos locais e a proteção de direitos”, explica García. “A Argentina tem potencial para receber investimentos dos principais atores do setor tecnológico, mas precisamos estabelecer agora as condições necessárias, criando um precedente regulatório sólido.”
Podemos então considerar alternativas mais soberanas? E como seria esse investimento em autonomia real? García afirma que a Argentina possui empresas com potencial para liderar uma estratégia de soberania, como a YPF e a Arsat no setor de energia. "Mas a soberania digital não é liderada por um único ator: requer uma estratégia nacional", observa ele.
“Precisamos de uma infraestrutura e conectividade públicas robustas, um sistema energético que garanta adicionalidade e flexibilidade de energias renováveis sem competir com a demanda local, e uma gama de capacidades — universidades, ciência e o setor produtivo — para capturar valor”, conclui. “Se atrairmos apenas máquinas sem desenvolver capacidades, nos tornaremos um território da computação e não um produtor de tecnologia.”
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