02 Abril 2026
"Os países europeus que hoje falam de crueldade nunca intervieram, apesar dos testemunhos de sobreviventes, dos relatórios das ONGs e das denúncias da ONU. Se tivessem intervindo, quem sabe, talvez a pena de morte para os palestinos nunca tivesse existido. Se tivessem intervindo antes, talvez não teria ocorrido um genocídio. Ou uma nova guerra ilegal", escreve Chiara Cruciati, jornalista italiana, em artigo publicado por il manifesto, 31-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Em todo os lugares do mundo, toda lei sobre a pena de morte é a forma extrema de controle sobre classes e grupos étnicos considerados subalternos. Os pobres, os negros e os dissidentes são as primeiras vítimas da forca do Estado. A lei aprovada ontem pelo parlamento israelense deixa isso claro: perante a lei, não existe igualdade.
A pena máxima introduzida por decisão da extrema-direita racista liderada por Itamar Ben Gvir é uma pena de morte racializada: ela não é aplicada com base no crime, mas no suposto autor. Somente os palestinos acusados de assassinar cidadãos israelenses por motivos nacionalistas e cuja intenção é “negar a existência do Estado de Israel” serão vítimas. Não afetará os judeus israelenses que utilizam o instrumento do terror para impor sua hegemonia. A lei não afetará os colonos e os extremistas que queimam aldeias sob a proteção da escuridão e matam palestinos à luz do dia, por razões que poderíamos chamar — para usar a terminologia da nova legislação — de "nacionalistas".
A desigualdade estrutural à qual a população palestina está sujeita em todo o território — Israel, Gaza, Cisjordânia, Jerusalém — e que agora é até mesmo chamada pelo seu nome pela Corte Internacional de Justiça (apartheid), equipa-se, portanto, com uma nova ferramenta. Não se trata de "dissuasão", como dizem os defensores da lei e seus apoiadores na opinião pública israelense, mas de uma mistura de vingança e supremacia judaica que marca da forma mais descarada possível a longa liderança de Benjamin Netanyahu. A vingança pode ser percebida nos detalhes: a impossibilidade de apelação, o isolamento de 90 dias antes da execução, a proibição de encontrar-se com familiares para uma despedida final, o enforcamento para que cada corpo sirva de advertência.
Diante de uma deriva desse tipo, alguns países europeus — Itália, França, Alemanha e Reino Unido — expressaram "preocupação" e classificaram o projeto de lei como "cruel". Essa crueldade, contudo, não é improvisada: faz parte de um processo histórico que ganhou novo fôlego após 7 de outubro de 2023 e que viu as prisões israelenses transformadas em uma rede de campos de tortura (como a organização israelense B'Tselem as rotulou). Embora as prisões israelenses sempre tenham sido locais de opressão, punição coletiva e tortura, nos últimos dois anos e meio elevaram a desumanização do "inimigo" a níveis sem precedentes. Os relatos dos sobreviventes são todos semelhantes e revoltantes: torturas diárias, espancamentos, superlotação, privação de comida, de higiene pessoal e de sono, estupros.
Um buraco negro do qual não se sai igual a como se entrou: a prisão israelense pós-7 de outubro esvazia seus detentos, tanto de carne quanto de alma, transformando-os em larvas humanas que, em muitos casos, sofrem danos físicos e mentais permanentes. Desde outubro de 2023, quase cem detentos perderam a vida nessa rede, alguns por espancamento, outros por fome, outros por falta de atendimento. Um número provavelmente subestimado: até hoje, o número exato de palestinos de Gaza capturados durante a invasão terrestre é desconhecido — 3.000, 5.000, talvez mais. Corpos engolidos pelo buraco negro, privados até mesmo da dignidade de serem um dado na estatística.
Contra tamanha brutalidade, jamais questionada pela magistratura israelense (aquela que milhões de pessoas defenderam nas ruas de Tel Aviv antes da guerra e, segundo muitos observadores internacionais, o maior sintoma da suposta democracia de Israel), nenhuma crítica foi feita. Os países europeus que hoje falam de crueldade nunca intervieram, apesar dos testemunhos de sobreviventes, dos relatórios das ONGs e das denúncias da ONU. Se tivessem intervindo, quem sabe, talvez a pena de morte para os palestinos nunca tivesse existido. Se tivessem intervindo antes, talvez não teria ocorrido um genocídio. Ou uma nova guerra ilegal.
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