26 Março 2026
Conflito pode ser momento decisivo para nos afastarmos dos combustíveis fósseis, mas há quem alerte sobre o risco de contratempos no curto prazo.
A informação é publicada por ClimaInfo, 25-03-2026.
O ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã jogou por terra o argumento da segurança energética dos combustíveis fósseis ao provocar a escalada dos preços do petróleo e do gás e afetar o abastecimento em todo o mundo. Cenário que tornou a transição energética uma urgência econômico-financeira, além da climática. Mas há o risco de governos ampliarem subsídios e resgatarem o carvão como alternativas para escapar da crise no curto prazo.
Analistas ouvidos pela CNBC destacaram que o conflito provavelmente acelerará a transição para longe dos combustíveis fósseis e fará com que os países repensem o papel das fontes renováveis no fortalecimento da segurança energética. Afinal, o fechamento do Estreito de Ormuz escancarou o quanto o mundo continua profundamente dependente de rotas comerciais frágeis de combustíveis fósseis, enquanto a disparada dos preços abalou os mercados de energia e desencadeou temores generalizados de inflação.
A extrema dependência da Ásia das importações colocou as economias do continente na linha de frente da crise dos combustíveis fósseis, mas as interrupções no fornecimento também afetam duramente a Europa e a África, onde os países estão enfrentando o aumento dos combustíveis e uma ameaça considerável à segurança alimentar. Nos Estados Unidos, os preços dos derivados subiram a níveis históricos. E o Brasil tenta conter os aumentos do óleo diesel, usado por caminhões – o principal modal de carga do país -, para evitar um efeito cascata sobre os preços e pressões inflacionárias.
O diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (IEA), Fatih Birol, disse que a transição energética estava avançando “muito fortemente” antes do início da guerra com o Irã, mas as consequências do choque energético resultante significam que os países provavelmente direcionarão ainda mais investimentos para fontes renováveis. “É incrível. Dez anos atrás, a energia solar era uma história romântica, mas agora é um negócio. Espero que uma das respostas a esta crise seja a aceleração das renováveis. Não só porque ajudam a reduzir as emissões, mas também porque são uma fonte de energia nacional.”
Contudo, há ameaças. Pesquisador sênior em energia e clima do Instituto Real Elcano, em Madri (Espanha), Gonzalo Escribano cita as pressões sobre os governos para subsidiar os combustíveis fósseis nas bombas e o potencial do carvão retornar temporariamente a alguns países produtores, caso o conflito se prolongue. Mesmo assim, Escribano afirma que a forma como os países encaram as renováveis mudou “definitivamente” com a guerra. A transição já não é vista necessariamente como uma adoção de práticas sustentáveis, mas como uma tentativa de reforçar a segurança energética nacional.
Já a indústria de petróleo e gás está atônita. Para executivos, diferentemente da resposta internacional coordenada para conter o ataque da Rússia à Ucrânia, em 2022, a guerra no Oriente Médio recebeu pouco apoio dos aliados dos EUA e pareceu preocupantemente improvisada, informa o POLITICO. Além disso, as últimas falas de Donald Trump sobre uma possível solução para o conflito e que os preços dos combustíveis fósseis vão cair rapidamente após o fim da guerra não convenceram, destaca o New York Times.
Na avaliação de economistas e executivos do setor, podem se passar semanas, senão meses, até que haja uma redução real nos custos de energia nos Estados Unidos. O fim da guerra atenuaria a crise geopolítica e provavelmente ajudaria a reabrir as rotas marítimas congestionadas no Oriente Médio, reduzindo os preços dos combustíveis fósseis de seus picos recentes. Mas qualquer alívio chegaria gradualmente para a maioria dos consumidores – e provavelmente não rápido o suficiente para desfazer os danos à economia estadunidense. Análise que vale também para os países do planeta que dependem dos combustíveis fósseis – ou seja, todos.
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