24 Março 2026
A Organização Meteorológica Mundial alerta que o planeta está a sofrer ondas de calor anuais recordes, que alimentam eventos extremos como os incêndios florestais em Espanha no verão passado.
A reportagem é de Manuel Planelles, publicada por El País, 23-06-2026.
À medida que os efeitos da guerra no Oriente Médio, desencadeada pelo ataque dos EUA e de Israel ao Irã, se tornam mais evidentes e impactam mais fortemente o bolso da maioria das pessoas, o debate sobre a transição para uma economia livre de combustíveis fósseis está se voltando cada vez mais para a segurança. “Nossa dependência de combustíveis fósseis está desestabilizando tanto o clima quanto a segurança global”, afirma António Guterres, Secretário-Geral da ONU. “Precisamos acelerar uma transição justa para energias renováveis”, acrescenta. “As energias renováveis oferecem segurança climática, segurança energética e segurança nacional.”
Estas palavras fazem parte do discurso proferido pelo chefe da ONU por ocasião da publicação, nesta segunda-feira, do relatório Estado do Clima Global, a avaliação anual da Organização Meteorológica Mundial (OMM) sobre a evolução do aquecimento global. Esta análise para 2025 é, como resume Guterres, um alerta: “O caos climático está se acelerando e a demora [em tomar medidas para contê-lo] é fatal”.
O debate sobre a segurança energética ligada aos combustíveis fósseis ganhou força após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, que levou a uma guerra na Europa que continua até hoje. A União Europeia optou então por energias renováveis para se tornar independente do gás russo. Mas essa transição não está progredindo no ritmo necessário em todo o mundo. Enquanto isso, as mudanças climáticas continuaram sem controle nos últimos quatro anos devido a esses combustíveis que, quando queimados para produzir energia, liberam gases que superaquecem o planeta. 2023, 2024 e 2025 foram os três anos mais quentes já registrados na Terra em pelo menos 176 anos, de acordo com um estudo da OMM (Organização Meteorológica Mundial) publicado nesta segunda-feira. As medições diretas de temperatura usadas por essa agência da ONU começam em 1850, mas paleoclimatologistas, que usam métodos indiretos para rastrear o aquecimento, afirmam que é preciso voltar milhares de anos para encontrar um planeta tão quente.
Além de analisar o passado, a OMM alerta em seu relatório que o aumento das temperaturas está levando a um aumento de "eventos extremos em todo o mundo" atualmente, como ondas de calor, chuvas intensas e ciclones tropicais, que "ressaltam a vulnerabilidade de nossas economias e sociedades".
Neste relatório anual, a OMM compilou os 16 eventos climáticos extremos de maior impacto em todo o mundo. Entre eles, estão as ondas de calor no sul da Europa que ocorreram entre junho e agosto. "Tanto Portugal (46,6 graus Celsius) quanto a Espanha (46,0 °C) registraram recordes nacionais de temperatura máxima em junho, enquanto a Turquia registrou um recorde nacional de temperatura máxima (50,5 °C) em julho", observa o estudo, que também se concentra nos incêndios florestais que devastaram o noroeste da Península Ibérica durante o mês de agosto. "Mais de 390.000 hectares foram queimados na Espanha até o final do ano, cinco vezes a média para o período de 2006 a 2024", acrescenta a OMM.
Na América Latina, essa organização, que inclui os serviços meteorológicos de centenas de países ao redor do mundo, concentra-se na "seca prolongada" vivenciada no ano passado por "muitas partes da América do Sul, especialmente na bacia amazônica", embora a precipitação em 2025 tenha atingido níveis próximos ao normal.
Desequilíbrio
Esse aquecimento global está ligado ao aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, que retêm o calor no planeta. "Os níveis dos três principais gases de efeito estufa — dióxido de carbono, metano e óxido nitroso — continuaram a subir em 2025", afirma a OMM (Organização Meteorológica Mundial).
O que está por trás das mudanças climáticas é um “desequilíbrio energético” entre o calor que o planeta retém e o calor que ele é capaz de liberar, explica a OMM. “O calor aquece o oceano, os continentes e a atmosfera, e derrete o gelo”, acrescenta a OMM. “Desde 1960, o desequilíbrio energético da Terra vem aumentando, especialmente nos últimos 20 anos em comparação com os 66 anos anteriores”, resume o relatório. “As atividades humanas estão perturbando cada vez mais o equilíbrio natural, e viveremos com essas consequências por centenas e milhares de anos”, alerta a Secretária-Geral da OMM, Celeste Saulo.
O oceano está no centro desta história porque continua a absorver a maior parte do excesso de energia causado pelas mudanças climáticas, como explica a OMM (Organização Meteorológica Mundial). “Cerca de 5% desse excesso de energia está aquecendo a terra, 1% aquecendo a atmosfera e 3% aquecendo e derretendo a criosfera [as áreas congeladas]. No entanto, a maior parte, cerca de 91%, acaba aquecendo o oceano.” E, como explicam os especialistas da agência, “as mudanças na temperatura global do oceano são irreversíveis em escalas de tempo de séculos a milênios”.
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