23 Março 2026
Após o ultimato de 48 horas da Casa Branca, os aiatolás relançam suas atividades e anunciam que irão atingir empresas ligadas aos EUA no Golfo.
A reportagem é de Gabriella Colarusso, publicada por La Repubblica, 23-03-2026.
Não há "boas opções" sobre a mesa, nem para o Irã nem para os Estados Unidos. O comentário de um diplomata europeu destacado no Golfo Pérsico captura o curto-circuito para o qual a guerra parece ter convergido. O ultimato de Trump ao Irã — reabrir incondicionalmente o Estreito de Ormuz, caso contrário, as forças armadas americanas atacarão a infraestrutura energética civil do país — recebeu uma resposta igual e oposta de Teerã. O presidente Pezeshkian classificou a medida como um ato de "desespero". Mohammed Bagher Ghalibaf, o influente presidente do Parlamento iraniano, que é um dos principais articuladores da guerra juntamente com o chefe da Guarda Revolucionária Islâmica (Pasdaran), Ahmed Vahidi, esclareceu o ponto: "Infraestruturas críticas, de energia e de petróleo na região serão consideradas alvos legítimos e destruídas irreversivelmente, e os preços do petróleo subirão por um longo período". Além das bases militares, "as entidades que financiam o orçamento militar dos EUA também são alvos legítimos".
Teerã também poderia bloquear completamente o Estreito, impedindo a passagem até mesmo de países considerados não hostis, "até que a infraestrutura iraniana seja reconstruída", afirma o Comando Conjunto de Operações Militares Khatam Al-Anbiya. Tal medida também afastaria o Irã de aliados como a China ou de países neutros como a Índia, mas é certo que a influência de Teerã sobre o Estreito de Ormuz é fundamental para a guerra.
A geografia é o destino, e a República Islâmica pretende usar seu controle sobre o estreito para alcançar as negociações mais favoráveis possíveis e criar um novo equilíbrio regional baseado na supremacia marítima após o fim da guerra. Algumas embarcações já estão pagando até US$ 2 milhões a Teerã pela permissão de trânsito. Essa informação foi confirmada por Alaeddin Boroujrdi, do Comitê de Segurança do Parlamento iraniano, e pela seguradora Lloyd's.
A ameaça de um fechamento completo do canal e de ataques às fontes de energia do Golfo é real. Até o momento, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) respondeu golpe a golpe aos ataques israelenses e americanos, visando alvos semelhantes, como Dimona, cidade próxima à usina nuclear israelense, após o bombardeio da instalação iraniana em Natanz. Da perspectiva de Teerã, a contenção exercida durante a Guerra dos Doze Dias, com a resposta de mísseis comunicada aos países da região, foi uma das causas do novo conflito.
Washington está numa encruzilhada: cumprir as ameaças de Trump ou abandoná-las, arriscando minar sua própria capacidade de dissuasão. É o que o cientista político americano Robert A. Pape chama de "armadilha da escalada": sucessos táticos, como o bombardeio de instalações militares iranianas, criam expectativas de resultados estratégicos que, em última análise, não se concretizam — a queda da República Islâmica ou sua rendição. Isso poderia levar os Estados Unidos a intensificar ainda mais a ação militar na tentativa de obter ganhos políticos. A alternativa, a diplomacia, parece improvável no momento. O Axios informa que os americanos estão se preparando para exigir uma paralisação de cinco anos no programa de mísseis, o enriquecimento zero de urânio, o desmantelamento das instalações nucleares, monitoramento internacional rigoroso e um máximo de 1.000 mísseis.
A agência de notícias Tasnim, órgão oficial da Guarda Revolucionária, detalha algumas das exigências do Irã: uma garantia de que não haverá mais agressões contra o país, o fechamento das bases militares americanas no Oriente Médio, o pagamento de indenizações ao Irã, o fim da guerra contra todos os grupos afiliados à região, começando pelo Hezbollah libanês, e o julgamento e a extradição de jornalistas que trabalham para veículos considerados antirregime. Os termos das partes são tão discrepantes quanto a reabertura do Estreito de Ormuz.
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