19 Março 2026
Os negociadores haviam chegado a um acordo sobre pontos-chave, mas dois dias depois a guerra eclodiu.
A reportagem é de Patrick Wintour, publicado por The Guardian e reproduzido por El Diario, 18-03-2026.
Talvez a mais inesperada das inúmeras e estranhas trocas de mensagens que ocorreram antes do ataque dos EUA e de Israel ao Irã tenha sido o convite feito pelo enviado especial de Donald Trump, Steve Witkoff, ao ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, para um encontro com ele e com o genro de Trump, Jared Kushner, no porta-aviões Abraham Lincoln.
A ideia de que Araghchi abandonaria as negociações sobre o futuro do programa nuclear iraniano, que estavam sendo realizadas em Omã, para visitar o navio enviado ao Golfo Pérsico com o objetivo de derrubar seu governo é, no mínimo, peculiar.
Mas também demonstra a abordagem pouco ortodoxa de Kushner e Witkoff às negociações nucleares, que se estenderam ao longo do ano passado e deste ano, e foram interrompidas duas vezes por bombardeios israelenses e americanos.
Um diplomata de um país do Golfo, com conhecimento direto das negociações e muito irritado com o comportamento de Witkoff e Kushner, descreveu a dupla como "um agente israelense que conspirou para forçar o presidente dos EUA a entrar em uma guerra da qual ele agora está tentando desesperadamente sair".
Witkoff não se considera um especialista na região; em uma de suas últimas entrevistas, ele se referiu ao Estreito de Ormuz como o "Golfo de Ormuz". Em outra, reconheceu que tinha apenas um conhecimento geral do programa nuclear iraniano, mas insistiu que era "competente para discuti-lo" porque o havia "estudado".
Talvez tenha sido esse o caso, mas nas cinco sessões da primeira rodada de negociações realizadas no ano passado — antes da guerra de 12 dias em junho — Witkoff mal tomou notas e foi acompanhado apenas por Michel Anton, um ensaísta e filósofo político com ideias belicistas que não estava intimamente familiarizado com o programa nuclear iraniano. Sabia-se que Anton tinha uma equipe de apoio técnico em Washington e, ocasionalmente, como em maio de 2025, essa equipe levantou demandas técnicas muito sofisticadas, mas as negociações nunca demonstraram esse nível de especialização.
Quando as negociações foram retomadas em Omã, em 6 de fevereiro, Witkoff quebrou o protocolo e, para surpresa do Ministro das Relações Exteriores omanita, Badr bin Hamad Al Busaidi, apareceu em Mascate com o Almirante Brad Cooper, comandante das forças americanas no Oriente Médio, trajando uniforme naval completo. Witkoff explicou que estava “apenas de passagem”. Os anfitriões omanitas pediram educadamente a Cooper que se retirasse.
Este cenário contrasta com o preparado pelo governo Obama para as negociações com o Irã em Viena, em 2009. Naquela ocasião, a equipe era composta por 10 altos funcionários de quatro departamentos diferentes, e as reuniões duraram três dias e três noites, durante os quais os negociadores mantiveram contato constante com Washington para verificar os detalhes do acordo proposto.
A forma como estas últimas negociações indiretas falharam não é apenas uma questão de curiosidade histórica, ou uma maneira de culpar retrospectivamente alguém pelo início de uma guerra tão desastrosa, mas também serve para saber se um acordo exclusivamente sobre questões nucleares ainda é possível, ou se um pacto de maior abrangência será necessário.
Isso é importante porque, se o governo iraniano resistir, é evidente que os apelos internos para a aquisição de armas nucleares aumentarão. A suposta declaração da semana passada do novo Líder Supremo, Mojtaba Khamenei, não mencionou se a fatwa emitida por seu pai, o assassinado Ali Khamenei, que proibia o uso de armas nucleares, ainda estava em vigor. Manifestações têm ocorrido em frente ao Ministério das Relações Exteriores em Teerã, exigindo a suspensão das negociações com os EUA.
Os envolvidos nas negociações afirmam que os mal-entendidos sobre o funcionamento do programa nuclear iraniano contribuíram para a escalada da guerra — por exemplo, sobre o papel e a demanda por urânio do Reator de Pesquisa de Teerã, o alcance dos planos para o futuro programa nuclear ou as ofertas para que empresas americanas tivessem um papel na economia do país.
Witkoff também apertou a agenda, de modo que, em 17 de fevereiro, manteve conversas com a Ucrânia, restando apenas três horas e meia para discussões com os iranianos. Como, a pedido do Irã, as conversas deveriam ser indiretas, as trocas de palavras foram muito breves, para grande frustração dos participantes.
Os iranianos agora afirmam acreditar que as negociações não passaram de um subterfúgio para ganhar tempo para os EUA organizarem sua marinha. Wikoff, por sua vez, disse que os iranianos estavam sendo "enganosos", propensos a "truques" e que sempre havia "algo suspeito acontecendo".
“Ter mais tempo e maior conhecimento não teria garantido o acordo, mas teria sido útil. Posso dizer que, de todas as explicações dadas, os iranianos geralmente disseram a verdade”, afirma um diplomata do Golfo.
Oferta de Genebra
O Irã deve assumir alguma responsabilidade. Nunca tornou pública sua proposta para o novo acordo, um documento de sete páginas com um anexo que foi apresentado a Witkoff durante a rodada final de negociações em Genebra, apesar dos apelos para que o fizesse.
Araghchi afirmou estar confiante de que a verdade sobre o que aconteceu naquele dia crucial, 26 de fevereiro, virá à tona em breve. Mas ele próprio poderia revelá-la se divulgasse a proposta iraniana — aquela que o Conselheiro de Segurança Nacional do Reino Unido, Jonathan Powell, presente nas reuniões, considerou aceitável. Kushner admitiu que um acordo melhor poderia ter sido apresentado do que aquele assinado por Obama em 2015.
Talvez tenha sido também um erro não permitir que Witkoff ficasse com uma cópia da proposta, que ele poderia ter mostrado posteriormente a autoridades com maior conhecimento técnico em Washington. Segundo o enviado, essa relutância era um sinal de que os iranianos não buscavam um acordo, mas sim ganhar tempo.
Mas Kelsey Davenport, diretora do departamento de política de não proliferação da Associação de Controle de Armas, entende que é compreensível que os iranianos não quisessem entregar uma cópia de sua posição de negociação, dado o histórico de Trump de publicar material confidencial em sua conta na rede social Truth Social, da qual ele é proprietário.
“Se eu fosse o Irã, presumiria que Trump compartilharia os detalhes das negociações com a Truth Social e [Benjamin] Netanyahu, e que haveria uma pressão concertada dos israelenses para sabotar o processo diplomático”, diz Davenport. “Não me surpreende, portanto, que o Irã não tenha querido compartilhá-los.”
Mas a essência do que foi proposto em Genebra está lentamente começando a emergir. Autoridades britânicas informadas sobre o conteúdo indicaram que o consideravam um bom acordo, algo com que valia a pena trabalhar. Isso se devia, em parte, ao fato de que, diferentemente do acordo nuclear de 2015, ele não incluía uma data de expiração.
Os documentos já não mencionavam o plano de criação de um consórcio regional de enriquecimento liderado pelos EUA, que havia sido um pilar das rodadas anteriores de negociações. Chegou-se a um acordo geral para o retorno da supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Sob a supervisão da agência, o Irã se desfaria de seu estoque de 440 quilos de urânio enriquecido a 60%. Esse material, que se acredita estar enterrado sob os escombros da usina de Fordow, não seria exportado, como proposto anteriormente, mas sim esgotado — um processo geralmente considerado irreversível.
O maior obstáculo foi a recusa do Irã em renunciar ao direito de enriquecer urânio em seu futuro programa nuclear, que eventualmente exigiria 30 centrífugas, muito menos do que possui atualmente. Isso poderia representar uma ameaça caso o regime de inspeções fosse inadequado. O Irã reconheceu que, dada a destruição das usinas de enriquecimento de Fordow e Natanz, o enriquecimento não seria retomado por vários anos. No último dia das negociações em Genebra, o Irã ofereceu uma moratória de três a cinco anos, que se estenderia para além da presidência de Donald Trump. Mas, após um telefonema com o presidente durante o intervalo para o almoço, Witkoff insistiu que o prazo deveria ser de 10 anos. Os EUA afirmaram que arcariam com os custos da importação de combustível nuclear durante essa década.
Naquele dia crucial — dois dias antes de os EUA e Israel lançarem seu ataque — as duas equipes de negociação também haviam chegado a um acordo para suspender 80% das sanções contra o Irã, segundo uma fonte envolvida nas conversas. Omã afirmou que levaria pelo menos de três a cinco meses para finalizar os detalhes restantes.
Portanto, a questão estava, sem dúvida, mais perto de ser resolvida do que com as exigências máximas dos EUA em 29 de maio do ano passado, duas semanas antes de Israel iniciar a guerra de 12 dias contra o Irã.
Antes das negociações finais, o Irã indicou que os EUA se beneficiariam de uma "bonança comercial" caso assinassem o acordo. O vice-ministro das Relações Exteriores, Hamid Ghanbari, disse a líderes empresariais iranianos neste mês que as negociações com os EUA abrangeram "interesses comuns em campos de petróleo e gás, incluindo campos conjuntos [com países vizinhos], bem como investimentos em mineração e até mesmo a compra de aeronaves civis".
Com as negociações de Genebra chegando ao fim — após as quais ambos os lados apenas emitiram uma declaração sobre o progresso alcançado — o ministro das Relações Exteriores de Omã considerou a guerra iminente e correu para Washington para explicar que acreditava que um acordo estava muito próximo. No entanto, sua proposta de reduzir os estoques a zero não era tão eficaz quanto a interrupção completa do enriquecimento.
Essa viagem apressada através do Atlântico sugere a impressão de Omã de que Witkoff e Kushner, seja por pura ignorância ou propositalmente, não estavam dizendo a verdade a Trump sobre o andamento das negociações. Eles também pareciam inseguros quanto à capacidade de atenção do próprio Trump. Uma tentativa anterior de informar o presidente sobre o estado das negociações fracassou quando ele mudou de assunto para um de seus temas favoritos: sapatos. Em retrospectiva, talvez tivesse sido melhor enviar um emissário de alto escalão para chamar a atenção de Trump. A guerra começou no dia seguinte.
“Tantos problemas poderiam ter sido resolvidos”
Witkoff argumentou que o Irã vivenciou uma situação análoga à dos antagonistas de Perry Mason (um advogado implacável da literatura e da ficção televisiva americana) quando se descobriu que o regime havia sido flagrado estocando urânio enriquecido em seu reator de pesquisa. Mas essa evidência já era conhecida há algum tempo.
A documentação dos EUA desde o início das hostilidades também apresentou discrepâncias sobre se o programa de mísseis balísticos do Irã era uma linha vermelha que deveria fazer parte das negociações.
Katariina Simmen, professora adjunta da Universidade Nacional de Defesa da Finlândia, afirma: “O governo Trump é incompreensível. É um ciclo vicioso. A comunidade de controle de armas dos EUA tem tido grande dificuldade em oferecer sua opinião especializada em física nuclear; a equipe de Trump não parece interessada. A maior frustração provavelmente reside no fato de que o acordo teria permitido que a AIEA retornasse ao Irã, e tantos problemas poderiam ter sido resolvidos.”
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