19 Março 2026
Os conflitos bélicos condenam à morte tudo o que é público. Donald Trump e Netanyahu, dezembro de 2026 Trump participa de uma conferência de imprensa bilateral com Benjamin Netanyahu, segunda-feira, 29 de dezembro de 2025.
O artigo é de Markel Gamarra Segovia, médico espanhol, publicado por El Salto, 18-03-2026.
Eis o artigo.
É inegável que vivemos em tempos cada vez mais violentos. Em tempos nos quais o império estadunidense começa a perder a hegemonia em favor de uma ordem mundial multipolar, o perigo de guerras regionais que possam escalar para eventos maiores cresce dia após dia. Especialmente quando o estado terrorista, genocida e fascista de Israel pode manter suas agressões às potências vizinhas ao mesmo tempo que continua e escala impunemente o genocídio palestino.
Esta violência tem seu próprio slogan político: “Mais dinheiro para armas”, e é o lema pelo qual vivem a OTAN e a União Europeia. A realidade é que o incremento do gasto militar, defendido como uma promessa de segurança, não defende a paz, mas a ameaça. A década de 2020 mostrou à humanidade que o sistema que construímos abandonou qualquer pretensão de regras e leis internacionais.
A guerra, o rearmamento, a violência e a desestabilização têm um interesse explicitamente econômico, atentando simultaneamente contra a saúde e o sistema de saúde público; e somente a partir do desarme e do antibelicismo se poderá proteger a saúde da humanidade.
A guerra contra a saúde
Este título descreve de forma ambígua as duas formas em que o Estado capitalista confronta seu aparato militar com seu sistema de saúde: através da priorização do financiamento da indústria militar sobre a do sistema nacional de saúde; e a batalha ideológica, política e econômica que se trava para minar o sistema de saúde.
Comecemos, pois, pelo combate no plano econômico que surge ao colocar em uma balança o gasto militar e o sanitário. O marco de referência é a macroeconomia convencional, que constrói uma retórica centrada na poupança e na redução do déficit, e é neste plano onde se realizaram múltiplos estudos que constatam que a decisão do aumento do gasto em um setor força o deslocamento do gasto em outros. Especificamente, o estudo de Ikegami e Wang (2023) analisa se o aumento do gasto em defesa de 2000 a 2017 em 116 países implicou um desvio de fundos estatais do sistema de saúde para a indústria militar. Grigorakis e Galyfianakis (2024) também vinculam o maior gasto militar nos países pertencientes à OTAN com um aumento da inacessibilidade dos sistemas de saúde. Um estudo de Fan, Liu & Coyte (2018) estimou que, para cada ponto do PIB de aumento no gasto em defesa, o gasto em saúde diminuía entre 0,962% e 0,556%.
O aumento no investimento do gasto em defesa (até 2% em 2025) resultou em uma diminuição de 6,683 bilhões de euros no gasto público em saúde.
Levemos estes dados aos números. Segundo a análise realizada por Samuel López-López e Francisco Escribano Sotos para a Associação de Economia da Saúde, o aumento no investimento do gasto em defesa resultou em uma diminuição de 6,683 bilhões de euros no gasto público sanitário. Também estimam que aumentos progressivos até 5% (solicitado pela OTAN a todos os seus estados-membros) resultariam em uma perda de 30,9 bilhões de euros.
Embora as ações do governo progressista em nível internacional tenham livrado a Espanha do compromisso de 5% em Defesa, não faltam "quintacolunistas" espanhóis com apoio internacional que esperam pacientemente para tomar o governo e servir de bandeja a economia espanhola ao belicismo americano.
O rearmamento tem sido especialmente veloz nos últimos oito anos de governo progressista. Assim foi com o governo de PSOE e Unidas Podemos e não tem sido diferente com os governos do PP, ou do PSOE com Sumar, coalizão da qual faz parte a Esquerda Unida (Izquierda Unida), representante histórica do movimento contra a guerra.
Embora ambos os lados do espectro político parlamentar se submetam à maquinaria do Estado que pede guerra, nem todos os partidos o fazem da mesma forma. A sede de sangue da direita espanhola, profundamente arrastada às vontades americanas, é entendida como um incentivo político e econômico, após 4 anos em que a contratação de ex-altos cargos do governo por empresas militares disparou.
Este incentivo político é fundamental para entender a segunda versão desta guerra contra a saúde: a execução planejada da saúde pública.
A execução da saúde pública
Há um fronte aberto contra nossas instituições de saúde. O projeto político da direita espanhola consiste na sabotagem total e completa da confiança da população nas estruturas públicas que são o patrimônio da classe trabalhadora espanhola.
O PP e o Vox conseguem isso privatizando os serviços que são mais lucrativos e minguando a capacidade das instituições de atender às necessidades da população. O resultado é nefasto.
Apesar de o governo da Comunidade de Madrid ser o exemplo mais claro, não é exclusivo: Andaluzia, Extremadura, Baleares, Galiza, Castela e Leão... O modelo de governo conservador é definido pela privatização.
Mas cabe destacar que não é um exercício unicamente ideológico: há um lucro real e evidente dos dirigentes políticos através desta privatização. Isso não se deve a um grupo de políticos que se aproveitam de sua posição privilegiada para enganar o sistema: é a norma que rege o "Regime de 78".
A democracia liberal espanhola que surge após o fim da ditadura constrói uma sólida rede entre o sistema de partidos, o Ibex-35 e a oligarquia franquista. Este ecossistema interdependente demonstra que os lobbies da saúde e militar estão profundamente incrustados na política espanhola, e serão a pólis à qual os diferentes governos responderão, não a classe trabalhadora.
Embora possa parecer que este exercício de privatização não tem nada a ver com o aumento do gasto militar, ambos respondem aos mesmos interesses capitalistas que priorizam o lucro à saúde da população: os donos do mundo são os mesmos. O capitalismo imperialista é incompatível com a preservação da saúde humana.
Saúde no planeta Terra
No âmbito da saúde, é frequente falar do conceito de One-Health (Saúde Única). Sob este enfoque, a saúde humana vincula-se à saúde ambiental e animal, pois os vínculos que unem a vida neste planeta nos convertem em organismos interdependentes.
Os efeitos da guerra sobre a população humana são indescritíveis. A morte e o trauma deixam cicatrizes que levam décadas para serem reparadas. Mas as consequências da guerra no meio ambiente são igualmente devastadoras.
Se começarmos pelo principal substrato bélico, a prova reside no fato de que o exército estadunidense é a entidade mais poluente do mundo. Em tempos de paz relativa (considerando o constante intervencionismo americano por todo o planeta), o exército dos EUA gerou 636 milhões de toneladas métricas de CO2 na década de 2010, ocupando o 47º lugar na lista de países mais poluentes do mundo, apesar de não ser um país.
Mas os conflitos ativos contribuem da mesma forma para a destruição do planeta. Somente o primeiro ano desta nova fase do genocídio israelense na Palestina gerou 31 milhões de toneladas de CO2. Da mesma forma, o primeiro ano da guerra entre Ucrânia e Rússia liberou 150 milhões de toneladas de CO2. Estas cifras não incluem os incêndios e a destruição sistemática do meio ambiente resultantes dos conflitos bélicos.
Um exemplo claro de como os conflitos bélicos resultam na destruição da natureza é a Guerra do Vietnã, na qual se empregou o Napalm como agente químico para queimar todo tipo de obstáculos ambientais, com consequências atrozes quando utilizado sobre a população civil. Estudos epidemiológicos demonstraram um aumento em anomalias congênitas na população submetida às armas químicas estadunidenses. Um estudo de Westing, Phung Tuu et al. (2006) estima que até 10% da área do Vietnã do Sul foi atacada com herbicidas e que a perda de vegetação no Vietnã foi de até 90 milhões de metros cúbicos.
Estas ações não podem ser descritas de outra forma que não ecocídio. E preveni-lo ou detê-lo é condição necessária para preservar a saúde global e o sistema público de saúde.
A libertação antibelicista
A citação anterior de Umberto Eco alude ao inevitável caráter bélico do fascismo, que permeou profundamente o “senso comum” ocidental: a guerra como mais uma faceta da vida.
O ser humano não está condenado à batalha incessante com seus semelhantes. Apesar das divisões irreais que o relato de extrema-direita tenta construir entre os seres humanos, a dignidade que nos caracteriza como espécie é superior ao ódio que tenta nos separar.
A guerra não é um mecanismo de resolução de disputas razoável, nem é o destino ao qual as nações modernas estão condenadas. É um relato muito cômodo (e lucrativo) indicar que o investimento em Defesa é fundamental para preservar nosso modo de vida, mas a realidade é que a principal ameaça à qualidade de vida é a exploração econômica, trabalhista e ambiental do capitalismo.
A libertação das correntes que nos prendem a um fuzil não pode ocorrer de forma espontânea nem isolada. Como exposto no artigo, a lógica de guerra devorará os últimos vestígios do que é público para encher ainda mais os bolsos de multimilionários, e apenas a união da classe trabalhadora poderá enfrentar a indústria militar.
O antibelicismo é defesa da saúde pública, que é defesa da educação pública, que é defesa do meio ambiente. É a tarefa do ser humano construir um mundo melhor, não destruí-lo, e isso só será possível quando o ruído dos mísseis não nos impedir de falar.
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