Dahiya, Teerã, Palestina: a doutrina criminosa de Israel e dos EUA em sua ofensiva no Oriente Médio. Artigo de Pablo Elorduy

Foto: Wikimedia Commons | The White House

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11 Março 2026

O Estado sionista e a Casa Branca estão levando para o Líbano e o Irã as armas e táticas contra civis testadas no genocídio de Gaza. Israel aposta em uma guerra prolongada, enquanto os EUA estão presos entre dois mundos, movidos pelos caprichos de Trump.

O artigo é de Pablo Elorduy, formado em História da Arte e trabalha como jornalista desde 2008, publicado por El Salto, 11-03-2026.

Segundo ele, "a atual campanha de assassinatos no Irã (é) como um "beta letal", referindo-se à aplicação em larga escala das técnicas algorítmicas utilizadas por Israel no genocídio em Gaza. Trata-se de "um mundo de assassinatos automatizados". 

Eis o artigo.

A “guerra assimétrica” é o modelo adotado pelos EUA e por Israel em seus planos para remodelar o mapa político do Oriente Médio. A doutrina conhecida como Dahiya, formulada há dezoito anos pelo General Gadi Eizenkot, baseia-se no uso desproporcional da força contra populações civis, sob a alegação de que estas abrigam as forças que afirmam combater. No décimo primeiro dia da guerra no Irã, e com mensagens contraditórias da Casa Branca, Israel direcionou sua máquina de destruição para o Líbano e o Irã, e fechou novamente as passagens para Gaza, interrompendo o fluxo de alimentos e ajuda humanitária após a breve reabertura da passagem de Rafah. Além disso, postos de controle e infraestrutura também foram bloqueados na Cisjordânia.

Conforme detalhado em um artigo do Mondoweiss, os ecos da doutrina Dahiya — nomeada em homenagem a um bairro popular no sul de Beirute — foram reconhecidos pelo Ministro das Finanças israelense, Bezalel Smotrich, que declarou que “muito em breve, Dahiya se assemelhará a Khan Younis”, referindo-se a uma das áreas devastadas pelo genocídio em Gaza. A mesma abordagem está na base do chamado “Plano Tornado” para “destruir Teerã”. Isso envolve atacar civis em Dahiya não como “danos colaterais”, porque danos colaterais são o objetivo, como aponta Faris Giacaman no Mondoweiss.

Fósforo branco e deslocamento no Líbano

Em 2 de março, Israel iniciou sua intensa campanha de bombardeios contra o sul e o leste do Líbano, bem como contra a capital, Beirute, em retaliação aos ataques com foguetes do Hezbollah, que foram desencadeados pela execução extrajudicial de Ali Khamenei pelos EUA e por Israel. Desde então, o Ministério da Saúde libanês registrou 570 mortes, incluindo 83 crianças; mais de 1.400 pessoas ficaram feridas.

Segundo a Unicef, entre 2 e 10 de março, mais de 10 crianças morreram todos os dias no Líbano durante a última semana, e aproximadamente 36 crianças ficaram feridas todos os dias.

O modus operandi de Israel em sua ofensiva contra o Líbano lembra o utilizado em Gaza, particularmente no que diz respeito às ordens de deslocamento. Em 9 de março, as Nações Unidas relataram que 750 mil pessoas, incluindo cerca de 200 mil crianças, foram forçadas a fugir de suas casas. Seis dias antes, as Forças Armadas de Israel haviam ordenado o deslocamento da população ao sul do rio Litani, o maior rio do Líbano.

A mesma ordem foi emitida contra o bairro de Dahiya, lar de aproximadamente 700 mil pessoas. Relatos da capital descrevem milhares de pessoas nas calçadas, e o Ministério de Assuntos Sociais do país converteu escolas e estádios esportivos em abrigos. Assim como em Gaza, os ataques israelenses não se limitaram às áreas designadas com avisos de evacuação. No domingo, um ataque aéreo israelense atingiu o Hotel Ramada, no centro de Beirute, matando quatro pessoas.

Apesar dos indícios de que o governo Trump quer/precisa recuar no Irã, onde corre o risco de ter iniciado uma guerra sem fim à vista, o plano de Tel Aviv em relação ao Líbano foi desencadeado nas últimas semanas graças à sua aliança com a Casa Branca. Ao contrário das ofensivas anteriores, especialmente a de 2024, a perspectiva do Estado sionista é a do colapso do regime iraniano e, a ele ligado, a destruição do Hezbollah, a milícia mais importante do Oriente Médio, precedida pela expansão do exército israelense para as áreas de maioria xiita do Líbano controladas pelo Hezbollah.

A Human Rights Watch já documentou o uso de fósforo branco disparado pela artilharia israelense contra residências em 3 de março de 2026, na cidade de Yohmor, no sul do país. De acordo com o Direito Internacional Humanitário, “o uso de fósforo branco em ataques aéreos é ilegal e indiscriminado em áreas povoadas”, como aponta a HRW. Essa organização detalhou que o plano de Israel “não é proteger a população civil, mas semear terror e pânico, especialmente no contexto do recente deslocamento em massa de civis no Líbano, o que aumenta o risco do crime de guerra de deslocamento forçado”.

O Irã afirma estar preparado para sustentar a guerra.

Outro artigo, de Dave Reed, destacou como “a doutrina de Gaza se regionalizou”. O Líbano e o Irã têm visto um ressurgimento de ataques contra civis. No caso do Irã, números não oficiais sugerem cerca de 1.700 mortes. O regime iraniano reconheceu 1.300 mortes desde quinta-feira, 5 de março.

Nesses ataques, a destruição de hospitais, escolas e prédios residenciais tem sido uma prioridade para os EUA e Israel. Na noite de segunda-feira, um ataque ocorreu contra uma dessas residências em Teerã, matando 40 pessoas. Em 10 de março, novas evidências foram divulgadas , indicando que o ataque à escola feminina Minab, no sul de Teerã, foi realizado pelos EUA e por Israel.

Na noite de segunda-feira, 9 de março, o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou em sua rede social Truth Social eliminar "alvos facilmente destrutíveis que tornariam praticamente impossível para o Irã se reconstruir como nação". Este é mais um ataque do ocupante da Casa Branca que ultrapassa a linha da punição coletiva, expressamente proibida pelo direito internacional.

Segundo o Axios, a Casa Branca está considerando uma invasão terrestre conjunta do Irã com Israel; isso envolveria o envio de forças especiais em busca de urânio, de acordo com essas informações.

A interpretação mais difundida pelos meios de comunicação alinhados com a política externa dos EUA é que, enquanto a Casa Branca deseja uma guerra curta no Irã e negociações com o regime dos aiatolás, o governo de Benjamin Netanyahu, o suposto criminoso de guerra segundo o procurador do Tribunal Penal Internacional, busca a tão desejada mudança de regime no Irã. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmou que a “operação militar” poderia durar até oito semanas. O próprio Hegseth se referiu à segunda-feira, 9 de março, como o dia mais “intenso” do ataque, poucas horas depois de Trump tentar tranquilizar os investidores internacionais com uma vaga promessa de que a guerra não se arrastaria indefinidamente.

O papel de liderança de Israel no ataque contra Israel foi corroborado pelo Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que reconheceu que a ação americana ocorreu porque eles estavam cientes do ataque israelense e, em sua opinião, as perdas humanas teriam sido muito maiores se não tivessem se juntado à missão mortal.

Segundo o Axios, a Casa Branca está considerando uma invasão terrestre conjunta do Irã com Israel. O plano, de acordo com essas reportagens, envolveria o envio de forças especiais para buscar urânio, que, segundo a narrativa de ambos os países, o Irã utiliza para desenvolver uma arma nuclear. A invasão do Iraque pelos EUA, duramente criticada por Trump e sua administração durante muitos anos, envolveu centenas de milhares de soldados em solo iraquiano e resultou em quase 4.500 mortes.

“O Irã determinará quando a guerra terminar”, disse Ali Mohammad Naini, porta-voz da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC). Os militares continuam sua campanha de bombardeio contra a infraestrutura e postos militares dos EUA no Golfo Pérsico, embora o site Drop Site News tenha relatado uma possível mudança de foco para Israel nos próximos dias. “Eles começaram esta guerra e agora percebem que estão presos em um impasse”, observou uma fonte do Ministério das Relações Exteriores iraniano.

O jornalista Jacob Ward, especialista em inteligência artificial militar, descreveu a atual campanha de assassinatos no Irã como um "beta letal", referindo-se à aplicação em larga escala das técnicas algorítmicas utilizadas por Israel no genocídio em Gaza. Trata-se de "um mundo de assassinatos automatizados ao qual devemos prestar mais atenção", observou ele em uma publicação recente.

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