O eclipse da razão: 'projeto divino' dos EUA coloca regras civilizatórias na penúria. Destaques da Semana no IHUCast

Arte: Mateus Dias/IHU

Por: Cristina Guerini e Lucas Schardong | 07 Março 2026

Os Destaques da Semana no IHUCast desta semana analisa a escalada da violência global e as fraturas da democracia. O episódio detalha o bombardeio ao Irã por EUA e Israel, discutindo o colapso do Direito Internacional e a "teocratização" das forças armadas sob a cultura MAGA. No cenário nacional, o programa traz um diagnóstico alarmante sobre a violência de gênero no Brasil às vésperas do 8 de Março e desmascara o escândalo do Banco Master, revelando as conexões entre o capital financeiro, a extrema-direita e as milícias.

Guerra no Oriente Médio

Estados Unidos e Israel bombardearam o Irã no domingo, 1º de março, como parte de uma campanha militar que se intensificou ao longo da semana, após o assassinato de Ali Khamenei e de toda a cúpula que estava reunida para discutir o nome do sucessor do Aiatolá. O Irã respondeu com ataques às infraestruturas de petróleo dos países vizinhos e aos aliados dos norte-americanos, além do fechamento do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas do comércio mundial. O conflito se expandiu para grande parte do Oriente Médio. Na quinta-feira, dia 5, Israel deu ordens para evacuação no Líbano e deu início a ataques massivos na região. Por lá, mais de cem mil pessoas já foram deslocadas.

Nova era?

Longe de ser um país democrático, o Irã, sob a ditadura do Aiatolá, foi um rio escuro de dor e opressão que começou após o fim da guerra Irã-Iraque, como lembrou Riccardo Cristiano. No entanto, nada justifica os ataques ao direito internacional, como o promovido pelos Estados Unidos. O jornalista italiano ainda nos avisa que "este provável fim da longa era Khamenei não implica, contudo, o início de uma nova era, e uma variável temível é certamente o número de vítimas civis, seja qual for o número".

Islamofobia grosseira

No artigo 'Escolher a guerra novamente', o jesuíta David Neuhaus esconstrói a narrativa de 'guerra justa' ou de 'luta do bem contra o mal'. Ele argumenta que o regime iraniano é frequentemente usado como um espantalho baseado em uma 'islamofobia grosseira' para justificar interesses políticos de líderes como Benjamin Netanyahu e Donald Trump. O autor não ignora o caráter autoritário de Teerã, mas exige que apliquemos o mesmo peso e a mesma medida aos aliados ocidentais.". Um dos pontos mais provocativos do texto são os paralelos que Neuhaus traça sobre a condição feminina. Ele reconhece que a imposição do véu é opressiva, mas traz dados que desafiam a visão ocidental simplista: enquanto Israel tinha apenas uma mulher no ministério na época da escrita, o Irã contava com duas. Quase 20% dos cargos de gestão no serviço público iraniano são ocupados por mulheres, um índice que, segundo o autor, superava a realidade israelense naquele setor.

Teocracia norte-americana

Reportagens que publicamos essa semana destacam a "teocratização" das Forças Armadas dos Estados Unidos sob a administração Trump. Nelas, o conflito Irã é apresentado não como estratégia geopolítica, mas como uma "guerra profética" impulsionada pelo nacionalismo cristão de figuras como Pete Hegseth e Donald Trump. Enquanto Neuhaus denuncia a hipocrisia ocidental ao demonizar o regime iraniano, comandantes americanos doutrinam tropas afirmando que o ataque cumpre o plano divino para o Armagedom. Essa perigosa sacralização da violência substitui a diplomacia por uma escatologia radical, onde líderes que buscam o cumprimento de profecias bíblicas sobre o "fim dos tempos", justificam a destruição real de vidas em nome de uma unção messiânica.

Guerra no Irã: Operação Epstein

A ofensiva contra Teerã não é apenas um choque geopolítico, mas uma manobra de sobrevivência de elites encurraladas, uma elite global moralmente falida que tem um projeto de poder. Análises que publicamos essa semana chamam de "Operação Epstein" a guerra de Trump e Netanyahu. Essa ofensiva serve para desviar o foco de segredos terríveis que ainda emergem dos arquivos do pedófilo Jeffrey Epstein, envolvendo nomes poderosos da cúpula americana. Giovanni de Mauro alerta que o mundo está nas mãos de um "grupo de homens idosos, violentos e rancorosos", cujo ethos de impunidade e gratificação pessoal é o mesmo que frequentava a ilha de Epstein.

Guerra local, crise global

A guerra no Oriente Médio transformou o Estreito de Ormuz no epicentro de um pesadelo econômico mundial. O bloqueio desta rota vital, por onde passa 20% do petróleo e quase todo o gás natural global, não apenas fez disparar os preços dos combustíveis, mas escancarou a urgência de abandonarmos a dependência fóssil. O impacto é sistêmico: do risco imediato à segurança alimentar nos países do Golfo à alta dos preços de alimentos para o consumidor global, impulsionada também pela crise no mercado de fertilizantes. Para a América Latina e o Brasil, o cenário é de "tempestade perfeita". A instabilidade atinge a oferta de alumínio e insumos básicos, enquanto a inflação importada ameaça as principais economias da região.

Eclipse da razão

O termo que remete à obra clássica de Max Horkheimer, critica como a razão humana, que deveria servir para a libertação e para a paz, acaba sendo usada de forma instrumental para a destruição. Quando os EUA e Israel ignoram as normas da ONU para atacar o Irã, a "luz" das regras que regem a civilização se apaga, restando apenas a "sombra" da anarquia, onde o mais forte dita a lei. A guerra de Trump e Netanyahu está sendo vista não apenas como um erro estratégico, mas como o "atestado de óbito" da ordem global estabelecida no pós-Guerra. O assassinato de um chefe de Estado por outro país, um ato sem precedentes na diplomacia moderna, sinaliza que entramos em um território de "anarquia" jurídica.

Rendição da política à barbárie

Para Luigi Ferrajoli, "estamos diante de uma agressão que representa o colapso do direito e da razão, uma rendição da política à barbárie." Segundo aponta, o que testemunhamos está transformando o sistema internacional em uma terra de ninguém. Giorgio Agamben vai além, diagnosticando a "queda do Ocidente": ao abandonar os limites éticos e legais que ele mesmo criou, o Ocidente perde sua legitimidade moral e se reduz a uma máquina de guerra niilista.

Ruptura tectônica

Essa transição é detalhada por Michael Williams como a consolidação de uma "nova ordem civilizacional da direita", que troca o multilateralismo por um nacionalismo messiânico. Como alerta Anne Applebaum, o perigo não é apenas a guerra em si, mas a sua normalização: "É assim que o direito internacional deixa de importar"; quando as regras são quebradas sem sanções, o precedente se torna a nova. Jeremy Rifkin e Raniero La Valle concluem que este é o fim de uma visão de mundo. Não se trata de uma "aventura imprudente", mas de uma ruptura tectônica onde a necropolítica venceu a busca pela paz coletiva. O mundo que emerge dos escombros de Teerã é um mundo onde a soberania é um privilégio dos armados e a segurança jurídica, uma memória do passado.

Oriente Médio inflamado

Uma análise do The Guardian projeta quatro desfechos sombrios para o conflito: uma guerra regional prolongada, o colapso econômico global por falta de energia, uma mudança forçada de regime em Teerã ou a escalada para um confronto nuclear. Em todos os cenários, o impacto humanitário é devastador, com ondas migratórias massivas e a destruição da infraestrutura civil. O alerta central é que a agressão militar pode não apenas falhar em seus objetivos, mas incendiar definitivamente todo o Oriente Médio.

Espanha diz não à guerra

Enquanto os tambores de guerra ecoam em Washington e Telaviv, uma oposição ética e diplomática emerge, liderada pelo presidente espanhol e pela Santa Sé. Pedro Sánchez tornou-se o rosto da dignidade europeia ao confrontar diretamente Donald Trump, sintetizando a posição de seu país em uma frase histórica: “Não à guerra”. O líder espanhol elevou o tom ao afirmar que a Espanha não será "cúmplice por medo de represálias". 

Guerra preventiva

A resistência ganha outra dimensão moral com o Papa Leão XIV e o Cardeal Pietro Parolin. O Pontífice, em intervenções sucessivas, exigiu o fim da "espiral de violência", classificando a ofensiva como uma aventura imprudente que nega a fraternidade humana. Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, reforçou o perigo das chamadas "guerras preventivas", alertando que: "As guerras preventivas são um engano perigoso. Elas não apagam focos de incêndio; elas correm o risco de incendiar o mundo inteiro, destruindo as bases da convivência global.

Comemorar o quê? 

Na semana que antecede a celebração do Dia Internacional das Mulheres, há muito pouco a comemorar — e os números não nos deixam mentir. A desigualdade de gênero e a violência seguem como marcas estruturais da nossa sociedade. A disparidade começa no bolso e no mercado de trabalho. Mulheres ainda recebem 21% menos que homens em empresas com cem ou mais funcionários. Quando olhamos para o recorte racial, o abismo é ainda mais profundo: mulheres negras chegam a ganhar 34% menos que homens brancos. Essa desigualdade é dramática quando confrontada com a realidade domiciliar: hoje, as mulheres já são responsáveis pela chefia de quase metade dos lares brasileiros, somando cerca de 36 milhões de domicílios. Muitas dessas mulheres enfrentam o trabalho precário e a informalidade para sustentar suas famílias sozinhas, com rendimentos que, em média, são 32% inferiores aos dos homens chefes de família.

Feminicídio

Se a economia exclui, a violência física elimina. Segundo o relatório Retrato dos Feminicídios, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os números são estarrecedores: em 2025, o Brasil registrou um 1.568 feminicídios, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Desde a criação da lei do feminicídio, em 2015, mais de 13 mil e 700 mulheres foram mortas apenas por sua condição de gênero. O país atingiu o trágico recorde de 87.545 estupros em um único ano — uma média de uma vítima a cada 6 minutos. Destes, a maioria absoluta. 76,8%, são estupros de vulnerável. 62,6% das vítimas de feminicídio são mulheres negras e a maioria absoluta (80,7%) foi assassinada por companheiros ou ex-parceiros, predominantemente dentro de suas próprias casas. 

Noção de propriedade

As entrevistas do IHU desta semana aprofundam as causas dessas estatísticas. Cristiani Ricordi reforça que o combate à violência exige uma luta urgente e políticas públicas eficazes. Já Eva Alterman Blay aponta para a raiz cultural do crime: a 'noção de propriedade' masculina sobre o corpo feminino é tão profunda que sobrevive a décadas de avanços legislativos. No Rio Grande do Sul, a realidade é alarmante, há uma alta de 53% nos feminicídios, que registrou 80 casos em 2025. É um sinal de que as redes de proteção regionais estão falhando. Como bem sintetiza Frei Betto em seu artigo, vivemos uma exclusão histórica onde as mulheres, muitas vezes, encontram-se 'entre o altar e o túmulo', vítimas de uma estrutura social que as silencia antes de matá-las."

Compra da República

Enquanto o país discute moralidade e bons costumes, as investigações sobre o Banco Master revelam o que o jornalista Vinicius Torres Freire descreve como 'a máfia que tinha um banco'. O caso vai além de uma fraude financeira: é um esquema de compra da República. Daniel Vorcaro, figura central do banco, operava uma estrutura que servia de caixa para a manutenção de um projeto de poder. As mensagens que levaram à sua prisão revelam uma promiscuidade absoluta com figuras da extrema-direita, com destaque para a atuação de Flávio Bolsonaro, que aparece numa foto ao lado do banqueiro e do careca do INSS na inauguração do Master.

Pulmão financeiro

O candidato à presidência é apontado como peça-chave na articulação de interesses do banco junto a órgãos federais, numa relação pavimentada por doações de campanha massivas. Estima-se que políticos da direita e extrema-direita tenham recebido milhões em doações oficiais e paralelas, criando uma blindagem política que garantiu ao Master 'sumir' com quantias bilionárias enquanto expandia seus tentáculos pelo Estado. O Banco Master funcionava como o pulmão financeiro dessa simbiose: o dinheiro de origem nebulosa do crime organizado e das milícias era lavado e injetado na política através do sistema financeiro formal. Ao desmascarar o Master, expomos a face real da extrema-direita: um movimento que utiliza a retórica patriótica para esconder alianças com o crime de colarinho branco e o fuzil da milícia, provando que a corrupção e a violência são os pilares que sustentam suas ambições."

Arquitetura da impunidade

Essa 'arquitetura da impunidade' encontra seu laboratório mais cruel no Rio de Janeiro. Luiz Eduardo Soares é taxativo: o Rio vive uma 'predação do pneuma' e uma 'noite feroz' porque áreas como a Baixada Fluminense nunca fizeram a transição democrática. Ali, o Estado não foi ausente; ele se fundiu à milícia. Para o antropólogo, "estamos diante de uma “arquitetura da impunidade” onde a eliminação política foi assimilada como um procedimento administrativo ordinário, operado de dentro dos gabinetes que, por um cinismo ontológico, deveriam salvaguardar a justiça. Aqui, o Estado deixa de ser o mediador do conflito para se tornar o Demiurgo do crime, um arquiteto que desenha o próprio labirinto onde a memória social é conduzida ao abate. É o que poderíamos chamar, em uma visada mais radical, de uma “estetização da barbárie”, onde a força bruta prescinde de máscaras jurídicas para se afirmar como a única natureza real.

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O IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível nas plataformas de áudio e no canal do IHU no YouTube.

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