“‘Cristo é rei’ torna-se uma expressão carregada nos debates políticos dos EUA, especialmente à direita”

Foto: Pexels

Mais Lidos

  • “Muitos homens pensam que perder a dominação sobre as mulheres é uma perda da sua própria masculinidade, o que não é verdade. Um homem pode ser homem, ter seus valores e nem por isso precisa dominar mulheres, crianças ou pessoas de outras etnias”, diz a socióloga

    Feminicídio: “A noção de propriedade é profunda”. Entrevista especial com Eva Alterman Blay

    LER MAIS
  • Trump enfrenta uma guerra mais longa do que o esperado no Irã, com problemas no fornecimento de munição e armas

    LER MAIS
  • “É fundamental não olharmos apenas para os casos que chocam pela brutalidade, mas também para as violências cotidianas que atingem mulheres e meninas, que muitas vezes são naturalizadas e invisibilizadas”, adverte a assistente social

    Combate à violência contra as mulheres: “Essa luta ainda é urgente”. Entrevista especial com Cristiani Gentil Ricordi

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

07 Março 2026

Por si só, a frase “Cristo é rei” resume um princípio central da fé cristã: o de que Jesus é o governante divino do universo. Católicos e muitos protestantes celebram todos os anos o Domingo de Cristo Rei.

A informação é de Peter Smith, jornalista, publicado por Crux, 06-03-2026.

Mas a antiga proclamação pode transformar-se em algo político, controverso ou até sinistro, dependendo de quem a diz e de como é dita.

Nos últimos anos, “Cristo é rei” e expressões semelhantes têm sido entoadas em comícios políticos, publicadas nas redes sociais e proclamadas em discursos por vozes da direita.

Em alguns casos, a frase é usada para apoiar a ideia de que os Estados Unidos são uma nação cristã ou de que devem lealdade especificamente ao Deus cristão. Alguns atuais membros do gabinete e recentes integrantes do Congresso utilizaram a expressão em discursos e nas redes sociais.

Em outras ocasiões, porém, ativistas políticos combinaram “Cristo é rei” com declarações antissionistas ou estereótipos negativos sobre judeus.

A frase ganhou popularidade entre figuras da extrema-direita e seus seguidores. A influenciadora conservadora Candace Owens, que compartilha teorias conspiratórias antissemitas, vende canecas de café e camisetas com a marca “Christ is King”.

A controvérsia se conecta a uma divisão maior dentro da direita, com alguns conservadores reagindo contra uma facção cada vez mais estridente cujas críticas a Israel, segundo críticos, muitas vezes se combinam com antissemitismo explícito. Alguns integrantes desse grupo insistem que não são antissemitas, mas apenas antissionistas. Isso representa uma ruptura marcante com o que antes era quase um consenso pró-Israel entre os republicanos.

No entanto, há ocasiões em que o uso da expressão “Cristo é rei” é indiscutivelmente hostil aos judeus, afirmou um relatório de 2025 do Network Contagion Research Institute, ligado à Universidade Rutgers.

Analisando publicações em redes sociais entre 2021 e 2024, o instituto relatou um aumento dramático da expressão “Cristo é rei”, muitas vezes usada como um meme de ódio dirigido a judeus. O relatório lamentou esse desvio de seu uso histórico como uma afirmação sagrada e esperançosa com raízes bíblicas.

“A instrumentalização ou o sequestro de ‘Cristo é Rei’ representa uma inversão perturbadora de sua intenção original. Em vez de sacralizar valores compartilhados, extremistas exploraram essa expressão religiosa para justificar o ódio”, afirma o relatório.

Controvérsia em audiência sobre liberdade religiosa

Uma reunião recente da Comissão de Liberdade Religiosa, grupo criado e nomeado pelo presidente Donald Trump, colocou a frase e as controvérsias relacionadas sob os holofotes.

Em uma audiência de 9 de fevereiro focada no antissemitismo, uma das testemunhas, Seth Dillon, afirmou que frequentemente ouve pessoas usarem a frase “Cristo é rei” imediatamente seguida por um insulto profundamente desprezível contra judeus.

“Isso deveria ofender todo cristão”, disse Dillon, CEO do site satírico conservador The Babylon Bee.

A integrante da comissão Carrie Prejean Boller interrogou repetidamente as testemunhas sobre se a oposição ao sionismo poderia ser interpretada como antijudaica. Ela afirmou que, como católica, se opõe ao sionismo, mas que isso não é antissemitismo. Perguntou a Dillon se ele achava que “dizer ‘Cristo é rei’ é antissemita”.

Dillon respondeu que não e que, como cristão, declara regularmente que “Cristo é meu rei” — mas o contexto importa. Ele testemunhou que a frase foi apropriada pelos Groypers, referência aos seguidores do influenciador de extrema direita Nick Fuentes, que difundiu visões antissemitas. Trata-se de “usar o nome do Senhor de forma abusiva”, disse Dillon.

Apoiadores de Fuentes gritaram “Cristo é rei” na Million MAGA March, um comício em novembro de 2020 que negava a derrota do republicano Donald Trump para o democrata Joe Biden na eleição presidencial daquele ano.

O vice-governador texano, Dan Patrick, republicano que preside a Comissão de Liberdade Religiosa, anunciou a remoção de Prejean Boller do painel após a reunião. Ele afirmou que ela tentou “sequestrar” a audiência para sua própria agenda.

Após a reunião da comissão, Prejean Boller publicou intensamente na rede X, denunciando “supremacistas sionistas” e usando repetidamente a frase “Cristo é Rei”. Ela também denunciou a guerra lançada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã.

Convertida recentemente ao catolicismo, ela afirmou que se opõe à visão popular entre evangélicos de que o Israel moderno existe em cumprimento de profecias bíblicas.

Uma expressão religiosa “apropriada por figuras extremistas”

A audiência da comissão não foi o primeiro espaço em que a controvérsia sobre “Cristo é rei” veio à tona.

O relatório de 2025 do Network Contagion Research Institute observou que, embora muitas referências à expressão nas redes sociais sejam estritamente religiosas, a frase foi “sistematicamente apropriada por figuras extremistas”. Segundo o relatório, Fuentes e outros extremistas usam a frase como um “mantra supremacista branco que divulga suas crenças antissemitas”.

Fuentes afirmou que o Holocausto foi exagerado e denunciou o que chamou de “judaísmo organizado na América”. Ele também afirmou estar em batalha contra “elites globalistas satânicas”, um tropo antissemita. 

A expressão religiosa “Cristo é rei” não é inerentemente política, disse Brian Kaylor, presidente e editor-chefe do site progressista Word&Way, que cobre religião e política. Mas esse fato fornece uma “negação plausível” para aqueles que a politizam, afirmou.

“Estamos em um ponto perigoso com a frase ‘Cristo é rei’ por causa da intensa atividade e uso dela na extrema direita de formas muito fascistas e antissemitas”, disse Kaylor, pastor batista e autor de vários livros sobre religião e política. “Corremos o risco de essa frase perder seu significado original e esse novo uso antissemita se tornar a definição dominante.”

A frase também ganhou popularidade em ambientes políticos entre alguns setores da direita católica e evangélica fortemente pró-Israel e que repetidamente denunciaram o antissemitismo, como o secretário de Defesa Pete Hegseth e o secretário de Estado Marco Rubio. Segundo Kaylor, a expressão é frequentemente usada como “uma declaração de nacionalismo cristão”, afirmando que “a nação deve ser submetida às diretrizes de Cristo”.

Uma disputa entre política e religião

A controvérsia destacou divisões tanto religiosas quanto políticas.

O Vaticano mantém relações diplomáticas com Israel e também reconheceu um Estado palestino. O Papa Leão XIV pediu uma solução de dois Estados enquanto denuncia o antissemitismo. Durante a guerra entre Israel e Hamas, os papas Francisco e Leão condenaram os ataques de 7 de outubro de 2023 do Hamas e a massiva resposta militar de Israel, com Leão exigindo o fim do “castigo coletivo” imposto à população de Gaza.

Outros católicos na Comissão de Liberdade Religiosa lembraram que Jesus e seus seguidores eram judeus e que um documento fundamental do Vaticano de 1965 rejeita o antissemitismo e a culpa coletiva dos judeus — inclusive os de hoje — pela crucificação de Jesus.

Patrick, presidente da comissão, afirmou que a disputa com Prejean Boller reflete “um problema real com um grupo muito pequeno dentro do nosso Partido Republicano”. O antissemitismo precisa ser repudiado ou “isso vai destruir nosso partido”, disse ele no podcast The Mark Levin Show.

Mas Prejean Boller mobilizou apoiadores de um grupo fortemente conservador chamado Catholics for Catholics, entidade liderada por leigos e que se descreve como “uma organização militante dedicada à evangelização deste grande país”. O grupo planeja homenagear Prejean Boller em um evento em 19 de março, em Washington, com o prêmio Catholic Champion Award, com palestrantes como Owens.

Prejean Boller também compartilhou novamente anúncios do evento na rede X, incluindo uma publicação que reproduziu uma declaração em espanhol que se traduz como: “Não descansaremos até converter os EUA em uma nação católica”.

A publicação terminou em inglês com: “Christ is King!

Leia mais