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09 Fevereiro 2026

Trump queria ser rei e conseguiu: a ordem internacional será aquilo que Kant, em À paz perpétua, considera o maior perigo para a humanidade: uma monarquia universal”, escreve Carlos Fernández Liria, professor de filosofia da Universidade Complutense de Madrid - UCM, em artigo publicado por Público, 26-01-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Como o mundo todo comenta, as notícias sobre Trump se parecem cada vez mais ‘fakes’ que se tornam realidade. Seria risível se não fosse algo que não tem graça alguma. “Trump não se sente mais comprometido com a paz porque o governo norueguês não lhe concedeu o Prêmio Nobel”, apareceria em uma manchete do El Mundo Today.

Contudo, a invenção do dia 22, com a instituição fantasmagórica que foi fundada, faria os filósofos do Iluminismo se revirarem em seus túmulos. Hegel saudou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão dizendo que era “a obra-prima da filosofia”. Agora, fala-se disso como uma “ideologia woke” superada pela história, em um mundo onde, como disse Peter Thiel, “a democracia não é mais compatível com a liberdade”.

Em Davos, assentaram-se as bases para substituir a ONU por uma instituição “mais ágil e eficaz”. É o que diz o rascunho da Carta do Conselho de Paz que vazou há uma semana. É um novo assassinato de Sócrates, o fim das aspirações da filosofia.

O pobre Luigi Ferrajoli também deve estar espantado, após propor em seu último livro, Por uma Constituição da Terra, tornar a Organização das Nações Unidas o embrião para a constitucionalização do direito em nível internacional, transformando organismos globais como a OMS, a UNESCO, a UNRWA, a ONU Mulheres, etc., em instituições de garantia que se encarreguem de impedir que os direitos humanos se tornem letra morta e consigam fazer com que os poderes econômicos aceitem se submeter ao império da Lei. Trump abandonou essas instituições, 66 no total, considerando-as obsoletas e até mesmo perigosas e terroristas. E já colocou a mão na massa para substituí-las.

O Preâmbulo da Carta do Conselho de Paz começa declarando que o juízo pragmático impõe se afastar de “enfoques” e “instituições” fracassadas e coloca nas mãos das pessoas “empoderadas” a responsabilidade pelo futuro. Não se trata mais de “cidadãos”, mas de clientes, consumidores e empreendedores. E não se trata de uma instituição internacional, mas de um clube do qual você faz parte, caso seja convidado pelo Presidente.

É também uma espécie de fundo de investimento. Caso você pertença ao clube por três anos, a não ser que pague “um bilhão de dólares em dinheiro vivo (sic)”. E existe o direito de admissão: o Presidente pode expulsá-lo a qualquer momento, a menos que dois terços dos Estados-membros, que, por sua vez, também foram convidados pelo Presidente, sejam contra.

A ineficácia da ONU é substituída pela agilidade e a eficiência da governança empresarial. Tudo depende de um Conselho Executivo, nomeado pelo Presidente, cujas decisões dependem da aprovação do Presidente. E, claro, ainda que se trate de um remendo de Constituição, o Presidente tem nome e sobrenome, como acontece nas monarquias: Donald J. Trump, que poderá continuar sendo Presidente, mesmo que deixe de governar os Estados Unidos. “O Presidente terá autoridade exclusiva para criar, modificar ou dissolver entidades subsidiárias, conforme necessário”. E o Presidente designará seu sucessor. Trump queria ser rei e conseguiu: a ordem internacional será aquilo que Kant, em À paz perpétua, considera o maior perigo para a humanidade: uma monarquia universal.

O Conselho Executivo “será escolhido pelo Presidente e será composto por líderes de renome mundial”. Por exemplo, o genro de Trump, Jared Kushner, apresentou alguns slides arrepiantes sobre a reconstrução de Gaza, da qual as “entidades subsidiárias” nomeadas na Carta se encarregarão. Essas entidades, diz-se, terão personalidade jurídica internacional. Algo surpreendente, pois serão empresas: “elas terão a licença “jurídica” necessária para assinar contratos, adquirir e alienar bens móveis e imóveis, iniciar procedimentos judiciais, abrir contas bancárias, receber e desembolsar fundos públicos e privados e contratar pessoal”. E, como vimos, o Presidente será o CEO responsável por toda essa arquitetura econômica.

É tudo isso que o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, chamou de “o fim de um mundo baseado em regras”. Em seu magnífico discurso, foi muito franco: é uma ruptura, como disse Tucídides, “os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem”. Carney fez um forte apelo pela união das potências médias para que consigam acumular forças suficientes para garantir que, ao menos para elas, continue existindo leis.

Claro, ninguém é ingênuo: sempre foi assim, os fortes jamais se sentiram obrigados por nenhum império da Lei. Era uma ficção, mas graças a essa ficção, tínhamos algo que avançava rumo à civilização, justamente no sentido que Ferrajoli dizia. Agora, estamos indo na direção contrária.

Em Davos, um bando de empresários que desejam substituir a ONU se reuniu. Conforme disse Gorka Larrabeiti, resumindo suas impressões: construtores de todos os países, uni-vos! As regras acabaram. O que temos pela frente é um negócio bárbaro. A “doutrina do choque” abordada por Naomi Klein se completou. Agora, não há mais nada além de exércitos que destroem e construtores escolhidos pelo Presidente, entre uma elite seleta, que ganha dinheiro reconstruindo. Exércitos e mercados. É isto que vem para substituir a ONU: uma grande corporação econômica.

O direito internacional era uma ficção. Também, se desejar, o nacional. Mas, graças a essa ficção de civilização, ainda temos coisas como escola e saúde pública, e o direito trabalhista. Nos tempos que se aproximam, experimentaremos o resultado de ter renunciado a essa ficção internacional de um mundo baseado em regras. Experimentaremos o que Nick Land chamou de “Iluminismo sombrio”.

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