21 Janeiro 2026
"Mas então, pergunto-me, será preciso esperar que os corpos de centenas de manifestantes enforcados balancem diante dos olhos do mundo nas forcas iranianas, antes de nos dignarmos, quem sabe, a também nos manifestarmos sobre o Irã?", escreve Anna Foa, historiadora, escritora, intelectual da religião judaica, em artigo publicado por La Stampa, 19-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Um ano atrás, em 19 de janeiro de 2025, Israel e Gaza assinavam um cessar-fogo, rompido antes do início da segunda fase pela recusa do Hamas em devolver imediatamente todos os reféns e pelos bombardeios israelenses.
A trégua havia durado menos de dois meses e, nas últimas semanas, já estava ameaçada pelo bloqueio na fronteira dos fornecimentos de alimentos e medicamentos. Após o agravamento da carestia e o ataque à Cidade de Gaza, manifestações massivas tomaram as ruas e praças do mundo todo, da Austrália às Américas e à Europa. Os governos de muitos daqueles países europeus que ainda não o haviam feito, como a França e o Reino Unido, apressaram-se em reconhecer o Estado da Palestina. Itália e Alemanha foram as exceções. Israel era isolado e condenado por grande parte do mundo.
A mobilização foi impressionante e não deixou de levantar questões sobre os motivos de tanto apaixonado interesse no que acontecia na atormentada Faixa de Gaza. Muitas das vozes críticas falaram de interesse seletivo, de desinteresse pela Ucrânia e até de slogans antissemitas: em alguns casos, verdade, mas não o suficiente para questionar a dimensão daquela mobilização.
Mas então algo muito estranho aconteceu: o simples fato de se chegar a um acordo com a chamada "paz de Trump" em outubro foi suficiente para petrificar esse cenário de movimentação. Os países que haviam falado em sanções e na suspensão do envio de armas silenciaram, e as manifestações diminuíram drasticamente, sumindo aquela enorme participação transversal, feita também de indignação e empatia, que caracterizara as anteriores.
A atenção da mídia diminuiu
Contudo, não havia paz no Oriente Médio. No primeiro mês, os bombardeios continuaram, embora em escala muito menor. Os suprimentos ainda são insuficientes para as necessidades da Faixa, enquanto o governo israelense decidiu proibir a entrada em Gaza de nada menos que 37 ONGs que prestavam ajuda, entre elas a Médicos Sem Fronteiras e a Cáritas Jerusalém do Vaticano. A acusação é a de sempre: apoio ao terrorismo. A mesma que desarticulou o papel essencial da UNRWA, favorecendo a crise humanitária e a fome.
E não apenas em Gaza. A trégua — pois é uma trégua, não paz — foi acompanhada por ataques intensificados de colonos e do exército na Cisjordânia, expulsão de moradores de vilarejos, destruição de suas casas e violências físicas. Desde 7 de outubro, em decorrência dessa ofensiva "secundária" foram mortos, segundo fontes da ONU, mais de mil palestinos. Também aqui, então, uma atenção seletiva? Gaza, sim, Cisjordânia, não?
Em seguida, explodiu a revolta no Irã. A repressão foi brutal, milhares de mortos nas ruas e os aiatolás suspenderam as execuções por enforcamento de 800 manifestantes apenas para impedir temporariamente a intervenção de Trump. No entanto, as reações nas ruas foram pífias em comparação com aquelas por Gaza, enquanto diferente e ampla foi a atenção da mídia. Talvez porque os inimigos dos meus inimigos são meus amigos? Não podemos, dessa forma, inferir que a atenção à Palestina tenha sido substituída por aquela, mais urgente, ao Irã.
E então, o que mobiliza as ruas, move a participação e desperta a empatia pelo sofrimento dos outros? Certamente não o antissemitismo, como se repete com frequência. Algumas situações tocam mais do que outras, alguns massacres se tornam simbólicos, como na década de 1960 o Vietnã. Algumas violências repercutem mais nas sensibiliddes. A fome em Gaza, que precedeu a grande mobilização global em prol dos palestinos, foi um gatilho mais poderoso do que as bombas.
Quanto ao que está acontecendo na Cisjordânia, foi sobretudo a destruição das oliveiras por colonos que provocou indignação, e não a destruição de casas e escolas, como mostrou recentemente o filme vencedor do Oscar "No other land" na televisão italiana. Parece que as emoções e as mobilizações das multidões se situam em esferas distintas da gravidade dos atos que as despertam. Para que, em suma, a indignação também se torne política. Assim, não espero que a segunda fase da trégua, que acaba de começar com a formação do Conselho de Paz, suscite qualquer reação. Como escreveu Francesca Mannocchi nestas páginas, o objetivo é a estabilização, não uma pacificação. E as estabilizações não despertam muito interesse.
Mas então, pergunto-me, será preciso esperar que os corpos de centenas de manifestantes enforcados balancem diante dos olhos do mundo nas forcas iranianas, antes de nos dignarmos, quem sabe, a também nos manifestarmos sobre o Irã?
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