Irã. A desigualdade que une os protestos. Artigo de Maysoon Majidi

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09 Janeiro 2026

"Além disso, o ponto crucial é que os protestos no Irã são o produto de tensões internas e conflitos não resolvidos, não o resultado de provocação externa. A tentativa de enquadrá-los nas dinâmicas da competição geopolítica, seja por Washington seja pela oposição no exílio, acarreta o risco de esvaziar seu conteúdo social e de classe", escreve Maysoon Majidi, jornalista iraniana, em artigo publicado por Il Manifesto, 08-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Os protestos que começaram no Irã em 28 de dezembro último não representam nem uma explosão social repentina nem uma reação ao choque econômico. São o produto de uma profunda crise estrutural que se arrasta há anos. A atual mobilização popular deve ser entendida em continuidade com os protestos de janeiro de 2018, novembro de 2019 e o Movimento "Mulher, Vida, Liberdade" de 2022.

Mobilizações que se manifestaram a cada oportunidade com intensidade e formas diferentes, mas que têm seus alicerces num terreno comum feito de crises não resolvidas de legitimidade, desigualdades estruturais e fechamento político.

Nos primeiros sete dias, greves e manifestações espalharam-se de Teerã para cinquenta cidades em várias províncias. Dados de redes cívicas e de direitos humanos indicam que pelo menos 148 cidadãos foram detidos, incluindo 77 curdos, cinco mulheres e seis menores. Pelo menos sete pessoas perderam a vida.

No entanto, o apagão generalizado da internet em muitas cidades iranianas, parte de um padrão já consolidado de gestão de crises, limita fortemente o acesso a dados precisos e independentes e reforça a hipótese de que esses números possam ser, na realidade, mais altos. A queda sem precedentes do rial, o aumento da inflação, a estagnação do mercado e a drástica redução do poder de compra levaram a pressão econômica a um nível tal que até mesmo setores tradicionalmente conservadores, incluindo os bazares, não conseguem mais manter suas atividades. A taxa de câmbio de 140.000 tomans por dólar no mercado paralelo nos dias que antecederam os protestos não foi apenas um indicador econômico, mas também o sinal de uma profunda perda de confiança no futuro do país. A discrepância entre as demandas da população por melhores condições de vida e as reais prioridades do governo continua sendo um dos fatores materiais na base da continuidade dos protestos. Segundo estimativas de instituições internacionais, os gastos militares oficiais do Irã representam aproximadamente 3 a 4% do PIB e absorvem uma parcela significativa do orçamento estatal. A greve no Bazar de Teerã assume uma importância simbólica e política. Não uma simples ação corporativa, mas o anúncio do colapso de um pacto histórico não escrito entre o Estado e um segmento da classe média urbana.

Um acordo implícito em que se renunciava à participação política em troca de um mínimo de estabilidade econômica. O rápido alastramento da greve para outras cidades demonstrou que a crise superou o nível do mero descontentamento econômico para se transformar em uma crise de legitimidade. A resposta do governo reproduziu a costumeira lógica repressiva: aumento da presença das forças policiais antimotim e agentes à paisana, prisões em massa e falta de clareza quanto ao paradeiro dos detidos. Em cidades como Lordegan, Kermanshah, Kuhdasht, Nahavand e Azna, relatos falam do uso de gás lacrimogêneo, balas de borracha e confrontos violentos. Em meio a esses acontecimentos, as recentes declarações de Donald Trump sobre a disposição dos Estados Unidos em "ajudar" os manifestantes iranianos trouxeram à pauta novamente a questão da intervenção externa.

Trump afirmou que, se a República Islâmica abrisse fogo contra os manifestantes, os Estados Unidos estariam "prontos para agir". Ao mesmo tempo, o Mossad, cuja atividade se baseia por natureza no sigilo, empreendeu um esforço sem precedentes para enviar mensagens públicas e diretas à população iraniana.

No âmbito internacional, os recentes acontecimentos complicaram o cenário. A captura de Nicolás Maduro, aliado do Irã, após uma operação militar dos EUA, alimentou especulações sobre a abordagem final de Trump em relação a Teerã. Trump declarou: "Se pensarmos bem, existem outros exemplos bem-sucedidos, como o ataque a Qassem Soleimani, a operação contra al-Baghdadi e a recente destruição e sabotagem da infraestrutura nuclear do Irã". De uma perspectiva sociológica política, quando potências estrangeiras ou serviços de inteligência se apresentam como "apoiadores dos protestos", está se entrando numa fase delicada e arriscada.

Esse apoio não é um sinal de solidariedade, mas muitas vezes serve para demonstrar poder e influência. A história mostra que as consequências dessas interferências recaem principalmente sobre aqueles que já são mais vulneráveis, como mulheres, grupos étnicos oprimidos, classes trabalhadoras e áreas periféricas.

O apelo por intervenção externa, especialmente se vindo de uma figura como Trump, oferece ao governo iraniano a oportunidade de representar os protestos como um projeto "orquestrado pelo inimigo".

Essa narrativa não só intensifica a repressão, como também aprofunda a divisão entre a sociedade mobilizada e uma opinião pública ainda incerta.

Além disso, o ponto crucial é que os protestos no Irã são o produto de tensões internas e conflitos não resolvidos, não o resultado de provocação externa. A tentativa de enquadrá-los nas dinâmicas da competição geopolítica, seja por Washington seja pela oposição no exílio, acarreta o risco de esvaziar seu conteúdo social e de classe.

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