Irã, banho de sangue e risco de ataque

Foto: RS/Fotos Públicas

Mais Lidos

  • Edgar Morin (104 anos), filósofo, sobre a felicidade: “A velhice é um terreno fértil para a criação e a rebeldia”

    LER MAIS
  • Não é o Francisco: chega de desculpas! Artigo de Sergio Ventura

    LER MAIS
  • “Putin deixou bem claro que para a Rússia é normal que os Estados Unidos reivindiquem a Groenlândia”. Entrevista com Marzio G. Mian

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

15 Janeiro 2026

Uso de força letal. Rastros de sangue nas ruas enquanto incêndios se alastram por todo lado. Esquadrões da Guarda Revolucionária em motocicletas cercando e agredindo manifestantes que são arrastados para as prisões do regime. A repressão no Irã é sufocante, enquanto os Estados Unidos ameaçam com uma intervenção militar que só depende de uma ordem da Casa Branca, após o envio de caças, drones e bombardeiros para as bases estadunidenses na Europa e no Oriente Médio.

A reportagem é de Nello Scavo, publicada por Avvenire, 13-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

O grupo de direitos humanos HRNA, com sede nos EUA, afirmou ter aferido a morte de 648 pessoas — entre as quais 69 membros das forças de segurança — e a prisão de 10.694 manifestantes desde 28 de dezembro, o primeiro dia de protestos de rua. Outras fontes não verificadas falam que o número de manifestantes mortos é quatro vezes maior, especialmente em áreas mais remotas.

Em uma aparente tentativa de ganhar tempo, Teerã declarou que manterá a comunicação com os Estados Unidos, enquanto o presidente Donald Trump avalia as respostas à sangrenta repressão. O magnata havia divulgado que os EUA poderiam se reunir com altos funcionários iranianos, mas que Washington está em contato com a oposição aos aiatolás.

O controle independente desses dados é dificultado pelo bloqueio da internet ordenado pelos aiatolás. Com muita dificuldade se consegue obter informação graças às redes via satélite, especialmente a Starlink, fornecida pela rede de Elon Musk. No entanto, as forças iranianas teriam conseguido bloquear os sinais de satélite pela primeira vez. "Nem quero pensar no que poderia acontecer comigo. Poderia ser acusado de espionagem", disse à BBC Persian um iraniano que conseguiu se comunicar com o mundo exterior via Starlink. "Essa dor e raiva não deveriam ser escondidas. O mundo deveria saber o que está acontecendo conosco", acrescentou, antes que o sinal fosse perdido.

Em um vídeo verificado pela mídia internacional e datado de 9 de janeiro, dezenas de pessoas são vistas reunidas junto ao Centro Forense de Kahrizak, em Teerã, de pé diante de fileiras de sacos escuros para cadáveres. Nos monitores são exibidas as imagens dos corpos para facilitar a identificação pelos familiares. Uma das imagens mostra o rosto inchado de um jovem sem vida, identificado como cadáver "055/250", indicando que, apenas para a periferia da capital, 250 corpos haviam sido levados naquela data. O Irã não divulgou um número oficial de vítimas, mas atribui o derramamento de sangue à interferência estadunidense e ao que chama de "terroristas apoiados por Israel e pelos Estados Unidos". A mídia estatal tem se focado nas mortes de membros das forças de segurança, ignorando os manifestantes massacrados.

Discursando para uma grande multidão de apoiadores na Praça Enqelab, em Teerã, na segunda-feira, o presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Qalibaf, afirmou que um total de 53 mesquitas e 180 ambulâncias foram incendiadas desde o início dos protestos. Para incitar contra os manifestantes, acrescentou que os iranianos estão travando uma guerra em quatro frentes: "guerra econômica, guerra psicológica, guerra militar contra os Estados Unidos e Israel, e, agora, guerra contra o terrorismo".

O sistema de segurança não é tão robusto quanto o regime quer que se acredite. Há relatos de soldados se recusando a atirar em manifestantes e detenções até mesmo entre as forças policiais.

Uma nota obtida pelo Avvenire e transmitida pelo comando da Guarda Revolucionária, os famigerados Pasdaran, ordena que os serviços de inteligência se infiltrem rápida e massivamente nas fileiras dos manifestantes. Os pontos-chave são três. Primeiro: "Todas as forças de inteligência devem adotar a aparência e o vestuário dos manifestantes e se infiltrar nos protestos". Uma vez nas ruas, "após a infiltração, as forças de inteligência devem assumir a liderança dos protestos". Finalmente, "as células de operações psicológicas, uma vez presentes nos protestos, devem entoar slogans em apoio à monarquia Pahlavi, como ‘Longa vida ao Xá'".

O objetivo não declarado é dividir a frente de oposição. A mídia do regime repete incessantemente que são os estadunidenses e israelenses que querem impor Reza Pahlavi, filho do falecido Xá, como seu emissário. A maioria dos manifestantes não vê a monarquia como solução, mas, a essas alturas, está crescendo o percentual daqueles dispostos a aceitar um retorno do Xá para reunificar o país e sair da era tenebrosa dos aiatolás.

Os embaixadores da Grã-Bretanha, Itália, Alemanha e França em Teerã foram convocados ao Ministério das Relações Exteriores, segundo a agência de notícias semioficial Tasnim, e solicitados a transmitir a seus governos o pedido de Teerã para retirar seu apoio aos protestos, considerado "uma interferência inaceitável à segurança interna do país". Uma fonte diplomática francesa afirmou que os embaixadores expressaram veementemente suas preocupações.

O fato de o líder supremo Ali Khamenei e seus fidelíssimos sentirem a pressão da instabilidade é confirmado por uma série de informações da Rússia, até agora grande apoiador do regime. Em uma conversa telefônica entre o secretário do Conselho de Segurança Nacional da Rússia, Sergei Shoigu, e seu colega iraniano, Ali Larijani, "as partes concordaram em manter contato e coordenar suas posições para garantir a segurança", anunciou o Conselho de Segurança russo.

Segundo o Moscow Times, enquanto se planejam evacuações de emergência dos principais líderes iranianos, o transporte de reservas de ouro e dinheiro em espécie também começou, como ocorreu após a queda de Bashar al-Assad na Síria, sobrevoando o Cáucaso e evitando o espaço aéreo controlado pela OTAN.

Leia mais