15 Janeiro 2026
"Até que isso aconteça, essas fotos vergonhosas continuarão circulando, fotos que, em vez de mostrarem um pastor defendendo seu povo, mostram um príncipe da Igreja agradecendo ao imperador por lhe permitir um momento de espiada e um vislumbre do luxuoso tapete de seu escritório", escreve José Manuel Vidal, diretor do Religión Digital, em artigo publicado por Religión Digital, 14-01-2026.
Eis o artigo.
Não há diálogo, nenhuma escuta mútua visível: há um trono improvisado e um convidado reduzido a mero cenário. E isso, quando quem está de pé representa a Igreja Católica, não é apenas um detalhe de protocolo; é uma mensagem política e eclesial de enorme significado. Uma vergonha!, como diria o Papa Francisco.
Photos from yesterday’s introductory meeting with USCCB President Archbishop Paul S. Coakley and President Trump https://t.co/AqIKaElO4l pic.twitter.com/DC68JknAt3
— U.S. Conference of Catholic Bishops (@USCCB) January 13, 2026
Uma encenação de servidão
Uma reunião institucional pode ser legítima e até necessária. Presidentes de todos os países frequentemente se reúnem com líderes religiosos. O problema aqui não é a reunião em si, mas o cenário escolhido e aceito. Um presidente sentado atrás de uma mesa, assumindo uma postura imperial, enquanto o arcebispo permanece de pé, ligeiramente curvado e, além disso, sorrindo, transmite visualmente uma relação hierárquica humilhante: um comanda, o outro obedece; um é o centro, o outro um mero figurante.
Exatamente o oposto do que a Igreja deveria demonstrar quando se senta diante do poder político: independência, parrhesia, liberdade evangélica para falar mesmo quando é incômodo e em nome dos mais pobres diante do 'rei' dos mais ricos e poderosos.
E o que talvez seja mais grave, reforça a percepção de uma Igreja que não dialoga em termos de igualdade, mas que se apresenta quase em atitude de súplica: uma suplicante diante do príncipe, um grupo religioso ávido por acesso, disposto a engolir qualquer gesto de desprezo para não perder a porta entreaberta para o poder.
O risco de parecermos lacaios, e não pastores
As fotos oficiais são importantes porque constroem uma narrativa. E, como diria Feijóo, o que importa é vencer essa narrativa. Bem, a foto divulgada pela própria conferência episcopal — orgulhosa da “reunião introdutória” — apresenta a Igreja como mero adereço: o bispo não é retratado como um profeta, mas como um cortesão.
O episcopado americano permite ser enquadrado como o legitimador religioso de um líder que literalmente se senta acima deles; e, ao aceitar essa encenação, transmite aos fiéis que é normal ficar diante de César e sorrir, mesmo que César oprima imigrantes, transforme o ódio em estratégia e trate os direitos humanos como moeda de troca, enquanto perverte a religião, manipulando-a e usando o nome de Deus em vão.
Um diálogo sério exige símbolos apropriados: duas cadeiras, dois interlocutores, um espaço compartilhado. Não um trono e um peão. O fato de o texto que acompanha a imagem ser neutro e asséptico — "fotos da reunião introdutória de ontem..." — revela outra omissão: a omissão do contexto, da explicação do que foi dito, do que foi exigido, do que foi defendido. Sem essa informação, resta apenas a fotografia muda, e o que ela grita é: eis um poder que comanda e uma Igreja dócil que aquiesce.
Submissão, medo ou cálculo: nenhuma das opções é boa
É possível que o arcebispo não pudesse alterar o protocolo naquele momento. É possível que ele tenha falado com firmeza a portas fechadas. Mas a Igreja sabe — ou, se não sabe, pior ainda — que a política moderna também se trava na arena das imagens.
Se você aceita uma atuação encenada que o reduz a um mero figurante, está comunicando à sua congregação que se contenta com esse papel. E o problema não é apenas de dignidade institucional: é de credibilidade evangélica. Como então pedir aos fiéis que não se ajoelhem diante do poder econômico, midiático ou político se veem seus pastores posando alegremente como pano de fundo para um líder que os trata como servos?
Talvez haja submissão, talvez medo de perder o acesso, talvez cálculo: “é melhor estar perto para exercer influência do que estar lá fora criticando”. Mas há uma linha que, visualmente, foi cruzada aqui: aquela que separa a presença profética da presença servil. E a fotografia, por si só, não deixa dúvidas sobre de que lado a Igreja Católica, representada por seus bispos, se encontra nesta cena em particular.
A Igreja não é um mero sujeito: deve ser vista como tal
Um presidente do episcopado pode e deve falar com qualquer autoridade, mesmo a mais controversa. Mas o respeito mútuo não é apenas um sentimento interno; ele se expressa em gestos, palavras e até mesmo na disposição das cadeiras. Ser solicitado a ficar de pé, sorrindo, ao lado da mesa onde o presidente se senta "como um imperador" "causa uma má impressão": retrata a Igreja como subserviente ou suplicante.
E quando essa imagem é divulgada com orgulho pela própria conferência episcopal, o problema deixa de ser apenas uma questão de protocolo alheio e passa a ser uma questão de falta de autoconsciência.
Se a Igreja quer ser levada a sério como autoridade moral num país cujo presidente está perdendo-a em larga escala (se é que alguma vez a teve), tem de começar por não se prestar a encenações que a reduzem a mera cúmplice do poder vigente.
Às vezes, o único gesto verdadeiramente evangélico seria recusar tal foto, ou pelo menos exigir um formato diferente. Até que isso aconteça, essas fotos vergonhosas continuarão circulando, fotos que, em vez de mostrarem um pastor defendendo seu povo, mostram um príncipe da Igreja agradecendo ao imperador por lhe permitir um momento de espiada e um vislumbre do luxuoso tapete de seu escritório.
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