Revolução MAGA e nacionalismo cristão. Artigo de Paolo Naso

Foto: Quinn Dombrowski/Wikimedia Commons

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15 Janeiro 2026

"É uma onda que pode ser combatida com a coragem e a criatividade de boas políticas, mas também — e não em menor medida — com a força e a paixão de uma boa teologia", escreve Paolo Naso, cientista político, em artigo publicado por Riforma, 14-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Muitos previram que o presidente Trump agiria como um elefante numa loja de cristais, mas agora o elefante começou a se mover e até a dançar, revirando tudo ao seu redor.

A ameaça de abandonar a Ucrânia à própria sorte, as pretensões sobre a Groenlândia, a violação da soberania venezuelana para obter, como candidamente reconheceu, o controle sobre seu petróleo, o desprezo pela União Europeia e pelas Nações Unidas, o desinvestimento no Pacto Atlântico são apenas algumas das ações de uma presidência que, seja qual for o seu resultado, deixará sua marca. A grandeza idealizada na fórmula MAGAMake America Great Again – é, portanto, um projeto imperialista, unilateralista e militarista de envergadura excepcional, diante do qual os sonhos europeus parecem desaparecer quase como por mágica. Assim como o espírito democrático e liberal de um país onde o presidente eleito pelo povo acredita dispor de um "poder limitado apenas pela minha moralidade", como afirmou em 9 de janeiro passado.

Outro fator atua nessa mudança "histórica", que a Europa secularizada tende a subestimar: aquele de uma religiosidade nacionalista que celebra a primazia espiritual dos Estados Unidos e pretende reafirmar suas raízes cristãs. Nesse sentido, Trump não é apenas o comandante-em-chefe do maior exército do mundo, mas também o sumo sacerdote de um cristianismo estadunidense, ecumenicamente aberto a católicos, protestantes e todos os demais dispostos a abraçá-lo, capaz de reunificar a nação perante Deus: "Uma Nação sob Deus", segundo a fórmula solene que, em 1954, no auge da Guerra Fria, o presidente Eisenhower quis incluir no juramento à bandeira. Para moldar essa religiosidade da nação, Trump criou um Escritório da Fé na Casa Branca, composto por pastores e pregadores, quase todos ligados ao fundamentalismo evangélico, liderado pela pastora pentecostal Paula White-Cain: "Onde quer que eu vá, Deus governa", afirma com plena convicção dos poderes carismáticos que Deus lhe concedeu. "Quando caminho pelo terreno da Casa Branca, Deus caminha pelo terreno da Casa Branca."

A pregação de Paula White está ligada ao chamado Evangelho da Prosperidade: uma teologia que, baseando-se em algumas passagens da Bíblia que contêm termos como "bem-estar", "riqueza" e "abundância", associa as bênçãos de Deus à fortuna material de cada um. Mais fé, mais dinheiro, o capital como medida da fé. "A liberdade financeira começa dentro da pessoa, e é o desejo por liberdade financeira que dá origem a todos os comportamentos que produzem liberdade financeira", escreve ela em um de seus best-sellers, intitulado prosaicamente "Money Matters".

Nesse Evangelho do bem-estar, os pobres e os últimos são culpados por sua condição por não acreditarem em Deus e no poder de suas bênçãos.

Não surpreende que Trump, buscando figuras religiosas para se cercar, tenha sido fulgurado por essa pregadora da Flórida.

O outro braço operacional que a Casa Branca criou para gerenciar os assuntos religiosos é a Comissão para a Liberdade Religiosa: composta por representantes do fundamentalismo evangélico, ortodoxos, católicos e judeus, não inclui nenhum representante das igrejas tradicionais, as denominações históricas do protestantismo EUA. O principal objetivo desse órgão é proteger aqueles setores das comunidades religiosas que contestam determinadas políticas educacionais e sociais consideradas liberais ou imorais: desde os serviços para a interrupção da gravidez — agora excluídos da intervenção federal — até programas escolares sobre educação sexual, criacionismo e direitos LGBTQ+. Como é sabido, um dos pilares do liberalismo estadunidense é a Primeira Emenda da Constituição, que estabelece a separação entre a ação do Estado e aquela das comunidades religiosas, impedindo o Congresso de legislar com base em um princípio "confessional". "Separação? Não sei se existe separação", comentou Trump na cerimônia de instalação da Comissão, "mas, por enquanto, se esqueçam dela".

A Comissão, também composta por figuras próximas ao "sionismo cristão" e, portanto, àquela leitura fundamentalista dos textos proféticos da Bíblia que prefigura o confronto final entre as forças do Bem e do Mal no cenário específico do Oriente Médio, traz novos argumentos teológicos para apoiar a política já marcadamente pró-israelense do governo Trump.

Diante da revolução MAGA, muitos se sentem surpresos e perplexos, alguns até fascinados. As igrejas estão divididas, e parte delas adere a um ecumenismo reacionário cimentado por políticas em defesa da família tradicional, da homofobia e da islamofobia, da obsessão pelas migrações globais e pelo substitucionismo étnico e religioso. É uma onda que pode ser combatida com a coragem e a criatividade de boas políticas, mas também — e não em menor medida — com a força e a paixão de uma boa teologia.

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