O problema não é o diaconato feminino, o problema é a nossa ideia de Igreja. Artigo de Miriam Francesca Bianchi

Foto: Cathopic

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15 Janeiro 2026

Por trás do problema do acesso das mulheres às ordens sagradas, não estaria oculto o problema de uma melhor distribuição de poder (para servir) na Igreja?

O artigo é de Miriam Francesca Bianchi, professora de religião católica, publicado por VinoNuovo, 14-01-2026.

Eis o artigo.

Sempre que a Igreja retoma a discussão sobre o diaconato feminino, algo previsível acontece: as posições se endurecem, as palavras se transformam em slogans, e as fronteiras são rapidamente traçadas. Alguns temem uma ruptura irreparável com a tradição, enquanto outros veem qualquer cautela como um ato de encerramento. Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada. Talvez o problema não seja o diaconato feminino em si. O problema é a ideia de Igreja que continuamos a defender, muitas vezes sem nos darmos conta disso.

O recente relatório sobre o diaconato reiterou que, no momento, o acesso das mulheres ao diaconato como grau do sacramento da Ordem não pode ser afirmado. Essa conclusão foi interpretada por muitos como um retrocesso, por outros como um marco necessário. Mas o que chama a atenção, numa análise mais atenta, não é tanto o que é excluído, mas sim o que permanece sem solução. De fato, a questão do significado do ministério, seu lugar na vida eclesial e a relação entre poder, serviço e reconhecimento permanecem sem resposta.

Se o diaconato fosse realmente compreendido como um serviço, não seria tão assustador. E, no entanto, é. É assustador porque, na prática eclesial, o ministério continua a ser percebido — e muitas vezes exercido — como uma forma de poder simbólico e de tomada de decisão. A questão, então, não é quem pode acessar esse poder, mas o fato de continuarmos a chamar de "serviço" aquilo que permanece estruturalmente assimétrico.

Surge então uma questão incômoda: por que o serviço das mulheres é quase sempre indispensável na Igreja, mas raramente reconhecido de forma estável, mesmo quando assume formas de autêntica responsabilidade eclesial? Por que nos sentimos reconfortados por sua presença ativa, mas inquietos com a possibilidade de lhes conceder um papel permanente? Dizer que "muitas mulheres não o pedem" não resolve o problema. A Igreja não se governa por pesquisas, mas pelo discernimento. E o discernimento começa quando escutamos o que a realidade nos diz, nas Escrituras, na tradição e nas práticas eclesiais vividas. Mesmo quando essa escuta desafia equilíbrios consolidados.

O Concílio Vaticano II ofereceu uma visão radicalmente nova, embora ainda em grande parte não expressa, da Igreja. Falou do povo de Deus, da dignidade batismal, da corresponsabilidade. Afirmou que a Igreja caminha através da história e deve ler os sinais dos tempos. Mas estamos realmente dispostos a abraçar plenamente essa visão? Ou preferimos invocar o Concílio apenas quando isso não causa muita perturbação?

A Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças, as lutas e ansiedades da humanidade são também as da Igreja. Hoje, entre essas lutas, uma se torna cada vez mais evidente: a relação entre autoridade e credibilidade, entre as estruturas eclesiais e a vida dos indivíduos. Num mundo em que a desigualdade de poder é cada vez mais examinada, pode a Igreja dar-se ao luxo de não questionar seriamente a forma como distribui papéis, voz e responsabilidades dentro de seus quadros?

Não é coincidência que, nos últimos anos, numerosos estudos internacionais tenham relatado um crescente distanciamento da Igreja entre as mulheres, especialmente as jovens. Não se trata tanto de uma rejeição da fé, mas de um afastamento de estruturas institucionais percebidas como inadequadas. Não é apenas um declínio na prática religiosa, mas uma perda de pertencimento e confiança. Os motivos são muitos, mas persiste a percepção de uma Igreja que valoriza as contribuições práticas das mulheres, sem reconhecer plenamente sua voz, autoridade e responsabilidade eclesial. Isso também é, talvez, um "sinal dos tempos", que desafia a consciência da Igreja muito além dos limites de um único ministério.

O diaconato feminino torna-se, assim, um símbolo poderoso — não por ser meramente simbólico, mas por abarcar questões eclesiológicas que permeiam toda a vida da Igreja. Precisamente por essa razão, corre o risco de ser sobrecarregado com expectativas de salvação ou temores apocalípticos. Mas a questão não é "abrir" ou "fechar" um ministério. A questão é reconhecer que a Igreja já prospera num ministério disseminado, muitas vezes tácito, não reconhecido, por vezes até tolerado com constrangimento. Mulheres que proclamam o Evangelho, que mantêm unidas as comunidades frágeis, que exercem verdadeira autoridade espiritual sem que esta tenha um nome eclesial claro.

Talvez o verdadeiro escândalo não seja imaginar mulheres diaconisas, mas continuar a beneficiar-se do seu serviço sem assumir a responsabilidade de o reconhecer. A fidelidade à tradição não consiste em repetir as formas do passado, mas em deixar-nos continuamente desafiar pelo Evangelho, que não teme derrubar hierarquias quando estas deixam de servir à vida. Dizer "sempre foi feito assim" não basta: a tradição é uma realidade viva que cresce ao longo da história, não uma repetição mecânica.

O debate sobre o diaconato feminino nos apresenta uma escolha mais profunda do que parece. Queremos uma Igreja que se proteja ou uma Igreja que se permita ser convertida, inclusive pelas perguntas que as mulheres crentes continuam a fazer? Enquanto continuarmos a discutir apenas quem pode ou não ter acesso a um ministério, corremos o risco de negligenciar a questão mais fundamental: que tipo de Igreja estamos construindo e para quem?

Talvez a provocação mais evangélica hoje não seja perguntar "quando" ou "se" o diaconato feminino será possível. A verdadeira questão é se estamos dispostos a repensar de fato a maneira como o poder é exercido, justificado e transmitido na Igreja. Todo o resto virá depois.

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