14 Janeiro 2026
"Nunca mais voltaremos à República Democrática do Congo. O conflito já dura há muitos anos e não vemos o fim; nosso país está devastado pela guerra." O tom de voz de Mambolewa, uma refugiada congolesa do campo do ACNUR de Musenyi, no sul do Burundi, não demonstra nenhuma emoção. Encontramos ela em frente à sua tenda, lavando pratos e panelas com a água de uma bacia. Ela chegou aqui em fevereiro, depois de fugir com o marido e seis filhos de sua cidade natal, Luberizi, poucos dias antes de os rebeldes do M23 (Movimento 23 de Março) entrarem em Bukavu, a capital da região de Kivu do Sul, localizada 80 quilômetros ao norte. "Caminhamos por dias", ela nos conta. "Só paramos depois de cruzar a fronteira."
A reportagem é de Sara Milanese, publicada por Avvenire, 11-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Milhares de outros congoleses chegaram com a família de Mambolewa: ao longo de 2025, mais de 200 mil pessoas buscaram asilo naquele que a ONU considera o país mais pobre do mundo.
A primeira grande onda, de 70 mil pessoas, ocorreu entre janeiro e abril do ano passado. Apesar do acordo de paz assinado em Washington entre a República Democrática do Congo e Ruanda em 27 de junho (o primeiro de três acordos patrocinados pelo presidente dos EUA, Donald Trump), o fluxo de chegadas pela fronteira nunca cessou. Basta dizer que o número de abrigados no campo de Musenyi, um dos cinco no território burundês, triplicou em poucos meses e, em meados de dezembro, já ultrapassava 22 mil pessoas. Não se trata de um fenômeno novo: o conflito no leste da RDC, uma das regiões mais ricas do mundo em minerais preciosos, assola o país há mais de três décadas, alimentado pelo apoio ruandês ao M23; alguns dos refugiados de Musenyi estão no campo já há cinco anos.
Mapa de Burundi. (Foto: Kellisi/Wikimedia Commons)
Mas a emergência humanitária eclodiu com a ofensiva dos rebeldes no início de dezembro, com a tomada da cidade congolesa de Uvira. Segundo um relatório da ONU, em apenas um mês, mais de 100 mil congoleses cruzaram a porosa fronteira entre o Burundi e a região de Kivu do Sul, a maioria a pé e, em alguns casos, de barco, atravessando o Lago Tanganica.
Os refugiados são imediatamente encaminhados para "centros de trânsito" próximos à fronteira, que nas últimas semanas excederam em muito sua capacidade, em alguns casos em quase 200%. Aguardando transferência para os campos de refugiados dentro do país, milhares de famílias esperam nessas áreas, onde o fornecimento de alimentos e remédios tem dificuldade para chegar e onde o acesso limitado à água e a falta de condições higiênico-sanitárias aumentam exponencialmente o risco de epidemias. Muitas das pessoa em fuga chegam feridas e traumatizadas pela violência que presenciaram e sofreram; crianças e mulheres grávidas estão exaustas após dias sem comida. "Quase 70% das crianças apresentam sinais de desnutrição", explica Silvie Ngawuna, médica da clínica móvel em Musenyi. "Elas chegam ao campo já nessa condição, e o desafio para nós é conseguir identificá-las a tempo de iniciar o tratamento antes que seja tarde demais. Os menores em estado mais grave são hospitalizados."
As Nações Unidas relatam 53 mortes entre refugiados congoleses nos campos de refugiados do Burundi, mas, de acordo com a Coalizão para a Paz e a Coexistência Comunitária (CPCC), uma associação local que atua na região, houve pelo menos 105 mortes nas últimas duas semanas. Há consenso sobre as causas: falta de assistência médica, condições precárias de moradia, desnutrição e até cólera. Em novembro passado, novos focos dessa doença, endêmica no Burundi, foram identificados justamente na fronteira com a República Democrática do Congo e ao longo das margens do lago; as mesmas áreas que hoje são uma passagem obrigatória para os refugiados. A principal questão, porém, é a falta de fundos: "Não há recursos suficientes para suprir as necessidades básicas como alimentação e assistência médica. Além dos cortes na ajuda ao desenvolvimento constatados em todo o mundo, o Burundi sofre com a falta de atenção internacional", explica Giampaolo Pastorelli, gerente nacional da ONG WeWorld, ativa no país há trinta anos.
As principais atividades da WeWorld no Burundi são o combate à desnutrição e o acesso à água potável para melhorar as condições higiênico-sanitárias, dois desafios que continuam no topo da lista de prioridades para o país.
Nos campos de refugiados, essas duas questões exigem uma resposta ainda mais urgente: "Os programas de nutrição devem ser ativados para resolver os casos mais graves de desnutrição, com atenção especial à faixa etária de 0 a 5 anos", continua Pastorelli. "Melhorar a situação higiênico-sanitária nos campos de refugiados é uma prioridade: há surtos que já resultaram em mortes; a situação é alarmante."
Segundo o ACNUR, são necessários pelo menos 47 milhões de dólares para garantir alimentação, água, assistência médica e abrigo para todos. E são necessários com urgência, caso contrário, alertam as agências humanitárias, os suprimentos de ajuda chegarão com graves atrasos. Enquanto isso, o destino de Uvira permanece incerto: os rebeldes haviam anunciado sua retirada, mas diversas fontes confirmam sua presença nos bairros periféricos, enquanto combates continuam nos arredores da cidade. Essa instabilidade alimenta o fluxo constante de pessoas em fuga para o Burundi. Para muitos congoleses, este último é apenas mais um deslocamento: dizem que retornarão para suas casas assim que as condições permitirem.
Mambolewa parece não pensar assim: "Perdemos a esperança de voltar para casa, mas esperamos poder reconstruir algo aqui um dia". Diante da perspectiva de o leste do Congo finalmente consiguir encontrar a paz, ela acredita que será mais provável que um país pobre como o Burundi lhe permitirá recomeçar sua vida
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