Diretor da Caritas na Somália alerta que mudança ‘catastrófica’ na prolongada crise alimentar é iminente

Foto: Unicef

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14 Janeiro 2026

Enquanto mais de 4,6 milhões de pessoas na Somália sofrem com uma das piores secas das últimas décadas, a diretora executiva da Caritas no país — localizado no Chifre da África, assolado pela guerra e devastado ecologicamente — afirma que a prolongada crise humanitária está atingindo um ponto de ruptura crítico.

Fatores convergentes criaram a crise: uma emergência climática intensificada por ciclos recorrentes de falta de chuvas, décadas de conflito e instabilidade política contínua. Em uma entrevista exclusiva à Crux, Sara Ben Rached, da Caritas Somália, descreveu a situação da nação como "uma das mais complexas do mundo".

Rached disse à Crux que a crise está sendo drasticamente agravada pela recente suspensão da assistência do governo dos EUA, o que paralisou a resposta humanitária no momento exato em que as necessidades estão aumentando. O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários tem um plano para assistência, mas Rached afirma que o plano possui apenas 26% do financiamento necessário e alerta que, sem recursos imediatos e flexíveis, a situação passará de crise para "catastrófica", forçando mais famílias ao deslocamento e empurrando regiões inteiras para níveis de fome de emergência.

A Crux entrevistou Rached recentemente e compartilha a seguir o resultado, que foi editado para maior clareza e brevidade.

A entrevista é de Ngala Killian Chimtom, publicada por Crux, 13-01-2026.

Eis a entrevista.

Como você descreveria a situação humanitária na Somália hoje?

A situação humanitária na Somália continua extremamente grave e está entre as mais complexas do mundo. O país vive uma das piores secas em décadas, em um contexto onde as secas são um fenômeno recorrente. No entanto, nos últimos anos, esses ciclos ocorrem com maior frequência e intensidade, com temporadas de pouca ou nenhuma chuva que deixam as comunidades sem tempo suficiente para se recuperarem.

De acordo com os dados mais recentes, mais de 4,6 milhões de pessoas são diretamente afetadas pela seca, enquanto milhões enfrentam altos níveis de insegurança alimentar aguda. Esta emergência climática é agravada por vulnerabilidades estruturais profundas: décadas de conflito, instabilidade política, instituições fracas e acesso limitado a serviços básicos. Apesar dos abundantes recursos naturais da Somália — como áreas de pesca e praias cênicas adequadas para o turismo — estes permanecem amplamente inexplorados devido à insegurança. Por exemplo, antes de 1990, havia uma fábrica de processamento de atum em Aluula e praias perto de Gesira e das Ilhas Bajuni que poderiam ter sustentado o turismo. A maior parte da população civil continua vivendo sem segurança, serviços essenciais ou perspectivas de estabilidade.

O Consórcio de ONGs Somalis (SNC) alertou sobre o rápido agravamento das condições de seca. Como a seca está piorando a situação humanitária no terreno?

A seca não é novidade na Somália, mas o principal problema hoje é a repetição de temporadas ruins consecutivas. O fracasso das chuvas Deyr entre outubro e dezembro de 2025 piorou uma situação já frágil de estações secas anteriores. Com as próximas chuvas esperadas apenas para abril de 2026, a estação seca Jilaal provavelmente terá um impacto severo.

No terreno, isso resulta em escassez de água, secagem de poços, degradação de pastagens e aumento da mortalidade de gado, que representa a principal fonte de alimento e renda para muitas famílias. As plantações falharam amplamente e as reservas de alimentos estão quase esgotadas. Isso levará ao aumento da fome, da desnutrição — especialmente entre crianças — e ao deslocamento forçado.

No início deste mês, os Estados Unidos suspenderam toda a assistência ao governo somali, alegando que autoridades destruíram um armazém do Programa Mundial de Alimentos da ONU e confiscaram "ajuda alimentar financiada por doadores". Você pode descrever o impacto prático e imediato dessa decisão nas operações da Caritas? Seus projetos são financiados diretamente por fundos do governo dos EUA ou vocês trabalham por meio de parceiros que podem ser afetados?

A suspensão da assistência dos EUA tem um impacto imediato e tangível em toda a resposta humanitária na Somália. Mesmo quando a Caritas não recebe financiamento direto dos Estados Unidos, ela ainda é afetada indiretamente. O Plano de Necessidades e Resposta Humanitária está financiado em apenas cerca de 26%, forçando muitas organizações a reduzir ou suspender intervenções essenciais justamente quando as necessidades aumentam rapidamente.

Isso significa menos assistência alimentar, menos serviços de saúde e nutrição, menos acesso à água e redução na proteção aos mais vulneráveis. No terreno, as organizações humanitárias são forçadas a tomar decisões extremamente difíceis, deixando inevitavelmente algumas famílias sem apoio.

Os EUA citam uma "política de tolerância zero" para o desvio de ajuda como motivo para a suspensão. Da sua perspectiva trabalhando na Somália, quão significativo e generalizado é o desafio do desvio de ajuda ou da corrupção no país?

O desvio de ajuda é um desafio real na Somália, particularmente em um contexto marcado por conflitos, fragmentação territorial e presença de grupos armados. No entanto, não é uniforme ou generalizado por todo o país. As dinâmicas variam muito dependendo da área e do contexto.

Políticas rígidas de "tolerância zero" correm o risco de afetar as comunidades mais vulneráveis mais do que os indivíduos responsáveis pelas irregularidades. Instituições fracas e múltiplas interferências externas tornam o contexto extremamente complexo e exigem abordagens realistas que considerem as condições operacionais no local.

Como a Caritas consegue lidar com essa corrupção para garantir que a assistência vital chegue às populações pretendidas?

A Caritas Somália trabalha por meio de parceiros locais cuidadosamente selecionados e mantém contato próximo com as comunidades. A seleção de parceiros é uma etapa crítica: avaliamos minuciosamente sua capacidade operacional, presença territorial e o nível de confiança que desfrutam na comunidade.

Usamos mecanismos transparentes de seleção de beneficiários, sistemas de monitoramento contínuo e canais acessíveis de reclamações e feedback, permitindo que as pessoas assistidas relatem problemas ou irregularidades com segurança. Além disso, são realizadas verificações externas: a Caritas envia periodicamente especialistas independentes ao campo para garantir que os fundos sejam usados de acordo com as propostas aprovadas.

Na sua visão, qual é a consequência real para os 4,6 milhões de somalis que já enfrentam níveis de fome de crise?

Para milhões de famílias, as consequências são imediatas e graves. As refeições diárias são reduzidas, os ativos ou gado restantes são vendidos e ocorre o deslocamento forçado para cidades ou campos, onde as condições de vida são precárias. Projeções indicam que algumas áreas do país atingirão níveis de Emergência (Fase 4 do IPC) no início de 2026. As crianças são as mais afetadas: a desnutrição aguda está aumentando e os serviços de nutrição lutam para atender à demanda por falta de verba.

Com a retirada de um grande doador como os EUA, como evitar que isso se torne uma catástrofe humanitária?

Evitar uma crise catastrófica ainda é possível, mas a margem de ação está diminuindo rapidamente. Em 2026, espera-se que os parceiros humanitários alcancem apenas 2,4 milhões de pessoas, menos da metade dos necessitados. Isso exige uma resposta altamente prioritária em intervenções que salvam vidas: comida, água, nutrição e saúde.

É crucial pensar de forma diferente. A abordagem do "nexo" entre ajuda humanitária, desenvolvimento e paz é fundamental: não basta responder a emergências; são necessários projetos sustentáveis de médio e longo prazo que construam resiliência. Uma parte essencial disso é encontrar formas de integrar as estruturas de clãs da Somália na governança. Colaborar com líderes de clãs — em vez de marginalizá-los — pode ajudar a evitar conflitos entre autoridades centrais e regionais e promover o desenvolvimento nacional.

Qual o papel único de uma organização confessional como a Caritas para navegar nesta crise?

A Caritas Somália é uma organização nacional, fundada para responder à emergência de refugiados após a Guerra de Ogaden em 1977. Em um contexto de tensões políticas e conflitos armados, desempenhamos um papel distintivo construído sobre a confiança de longa data com as comunidades. A Somália é frequentemente alvo de intervenções externas mal coordenadas; nossa tarefa é ficar fora dessas dinâmicas, mantendo o bem-estar e a dignidade das pessoas como nossa única referência.

Atualmente, buscamos financiamento para duas iniciativas prioritárias. A primeira foca no combate à desnutrição infantil, estabelecendo hortas comunitárias para cultivar alimentos altamente nutritivos — como amendoim, feijão, moringa e espinafre — e treinando mães na preparação de refeições ricas em energia. O segundo projeto foca na gestão e coleta de água, uma questão crucial onde a seca alterna com chuvas intensas que causam inundações. Criar estruturas de armazenamento de água é fundamental para fortalecer a resiliência comunitária diante dos choques climáticos recorrentes.

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