Biografia de um herói desconhecido do movimento católico LGBTQ+. Artigo de Max Kuzma

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12 Janeiro 2026

"Tyler Bieber nos deu um presente: um lembrete de que nadar contra a corrente sempre fez parte da vida cristã", escreve Max Kuzma, em artigo publicado por New Ways Ministry, 12-02-2026.

Eis o artigo.

Existe uma rica e longa história de defesa dos direitos LGBTQ+ dentro da Igreja Católica, mesmo que nem sempre tenhamos acesso a todas as histórias ou a todos os seus fragmentos. O que sobrevive tende a ser desigual: algumas vidas são bem documentadas, outras aparecem apenas em partes, e muitas formas de defesa — pastoral, educacional, institucional ou relacional — nunca deixam um registro público. Há um amplo espectro de maneiras pelas quais católicos LGBTQ+ e seus aliados têm trabalhado pela dignidade, verdade e pertencimento dentro da Igreja.

O livro "Contra a corrente: Padre Tom Oddo e o novo católico americano", de Tyler Bieber (Unencumbered Press, 2025), examina a vida do Padre Tom Oddo, CSC. Em vez de tentar contar uma história completa da comunidade LGBTQ+, o livro se concentra na vida do Pe. Tom Oddo, CSC. Com foco na defesa da fé católica, o livro se concentra em como a fé, a educação, a liderança institucional e o engajamento público convergiram em uma vida específica. Ao fazer isso, oferece aos leitores um ponto de partida realista e em escala humana para uma história muito maior e mais complexa.

"Against The Current: Father Tom Oddo And The New American Catholic", livro de Tyler Bieber (Unencumbered Press, 2025).

Nascido em 1944 e morto em um acidente de carro aos 45 anos, Tom viveu uma vida incrivelmente plena. Padre da Congregação da Santa Cruz, formado pela Universidade de Notre Dame, líder nacional da DignityUSA e, posteriormente, presidente da Universidade de Portland, Tom Oddo cresceu junto com as reformas do Concílio Vaticano II e interagiu com muitas figuras conhecidas e queridas no ativismo católico LGBTQ+ — incluindo a própria Irmã Jeannine Gramick, da New Ways! O livro de Bieber situa Tom firmemente dentro do contexto histórico — não como um radical atípico, mas como alguém que levou a sério o apelo do Concílio Vaticano II para que a Igreja lesse os sinais dos tempos.

Uma das tensões mais instigantes que Bieber explora é a cuidadosa maneira como Tom navegava pelas fronteiras institucionais. Tom acreditava profundamente no progresso da Igreja, mas também compreendia o custo de ser rejeitado sumariamente. Ele não “forçou a barra” de maneiras que o impedissem de ensinar, pregar ou liderar. Essa postura pode frustrar alguns leitores contemporâneos, mas Bieber demonstra a profundidade e a abrangência da defesa que Tom conseguiu realizar. Sua escolha foi estratégica e pastoral, moldada por limitações reais. Para católicos LGBTQIA+ que muitas vezes tiveram que traduzir suas vidas em uma linguagem palatável apenas para permanecerem em um ambiente religioso, essa tensão parece familiar. O cuidado de Bieber como historiador é evidente não apenas no que ele inclui, mas também em como ele chega a essas conclusões. "Contra a Corrente" se baseia em extensa pesquisa de arquivo, particularmente em materiais mantidos pela Universidade de Portland, onde Tom atuou como reitor até sua morte.

Bieber analisou minuciosamente atas de reuniões, discursos, correspondências, publicações estudantis e registros institucionais. Em uma conversa recente no meu podcast, Whiplash, Bieber compartilhou abertamente como esse processo o impactou e, por vezes, o desafiou. Ouvir suas reflexões sobre essa pesquisa, em paralelo ao livro, ressalta o quão deliberadamente essas escolhas foram feitas e o quanto a história de Tom também tocou a vida de Bieber. O título do livro surge de uma prática formativa na vida de Tom: ele foi nadador a vida toda e, ao refletir sobre o que significa viver verdadeiramente a vida cristã, compreendeu analogamente seu papel como o de “nadar nas águas de Deus”, mesmo quando isso significava ir contra a corrente do mundo — ou da Igreja. O ativismo de Tom não cresceu apesar de sua fé, mas por causa dela. Sua paixão por justiça era inseparável de sua profundidade espiritual. Como tantas pessoas LGBTQ de fé, ele encontrou o cristianismo não como um conjunto estático de regras, mas como um mistério que exigia tudo dele.

Essa integração entre contemplação e ação talvez seja articulada com maior clareza na dissertação de Tom em Harvard, um estudo comparativo entre o trapista Thomas Merton e o jesuíta Daniel Berrigan. Bieber demonstra como Tom compreendia o ativismo e a espiritualidade como interdependentes: o amor a Deus e o amor ao próximo constituem um movimento único e indivisível. Essa compreensão norteou seu trabalho com a Dignity, onde atuou como Secretário Nacional, sua defesa pública dos direitos civis dos homossexuais e sua insistência de que o ensinamento moral católico deve levar em conta, honestamente, os dados biológicos e psicológicos sobre a sexualidade humana.

O que torna "Contra a Corrente" especialmente relevante hoje é a forma como a voz de Tom ainda soa contemporânea. Décadas atrás, ele desafiou a Igreja por descrever a homossexualidade como uma "depravação grave", argumentando, em vez disso, que ela poderia ser uma dádiva divina quando vivida de forma ética e amorosa. Ele insistiu que a religião deve moldar a forma como nos tratamos uns aos outros, e não apenas a forma como oramos. Lendo essas passagens agora — em meio ao ressurgimento do nacionalismo cristão e à renovada retórica da guerra cultural católica — é difícil não sentir, ao mesmo tempo, tristeza e clareza. Tristeza por quantas vidas foram prejudicadas. Clareza sobre o que pode ser um testemunho católico fiel.

Tom levou esses compromissos para sua presidência na Universidade de Portland. A descrição que Bieber faz de sua abordagem ao ensino superior católico é particularmente marcante: a recusa em confundir fé com medo, ou formação com censura. Tom acreditava que as instituições católicas deveriam defender algo e permitir que todas as perguntas fossem feitas. Ele acreditava que a verdade era forte o suficiente para resistir ao escrutínio.

Uma das materializações dessa visão — a criação da Capela de Cristo Mestre no campus — torna-se, na narrativa de Bieber, uma silenciosa declaração teológica. Um espaço projetado não para dominar ou intimidar, mas para orientar a adoração rumo ao aprendizado, à humildade e ao encontro. É um pequeno detalhe no livro, mas revelador. Tom acreditava que a arquitetura, a pedagogia e as políticas, todas pregavam o evangelho, intencionalmente ou não.

Contra a Corrente não é uma hagiografia. Bieber está atento às questões não resolvidas, aos limites do que Tom podia ou queria dizer em seu tempo. Mas é justamente essa honestidade que dá força ao livro. O padre Tom Oddo emerge não como um herói impecável, mas como um homem profundamente fiel que tenta — imperfeitamente, persistentemente — dizer a verdade e permanecer enraizado no amor.

Para os católicos LGBTQIA+ de hoje, essa história importa. Ela nos lembra que a Igreja já possuía as ferramentas necessárias para que a libertação LGBTQIA+ florescesse — e que essas ferramentas já foram utilizadas antes, por pessoas dispostas a confiar em sua experiência, seu intelecto e o Evangelho mais do que na inércia institucional.

Tyler Bieber nos deu um presente: um lembrete de que nadar contra a corrente sempre fez parte da vida cristã.

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