Ancara e Beirute: O sentido do Papa para a política. Artigo de Giovanni Maria Vian

O Papa Leão XIV é recebido no palácio presidencial em Ancara, Turquia, pelo presidente turco Recep Tayyip Erdogan em 27 de novembro de 2025, primeira parada da primeira viagem papal internacional do Papa Leão. (Foto: CNS/Lola Gomez)

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29 Novembro 2025

"O Papa de Roma fez todo o possível para evitar o aprofundamento das divisões e para separar a comemoração do concílio, em 28 de novembro, da festa de Santo André, padroeiro da Igreja de Constantinopla", escreve Giovanni Marian Vian, professor italiano de filologia patrística e jornalista, em artigo publicado por Domani, 27-11-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Os momentos culminantes da primeira missão internacional de Prevost serão o encontro com Erdogan e a oração silenciosa no local da terrível explosão que, há cinco anos, em 2020, destruiu parte do porto e do centro da capital libanesa.

A viagem do Papa Leão à Turquia e ao Líbano começa hoje, a primeira viagem internacional de seu pontificado, herdada de seu antecessor, mas que Prevost soube transformar com discrição. O principal motivo desse itinerário — que prevê inicialmente os encontros, com óbvias implicações políticas, com Erdogan, figura proeminente na região e no contexto internacional, e depois com diplomatas acreditados em Ancara — é um evento religioso de inegável importância.

O evento marca o décimo sétimo centenário do Primeiro Concílio de Niceia (atual Iznik, a cerca de cem quilômetros de Istambul), que em 325 inaugurou a série de concílios ecumênicos, ou seja, universais. Destes, os sete primeiros, até o Segundo Concílio de Niceia em 787, são reconhecidos pela maioria dos cristãos, enquanto para a Igreja Católica — com o Vaticano II, concluído em 1965 — o número de concílios chega a vinte e um.

Implicações políticas e religiosas também caracterizam a visita ao Líbano, país fronteiriço com a Síria e Israel. Desejada pessoalmente por Leão XIV, esta segunda etapa da viagem ocorre cinquenta anos após o início, em 1975, da guerra civil — de fato alimentada e travada pelos poderosos vizinhos — que devastou e colocou em risco o pequeno país árabe. O Líbano, de fato, sustenta-se na convivência e num frágil equilíbrio entre etnias e religiões, onde os cristãos, divididos em diferentes confissões e ritos, representam a maioria.

Carregados de significado serão os encontros, as celebrações e, sobretudo, pouco antes de deixar Beirute, a oração silenciosa do Papa no local da devastadora explosão que, há cinco anos, em 2020, destruiu parte do porto e do centro da capital libanesa. Não se deve esquecer que o nome do país — a antiga Fenícia, plenamente inscrita na "terra santa" dos cristãos — aparece cerca de setenta vezes na Bíblia Hebraica, e que a imagem do amado no Cântico dos Cânticos é aquela de "o Líbano, magnífico como os cedros".

Política e religião também se confrontam na comemoração do Concílio de Niceia, embora reconhecido de fato por todos os cristãos, devido às divisões no mundo ortodoxo. O conflito entre o Patriarcado de Constantinopla — que remonta ao século IV e mantém uma primazia de honra, com fiéis principalmente de fora da Turquia — e o de Moscou, tornou-se cada vez mais acirrado nos últimos anos devido às divisões entre os fiéis ucranianos. A comunhão entre os patriarcas Bartolomeu de Constantinopla e Kirill de Moscou foi, portanto, interrompida. Este último há anos inspira Putin, tendo provocado o fracasso do Concílio Pan-ortodoxo de Creta em 2016 e tendo apoiado a guerra de agressão contra a Ucrânia desde 2022. Assim, salvo alguma surpresa de última hora, representantes russos não estarão presentes nas celebrações convocadas na Turquia pelo primeiro dos patriarcas ortodoxos.

O Papa de Roma fez todo o possível para evitar o aprofundamento das divisões e para separar a comemoração do concílio, em 28 de novembro, da festa de Santo André, padroeiro da Igreja de Constantinopla. Esta, de fato, ocorre dois dias depois, quando Leão discursará durante a "divina liturgia" na Igreja patriarcal, poucas horas antes de sair de Istambul para Beirute. Fica, portanto, claro que a intenção e o dever de Roma — e hoje de Prevost, último sucessor de Pedro — são buscar e promover a unidade entre os cristãos.

Leão XIV escreveu isso explicitamente em sua carta apostólica In unitate fidei (“na unidade da fé”), de 23 de novembro, recordando o Concílio Vaticano e a encíclica Ut unum sint (“para que sejam um”), de João Paulo II, publicada em 1995. A encíclica de Wojtyła esteve no centro de um extenso documento do Vaticano em 2024, que angariou as reações - bastante positivas - doa cristãos não católicos, especialmente anglicanos e protestantes.

A Ut unum sint é “a primeira encíclica ecumênica”, afirma hoje o pontífice, celebrando seu aniversário e definindo-a como “um manifesto” que atualizou as “bases ecumênicas postas” há dezessete séculos por Niceia. Sem esconder as graves dificuldades atuais, o papa estadunidense trouxe à tona um documento no qual Wojtyła clamava pela necessidade urgente de uma reforma do próprio papado. Para encontrar, “evidentemente juntos” com todos os cristãos, novas formas – escrevia João Paulo II – de “um serviço de amor reconhecido por uns e por outros”.

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