29 Novembro 2025
O "brain rot" (deterioração mental, em tradução livre) causado pelas redes sociais é fácil de detectar: seus pensamentos se tornam cada vez mais simples e você tem dificuldade para desenvolver estruturas mentais complexas, se perde nelas ou acha extremamente difícil navegar por elas.
O artigo é de Miguel Ángel García, escritor espanhol, publicado por El Salto, 28-11-2025.
Eis o artigo.
O conceito de "brain rot" é um desses anglicismos que adotamos para tornar mais amigáveis realidades assustadoras — como coliving, minijob ou nesting — porque sua alternativa em nosso idioma é horrível: "cérebro podre", "deterioração mental" ou "podridão cerebral".
É um termo adotado recentemente, embora venha sendo desenvolvido há décadas, e engloba o conjunto de efeitos nocivos à saúde mental decorrentes do consumo excessivo de conteúdo online, especialmente em redes sociais, e, especificamente, refere-se à deterioração das capacidades intelectuais e cognitivas devido ao seu uso.
É muito fácil perceber por si mesmo: você nota que seus períodos de atenção focada estão ficando cada vez mais curtos, chegando até a desaparecer; você não consegue se concentrar em uma única tarefa, precisando realizar várias ao mesmo tempo e alternando entre elas. Você perdeu a capacidade de reter informações; tem dificuldade para recuperar dados da sua memória ou simplesmente não consegue se lembrar de algumas coisas, mesmo que tenham acontecido há poucos instantes. Seus pensamentos estão se tornando cada vez mais simplistas e você tem dificuldade para desenvolver estruturas mentais complexas; você se perde nelas ou tem extrema dificuldade para navegar por elas. Sua linguagem também está se tornando simplista; você só encontra conforto em atividades que proporcionam gratificação imediata e sente ansiedade quando não está constantemente checando o celular.
Se a situação é tão ruim, por que ainda estamos aqui? Por que nossa sociedade caminha para um mundo desprovido de complexidade intelectual e simplicidade mental?
Muito simples: porque é um vício e, como qualquer outro, é muito difícil reconhecer-se como viciado e libertar-se dele.
Mas voltemos aos efeitos nocivos da deterioração mental e da rolagem infinita — passar horas no Instagram ou TikTok assistindo a vídeos curtos sem conteúdo, sem participar ativamente do processo mental — especificamente, os vídeos sociais, porque isso serve ao capitalismo mais voraz; é sua arma definitiva para alienar a população.
É fácil imaginar até que ponto um instrumento que destrói diretamente os processos de construção de pensamentos complexos se torna uma ferramenta que favorece a perda da crítica, do questionamento e do anti-intelectualismo.
Este último ponto é uma tática amplamente utilizada pela direita global: minar e menosprezar os fundamentos teóricos, científicos, históricos e técnicos que foram construídos ao longo dos séculos. Não é incomum ouvir discursos dessa ala política atacando universidades ou outras instituições de ensino, por exemplo.
Na verdade, o império das farsas e da pós-verdade é construído sobre fundamentos anti-intelectuais.
Além dessa tendência inerentemente prejudicial, devemos acrescentar que esse declínio na função cognitiva leva à transformação das pessoas em meros consumidores. É assustador pensar que as redes sociais nos mantêm em um estado de animação suspensa, sem produzir nem consumir, e ao mesmo tempo nos bombardeiam constantemente com informações comerciais.
Se o próprio sistema capitalista já gera um processo de transformação de seres humanos em consumidores, o novo uso das redes sociais o acelera, a ponto de hoje se tornar evidente um alinhamento entre identidade pessoal e consumo.
Deixe-me explicar: por meio dessas mensagens que nos chegam pela internet, estamos assimilando o que somos com o que temos ou compramos.
Então, para ser um leitor, você precisa comprar os livros mais recentes todo mês; para ser um corredor, precisa comprar os melhores tênis ou óculos de sol aerodinâmicos; para ser um amante da música, precisa ir ao máximo de shows possível ou ter prateleiras cheias de discos. E assim por diante com tudo. Pare um instante e pense nisso: quem você é sem aquilo que consome?
A grande vitória do capitalismo está assumindo esta forma: a privação de uma identidade fora do mercado e a deterioração de nossa independência mental.
É desanimador, mas ainda há esperança. É difícil, mas você pode reduzir o uso das redes sociais filtrando o que elas contribuem para a sua vida e o que não contribuem, retornando a atividades offline e construindo comunidades presenciais onde você possa forjar laços reais e consciência coletiva diante da alienação programada.
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