O Deus trumpiano entre sagrado e profano. Artigo de Massimo Giannini

Foto: Gage Skidmore/Wikimedia Commons

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29 Setembro 2025

"Este é o tempo em que nos é dado viver, no que resta de uma civilização ocidental descristianizada, porém devota."

O artigo é de Massimo Giannini, jornalista e escritor italiano, publicado por la Repubblica, de 27-09-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Apagada a tocha na Estátua da Liberdade como paradigma da mãe que acolhe os viandantes da Terra, redimensionado o dólar como moeda de reserva que rege o comércio do mundo, o Império trumpiano por fim encontrou um novo símbolo para impor ao planeta. É a cruz com rodinhas, que estreou no funeral solene e megapop do protomártir Charlie Kirk, em meio a cantos gregorianos e hambúrgueres texanos, fogueiras bíblicas e fogos de artifício. A imagem plástica e fiel de um Cristo portátil, pronto para o uso e de fácil consumo.

Um Jesus prêt-à-porter: qualquer um sem muito esforço, pode carregar nas costas um pouquinho de calvário imaginário. Mas é naquela cruz-móvel tipo Walmart que agora caminha o Deus estadunidense, peregrino e fera entre os povos. Mais ameaçador do que misericordioso. Encarnação de um poder imenso e sem precedentes, onde as dimensões espiritual, temporal e digital são inseparáveis como nunca havia se visto antes. Não há mais barreira entre sagrado e profano.

A religião é a continuação da política por outros meios, e vice-versa. O Todo-Poderoso e os EUA desde sempre conversaram. Deus está na Constituição e na moeda. Os presidentes juram sobre a Bíblia.

A autopercepção messiânica de Trump é conhecida desde o atentado de Butler em julho de 2024, quando a bala de Crooks foi desviada pelo Senhor para permitir que Trump salvasse a nação. Mas nunca como no funeral do influenciador de Turning Point o divino se tornou humano, informando sobre si os pensamentos e as palavras do povo Maga. A começar por seu profeta, o magnata que, apesar dos Evangelhos, promete terrível vingança e brada: "Eu odeio nossos adversários" que mataram Charlie "porque dizia a verdade sobre a pátria e sobre Deus". Mais ainda, seu vice, o obcecado Vance, proclama: "esse não é um funeral, é um renascimento dos valores cristãos". O Secretário de Estado Rubio garante: "Charlie é como Jesus; ele também mudou a história".

O pastor Rob McCoy diz: "Deus guiou a vida de Kirk e agora nos pede para seguirmos seu exemplo". O evangélico Jack Posobiec pergunta às massas: "Vocês estão prontos para vestir a armadura de Deus? Precisamos salvar a civilização ocidental". E, finalmente, sua viúva, Erika, com o colar ensanguentado do marido em volta do pescoço, assegura: "Com a morte dele, o plano de Deus foi cumprido". Por todos os lados, entre as 100.000 pessoas no Estádio State Farm, bonés com o slogan "Jesus é meu salvador, Trump o meu presidente" e camisetas com o rosto de Jesus e as palavras "Make America Christian Again"

Uma ostentação blasfema e iconoclasta, diante da qual certamente só pode ficar horrorizado quem ainda acredita na separação dos poderes sancionada pelos constituintes do século XVIII. Grandes escritores estadunidenses, de Percival Everett a Marilynne Robinson, denunciam o "espetáculo repugnante" e a "traição do cristianismo", utilizado e transformado em seu oposto por cínicos propagandistas sem qualquer verdadeira experiência de fé. De pouco serve. Este é o tempo em que nos é dado viver, no que resta de uma civilização ocidental descristianizada, porém devota.

Religião como instrumentum regni, ópio dos povos e cetro dos poderosos. Ao mesmo tempo, as democracias liberais estão degenerando em autocracias eletivas e já abertamente teocráticas. Um fenômeno que no passado era exclusivo do mundo islâmico e agora diz respeito a todos nós. Incluindo nós, europeus, confusos e impotentes diante do que Luciano Violante corretamente define de "quatro autoritarismos” contemporâneos: Trump, Putin, Netanyahu e Hamas. O comandante-em-chefe dos Estados Unidos venceu a eleição presidencial com a doutrina da Heritage Foundation, construída sobre as demandas de grupos sociais e eleitorais inspirados pelo Antigo Testamento: Deus delega a res publica à igreja, à família e ao governo, chamados a derrotar as forças satânicas, ocupando todos os cargos de liderança, da administração às mídias, da universidade aos negócios.

Putin, na Rússia, alimenta o sonho neoczarista da Eurásia enquanto despreza o Ocidente "ateu e decadente": ele se inspira nos filósofos espiritualistas oitocentistas, como Nikolai Danilevsky, e faz com que ele e as tropas que partem para o front ucraniano sejam abençoados pelo Patriarca Ortodoxo Kirill, cujo provável sucessor, o Metropolita Tikhon da Crimeia, acredita que Kirk, um "missionário entre os infiéis", foi morto por defender os mesmos valores pelos quais o homem do Kremlin luta. Netanyahu faz o mesmo: extermina os palestinos de Gaza, por vontade do profeta Samuel e do Eretz Israel, o Grande Israel, "terra de leite e mel", prometida a Abraão no Gênesis e sonhada por Ben Gurion nos anos 1950. Do Hamas sabemos tudo desde sempre: a destruição da "entidade sionista" não está escrita apenas no estatuto dos terroristas jihadistas, mas, segundo eles, também no Alcorão, como quer o islamismo xiita da Irmandade Muçulmana no Egito, dos Guardas da Revolução no Irã, dos Talibãs fundamentalistas no Afeganistão.

As democracias europeias estão encurraladas, reduzidas a "procedimentos" e incapazes de produzir "cultura".

Frágeis e agora em grande parte minoritárias em um mundo que busca ordem em meio ao caos, opõem às ruínas da OTAN os novos polos geoestratégicos, reunidos na China pela Organização para a Cooperação de Xangai e no Catar pela Organização Pan-Árabe após os ataques israelenses em Doha.

Essa crise identitária, que vê os regimes agredir as nossas fundações civis em nome de princípios morais traídos e as esquerdas deixando-se tirar o pensamento mítico e palingenético, é uma terra de conquista para as direitas trumpianas, em ambos os lados do Atlântico. O rito sacrílego de Glendale é pura gasolina sobre a chama meloniana que arde mais forte do que nunca: faz a primeira-ministra gritar: "Ser associada a Kirk é motivo de orgulho", a faz ignorar a tragédia humanitária de Gaza, a faz zombar da missão da Flotilha, enquanto faz os Fratelli d’Italia gritarem: "Somos todos Charlie". E também é combustível útil para a decadente Liga do Norte, que no campo de Pontida oferece seu caseiro martirológio kirkiano a uma multidão inflamada que, antes de seu assassinato, do pobre Charlie sequer conhecia a existência.

Especialista na "área", o Capitão Salvini agita rosários e crucifixos em comícios há anos e hoje, com tocante modéstia, compara-se a Jesus porque "ele também mudou a história". Em meio a tanta impostura — que transforma o espírito em uma sinistra categoria da política e a fé no serviçal complacente de uma ideologia — resta saber por quanto tempo os "católicos adultos" poderão permanecer em silêncio.

Seja hierarquias eclesiásticas ou círculos eleitorais. Seja o Papa Prevost ou as comunidades paroquiais, os bispos ou os pretensos "moderados". Se é verdade que o cristianismo não é "cristianismo", que Deus pertence aos homens e não aos exércitos e aos partidos políticos, que o Evangelho é amor por todos e vingança contra ninguém: se tudo isso é verdade, é hora de alguém expulsar do templo esses mercadores com a cruz com rodinhas. Depois, alguém terá que tentar derrotá-los nas urnas. Talvez pregando o único Verbo da nossa religião laica: a Constituição republicana.

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