A voz de Oseias erguendo-se do deserto dos deuses. Artigo de Lidia Maggi e Angelo Reginato

Foto: Unsplash

Mais Lidos

  • O Papa Leão XIV faz um pedido de desculpas histórico pelo papel da Santa Sé na legitimação da escravidão

    LER MAIS
  • Pesquisadores comentam a primeira encíclica de Leão XIV

    Magnifica Humanitas. Limites, possibilidades, perspectivas. Algumas análises

    LER MAIS
  • Christopher Olah: "Na IA encontramos coisas misteriosas, até mesmo perturbadoras, estados que refletem alegria, satisfação, medo, dor e inquietação"

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

26 Setembro 2025

"Entrando pela porta do livro do profeta Oseias, percorremos toda a Escritura e abordamos as grandes questões de habitar a terra nutrindo-se pela Palavra, vivendo de fé. No final da leitura, amadurece a sensação de que é precisamente assim que a Palavra atestada nas Escrituras deseja ser lida. E que precisamente dando ressonância ao texto dessa maneira, a Palavra ainda consegue interceptar nossas vivências, revelando onde está o coração, o essencial a que devemos prestar escuta", escrevem Lidia Maggi e Angelo Reginato, pastores batistas italianos, em artigo publicado por Riforma, 26-09-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Num tempo em que o fascínio da força dirige o coro das vozes, e o próprio Deus é convocado para dar apoio à violência, justificando-a com versículos bíblicos, gostaríamos de destacar um comentário bíblico, ágil e intenso, que recupera o sentido profundo das palavras da Escritura, evidenciando o amor não violento do protagonista divino. Trata-se da última contribuição oferecida por Alberto Mello, monge da comunidade ecumênica de Bose. Um comentário ao livro do profeta Oseias[1]. Como o título sugere, trata-se de uma releitura de toda a história do Israel bíblico à luz do amor misericordioso de Deus, cerne da mensagem profética de Oseias. Um amor surpreendente, gratuito, mas capaz de se revelar ao lado da justiça e da fidelidade.

Um amor que escapa à pressão retórica — resistindo às simplificações a que o texto é submetido — e se mensura com as contradições da vida. Nem mesmo o amor escapa ao grande debate que caracteriza as Escrituras judaico-cristãs. Em particular, o livro de Oseias resulta escandaloso para as sensibilidades atuais, para as mulheres presas entre Gômer, a esposa infiel do profeta, e Maria, a mulher angelical exaltada por uma certa tradição. A força desse comentário consiste na tentativa de levar a sério os desafios que emergem diante de certas narrativas do amor, que apressadamente alistam Oseias a seu serviço. Nem mesmo certas perguntas anacrônicas são desprezadas, demonstrando o que significa se dedicar à teologia, falar de Deus a partir das fraturas da vida. Oseias não é um profeta, apesar de suas complicações biográficas, mas, precisamente por causa de sua biografia. E Deus parece intuir algo de sua identidade com seu povo por meio da história de um amor ferido.

Que imagem de Deus nos é atestada no livro de Oseias? Alberto Mello dá voz ao questionamento teológico, destacando a obra desconstrutiva do profeta, que realiza um verdadeiro "deserto dos deuses" e, ao mesmo tempo, busca fonte no imaginário religioso de sua época para repensá-lo desde a base a partir da complexa experiência do amor.

Além de sua capacidade de trazer à tona a novidade de um tema frequentemente considerado desgastado e inflacionado, consideramos importante destacar a abordagem escolhida pelo autor.

O que é um comentário bíblico? Geralmente, trata-se de um instrumento a ser consultada no momento em que se aborda uma passagem de um determinado livro da Escritura. Isso também se aplica ao texto que estamos aqui apresentando. Cada autor normalmente declara a abordagem que escolheu na leitura do texto levado em consideração. E se não o fizer, o leitor pode facilmente identificá-la observando como o comentarista procede, quais perguntas dirige ao texto.

Alguns procedem como arqueólogos, analisando as várias camadas que constituem o livro em exame. Outros, no entanto, se deleitam não em escavar, mas em ilustrar o projeto final. Alguns são particularmente sensíveis à história dos efeitos, isto é, às releituras feitas ao longo dos séculos, e não apenas por exegetas. Alguns deixam claro como o texto encontra expressão na ressonância das tradições e das culturas. Além disso, juntamente com a abordagem escolhida pelo comentarista, há diferenças evidentes de estilo: erudito, pedante, pastoral...

Em qual quadrado dessa grade podemos marcar o comentário de Alberto Mello? Aqui está o aspecto mais surpreendente desse texto: seu caráter elusivo, visto que combina com maestria diversas abordagens e estilos. De forma não pedante, mostrando como interpretações divergentes podem ser mantidas unidas, em nome daquela sabedoria bíblica que não segue o princípio da não contradição, mas nos ensina a sustentar as tensões.

Com acertada delicadeza, o autor conduz o leitor e a leitora ao mundo de Oseias. E, ao mesmo tempo, mostra como esse texto profético entra em dialoga com os outros profetas e com a Escritura como um todo. Ambos os Testamentos são convocados no mundo de Oseias para expressar em coro o cerne das Escrituras.

Mencionamos acima que esse, como todos os comentários bíblicos, se presta a uma consulta para sondar o sentido de uma passagem específica. Mas, diferentemente da maioria dos comentários, esse texto incentiva o leitor a uma leitura contínua, do início ao fim. Porque a leitura é fácil, agradável, rápida, nunca redundante ou excessivamente técnica. Mas também porque Alberto Mello nos acompanha por uma jornada onde o ato da leitura se torna uma compreensão da fé e uma jornada espiritual, orquestrada polifonicamente.

A natureza científica do comentário não entra em conflito com a acessibilidade existencial do texto. Entrando pela porta do livro do profeta Oseias, percorremos toda a Escritura e abordamos as grandes questões de habitar a terra nutrindo-se pela Palavra, vivendo de fé. No final da leitura, amadurece a sensação de que é precisamente assim que a Palavra atestada nas Escrituras deseja ser lida. E que precisamente dando ressonância ao texto dessa maneira, a Palavra ainda consegue interceptar nossas vivências, revelando onde está o coração, o essencial a que devemos prestar escuta.

Nota

[1] Alberto Mello, Amore e non sacrificio, Magnano, ed. Qiqajon, 2025, pp. 166, € 18,00.

Leia mais