Faces e interfaces de uma Igreja sinodal. Artigo de Eliseu Wisniewski

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17 Setembro 2025

"Ao retomar questões como Povo de Deus, sacerdócio comum dos fiéis, ministério dos presbíteros e ministérios batismais, participação de todos na vida da Igreja, lugar dos leigos, especialmente das mulheres na Igreja, governo eclesial e exercício da autoridade na Igreja, esta obra pretende, em continuidade com a reflexão iniciada pelo Concílio Vaticano II, aprofundar algumas questões e enfrentar outras novas atenta sempre aos sinais dos tempos", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos), Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), 12-09-2025.

Eis o artigo.

Lemos com prazer e proveito Faces e Interfaces de uma Igreja sinodal (Mensa Verbi Editora, 2025, 370 páginas) [1], livro em homenagem a Antônio José de Almeida, presbítero da Diocese de Apucarana, no Paraná, mestre e doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, por ocasião dos seus 50 anos de ordenação presbiteral. Trata-se de uma Festschrift, isto é, uma coletânea de dezessete contribuições de autores, em sua maioria, teólogos e teólogas do Brasil e do exterior.

Livro de Antônio José de Almeida. (Foto: Reprodução/Facebook/Prof. Bruno Grego)

O objetivo do livro vai além da simples comemoração: propõe-se colocar à disposição dos leitores reflexões de teólogos/as que, com liberdade, escolheram, dentro de sua área de pesquisa, o tema a ser abordado, tendo como horizonte a sinodalidade. Os textos foram organizados em seis partes:

I) Dos cristãos anônimos aos cristãos-sujeitos (p. 23-58)

II) Condição comum e admirável variedade (p. 59-136)

III) Sinodalidade e missão (p. 137- 228)

IV) Horizontes eclesiais e eclesiológicos para uma Igreja sinodal (p. 229-290)

V) Desafios que não podem calar (p. 291-354)

VI) Eppur si muove (p. 355-369)

Na primeira parte, há dois textos importantes. Primeiro, Roberto Oliva apresenta “A fé de quem não vive sem o amor de Deus” (p. 25-46), no qual aborda a ideia dos “cristãos anônimos” de K. Rahner e sua relação com a Igreja que caminha junto com crentes de outras religiões e pessoas de outras convicções religiosas.

Em seguida, Rafael Luciani, à luz do processo sinodal, propõe uma definição mais completa da Igreja (p. 47-58). Para ele “é necessário renovar as identidades e as boas práticas das instituições e das mentalidades dos sujeitos eclesiais para criar as novas estruturas e interações necessárias para uma Igreja sinodal, cujas instituições internas devem ser mais participativas, mais abertas ao diálogo, mais flexíveis e mais pobres” (p. 56-57).

A segunda parte discute o sacerdócio comum, a relação entre ministérios batismais e o ministério ordenado, e a interação entre presbíteros, leigos e leigas, além da contribuição da vida consagrada para a sinodalidade.

Participam da reflexão Fabrizio Zandonade Catenassi e Fr. Ildo Perondi. Ambos abordam o sacerdócio comum dos fiéis a partir da Carta aos Hebreus, inspirando-se em Albert Vanhoye, um dos maiores especialistas no assunto (p. 61-78).

Antonio Ernesto Palafox Cruz analisa o vínculo entre ministérios batismais e ministério ordenado, ressaltando a necessidade de ir além de questões de funcionamento da vida pastoral, a fim de promover uma análise sinodal e comunicativa (p. 79-94).

Sandro Ferreira destaca a dignidade batismal de todos os cristãos, incluindo os leigos, como fundamento do seu direito de participar ativamente nas reflexões e ações pastorais. Ele aponta meios específicos para essa participação, tanto na comunidade eclesial quanto no mundo, evidenciando a colaboração entre presbíteros, bispos e leigos. (p. 95-120). Por fim, Raquel de Fátima Colet, ressalta as contribuições sinodais da vida religiosa consagrada como sujeito eclesial ativo na tessitura da comunhão, enfatizando o modo de viver, atuar e pensar da Igreja em uma eclesiologia do dom (p. 120-136).

A terceira parte aborda a sinodalidade e a missão por meio de perspectivas diversas. Francisco de Aquino Júnior discute corresponsabilidade e missão à luz da reforma eclesial promovida pelo Papa Francisco (p. 139-158).

Gilles Routhier destaca a necessidade de uma consciência compartilhada da missão, conduzida de forma sinodal (p. 159-175).

César Kuzma reforça o papel dos leigos numa eclesiologia do Povo de Deus, vivendo os valores do Reino de Deus no mundo (p. 175-189).

Margit Eckholt aponta que o pontificado de Francisco impulsionou caminhos sinodais, com o Sínodo universal 2021-2024 valorizando a participação dos leigos. Ela descreve o caminho sinodal na Alemanha como inculturado e propõe um Conselho Sinodal para fortalecê-lo a longo prazo (p. 191-216).

Bruno Grego Santos analisa impactos normativos e práticos da sinodalidade nas associações privadas de fiéis (p. 217-228).

A quarta parte inicia com uma reflexão do homenageado. Tendo em conta alguns eventos sinodais, Almeida faz uma retrospectiva da participação de leigos e leigas desde os primeiros séculos até hoje, destacando a valorização do povo de Deus e a participação consciente na vida e missão da Igreja (p. 231-258).

O canonista Pe. Alphonse Borras aborda a sinodalidade entre Igreja universal e local, destacando a sinodalidade do Povo de Deus e a corresponsabilidade dos fiéis, a catolicidade intrínseca da sinodalidade eclesial, a comunhão entre fiéis e instituição e apresenta alguns pressupostos para uma reforma do direito canônico.

A quinta parte aponta três grandes desafios para a Igreja: mulheres no processo sinodal; superação de um cristianismo sacerdotalizado; tradicionalismo. Olga Consuelo Vélez descreve o percurso do tema “mulheres” no Sínodo, reconhecendo no reconhecimento da dignidade e espaço das mulheres, mas ainda com muito a percorrer, especialmente nos ministérios: diaconato permanente (p. 293-316).

Agenor Brighenti, seguindo o teólogo chileno J. Costadoat, defende des-sacerdotalizar o cristianismo, afirmando que a sacerdotalização deriva de uma visão patológica do cristianismo. Para ele, a visão de Igreja, a comum dignidade batismal, a pluralidade de ministérios consagrados pelo Concílio Vaticano II, bem como o impulso de Francisco em vista de uma Igreja sinodal, deve contribuir para a reversão desta sacerdotização (p. 317-336).

Eliseu Wisniewski analisa o tradicionalismo como uma tendência que leva a Igreja a ser um gueto voltado para dentro de si, contrariando a finalidade missionária, que constitui sua razão de ser (p. 337-353).

Na sexta parte, Serena Noceti propõe repensar o decidir para uma Igreja sinodal, indo além do modelo linear atual: consultar/aconselhar → deliberar. Ela apresenta seis passos: definir o objeto, reunir informações, delinear alternativas, estabelecer critérios de julgamento, envolver a comunidade para avaliar opções e, por fim, a decisão pela autoridade pastoral. Reconhece a complexidade e resistência, mas afirma que reformular o processo decisório é essencial para o manejo organizacional atual. (p. 357-369).

Ao retomar questões como Povo de Deus, sacerdócio comum dos fiéis, ministério dos presbíteros e ministérios batismais, participação de todos na vida da Igreja, lugar dos leigos, especialmente das mulheres na Igreja, governo eclesial e exercício da autoridade na Igreja, esta obra pretende, em continuidade com a reflexão iniciada pelo Concílio Vaticano II, aprofundar algumas questões e enfrentar outras novas atenta sempre aos sinais dos tempos. No seu conjunto, trata-se de uma obra que presta uma justa e merecida homenagem a Pe. Antônio José de Almeida.

Pe. Almeida, como é popularmente conhecido, em seus 50 anos de ordenação presbiteral, é um teólogo amplamente conhecido e reconhecido tanto no Brasil quanto no exterior. Como um dos maiores eclesiólogos brasileiros, ele se destaca como um dos raros especialistas em ministérios na Igreja, talvez o único na América Latina, cuja atuação técnica e pastoral ilumina com profundidade a prática e a missão do presbítero. Desde os primeiros momentos da renovação do Concílio Vaticano II, ele tem se dedicado à pesquisa e à produção de inúmeros textos sobre o tema, além de oferecer assessoria a dioceses e Conferências Episcopais. Sua contribuição à recepção da eclesiologia conciliar é singular, fortalecendo a compreensão de uma Igreja comunhão, servidora, sinodal e missionária.

Nota

[1] ALMEIDA, Antônio José de (Org.). Faces e interfaces de uma Igreja sinodal. São Paulo: Mensa Verbi/ENE, 2025, 376 p. ISBN 9786580032037

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