Sinodalidade: realidade nova ou a expressão da natureza própria da Igreja?

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23 Mai 2025

"A sinodalidade em nossas paróquias não se trata de simplesmente mudar ou reformar estruturas, ou criar novas estruturas – o que seria ainda mais antissinodal."

O artigo é de Fabiano Glaeser dos Santos, presbítero da Arquidiocese de Porto Alegre, bacharel em História, doutorando em Teologia pela PUCRS..

Eis o artigo.

Desde 2021, uma palavra começou a ressoar em nossas igrejas: sínodo. O Papa Francisco convocou o Sínodo dos Bispos para refletir e aprofundar o assunto da sinodalidade na vida da Igreja: Comunhão, Participação e Missão. O Sínodo dos Bispos é uma instituição instituída em 1965 pelo Papa São Paulo VI como uma forma de exercer a colegialidade episcopal, ou seja, dos bispos participarem do governo da Igreja, aconselhando o Papa em questões pastorais. O Sínodo é convocado e presidido pelo Papa a cada três anos, aproximadamente, e trata de questões pastorais, dando alguns indicativos para a Igreja universal. Em 2021, o Papa Francisco convocou o Sínodo e escolheu como tema a sinodalidade. Mas o que é sínodo e sinodalidade.

Jesus se apresenta aos discípulos como O caminho; não um caminho qualquer, mas o melhor caminho, o maior entre todos. O perfeito caminho. Após a Ressurreição, os discípulos também apresentam a Jesus como O Caminho. No Evangelho escrito por Lucas, é onde Jesus mais se desloca, onde Ele mais caminha, porque Lucas quer mostrar que Jesus é o caminho. A catequese era chamada de caminho, porque aqueles que abraçavam a fé trilhavam um itinerário de crescimento no conhecimento de Jesus Cristo. A ideia de Caminho, caminhar, caminhada faz parte da mentalidade dos discípulos desde o início da Igreja, que sempre se compreendeu como peregrina neste mundo. Todos os membros da Igreja estão caminhando neste mundo, como comunidade de fé. Somos peregrinos. A Igreja é o Povo de Deus, reunido por Jesus Cristo e santificado pelo Espírito Santo. “A Igreja existe para testemunhar ao mundo o acontecimento decisivo da história: a Ressurreição de Jesus”. A identidade de Povo de Deus brota do Batismo, no qual Cristo nos reveste de si mesmo e nos faz renascer pelo Espírito Santo como filhos de Deus, enviados a testemunhar ao mundo que Jesus passou pelo mundo fazendo o bem e fazendo bem todas as coisas. É portanto, do Batismo que nasce a Igreja sinodal missionária.

A palavra grega para caminho é odós. Caminhar juntos = syn odós. Sínodo significa “caminhar juntos”, um ao lado do outro. A Igreja, como assembleia dos discípulos de Cristo que caminha junto, tem na sua constituição o sínodo: ou seja, caminhamos todos juntos, papa, bispos, padres, diáconos, consagrados e consagradas e leigos, cada um exercendo sua missão própria.

Nos primeiros séculos, quando surgiram as primeiras tensões, os primeiros conflitos, os líderes da igreja, os apóstolos, depois os bispos, reuniam-se e, juntos, decidiam a questão, não como um parlamento, onde a maioria de votos simplesmente decide, mas escutavam o Espírito Santo e, juntos, chegavam a um consenso. A essas reuniões foi o dado nome de sínodo. A palavra grega sínodo tem uma correspondente latina: concílio. Com o tempo, houve a diferenciação: concílio, reunião universal dos bispos, sínodo uma assembleia local ou regional.

Nos últimos anos, os teólogos e pastoralistas têm utilizado o termo sinodalidade para enfatizar essa dimensão da Igreja que caminha junto. A sinodalidade faz parte da natureza da Igreja, e o Papa Francisco tem chamado a atenção para isso desde o primeiro dia do seu pontificado. Então, o Papa não está tentando mudar a natureza da Igreja, como afirmam alguns; está apenas enfatizando a dimensão sinodal da Igreja.

O Papa introduziu uma novidade nos Sínodos dos Bispos: a consulta ao Povo de Deus, onde todos são consultados, mesmo os que não participam de nenhum movimento ou pastoral, e possibilidade da participação de leigos nas assembleias sinodais.

Como viver a sinodalidade na prática, nas nossas paróquias?

Em primeiro lugar, cada membro do Povo de Deus tem que tomar consciência de que é batizado, e, portanto, filho de Deus e membro da Igreja. A Igreja somos nós. Como membro da Igreja, somos responsáveis pela Igreja, somos responsáveis pela paróquia, pelo vicariato, pela Arquidiocese. Não é problema do padre ou do bispo, é meu problema.

A sinodalidade em nossas paróquias não se trata de simplesmente mudar ou reformar estruturas, ou criar novas estruturas – o que seria ainda mais antissinodal. Antes de reforma nas estruturas é preciso uma reforma na mentalidade. Mas, como não podemos fugir completamente das estruturas, em todas as paróquias dois órgãos são fundamentais para o exercício da sinodalidade: o Conselho para Assuntos Econômicos (CAE), e o Conselho de Pastoral Paroquial (CPP). Devemos definitivamente mudar as nomenclaturas: as paróquias e suas comunidades não têm diretoria, nem coordenação, mas Conselho Econômico e Conselho Pastoral. São órgãos de colegialidade, de exercício da sinodalidade, onde cada paroquiano pode exercer a sua pertença e responsabilidade pela vida e missão da paróquia, tanto no âmbito pastoral quanto no âmbito econômico.

Mas não somente o CPP e o CAE são estruturas de sinodalidade; aliás, a sinodalidade não é uma estrutura, mas uma espiritualidade, que deve permear todas as pastorais, todos os movimentos e pastorais devem ser sinodais. A sinodalidade não se opõe à hierarquia da Igreja; sinodalidade não é sinônimo de democracia. Sinodalidade é uma espiritualidade, é uma consciência de que somos Igreja peregrina de Deus, que caminha junto rumo à terra prometida, que é o Reino de Deus no Céu.

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