“O Irã está perto de um teste, não de uma bomba. Mas Bibi sonhava com um confronto”. Entrevista com Avner Cohen, especialista nuclear

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23 Junho 2025

Estudioso do programa iraniano, Cohen se manifesta: "Ninguém podia ter certeza, ainda havia espaço para negociação".

A entrevista é de Francesca Caferri, publicada por La Repubblica, 23-06-2025.

Avner Cohen, professor do Instituto Middlebury de Estudos Internacionais em Monterey, Califórnia, é uma figura proeminente na comunidade acadêmica internacional, conhecido por seus estudos sobre não proliferação, mas especialmente sobre o programa nuclear de Israel, que ele examinou em textos importantes como Israel e a bomba e O segredo mais mal guardado do mundo: Israel e a aposta nuclear.

Eis a entrevista.

Que danos o ataque a Fordow poderia ter causado ?

Em teoria, as armas usadas pelos americanos têm a capacidade de penetrar dezenas de metros na montanha. Mas não podemos dizer quais consequências elas realmente tiveram em Fordow, bem como em Natanz e Isfahan. Os únicos que podem realmente avaliar isso no momento são os iranianos, ninguém mais. Incluindo Trump e Netanyahu.

Você estudou o programa nuclear iraniano durante anos. Ele realmente chegou ao ponto de ser uma ameaça existencial para Israel?

Também aqui não podemos dar respostas definitivas: e acredito que até mesmo a CIA e o Mossad têm suas limitações. A opinião da maioria dos especialistas, incluindo os da inteligência, é que Khamenei não havia dado a ordem para acelerar e equipar o país com uma bomba. Mas também – e digo isso com base na análise de muitas declarações lidas em jornais iranianos – algo de fato aconteceu no programa nuclear iraniano: cientistas, nos últimos meses, o aproximaram do ponto de permitir a realização de um teste ou demonstração nuclear. Quão perto? Não sei. Mas é importante que vocês entendam: não estou dizendo que eles estavam perto de ter uma bomba. Eles estavam perto de ter a capacidade de realizar um teste nuclear: e aqui também não significa que estivessem prestes a fazê-lo.

Isso é suficiente para falar de uma ameaça existencial?

É uma questão de julgamento. No meu julgamento pessoal, nem tanto. No julgamento de Netanyahu e até mesmo de Trump, muito. Eu, assim como outros especialistas e membros da comunidade de inteligência, acredito que deveríamos ter esgotado todos os esforços diplomáticos antes de partir para uma ação militar. Netanyahu não pensa assim: mas também é preciso dizer que, nesta história, o primeiro-ministro também é movido por razões pessoais. O Irã tem sido seu grande projeto por quase duas décadas, e com este ataque o primeiro-ministro também visa salvar sua liderança, redesenhar completamente seu legado político. Portanto, sua pergunta não tem uma resposta unívoca: é uma questão de interpretação.

Acredita que o Irã é capaz de usar o material que já armazenou como uma arma contra Israel neste momento?

Não. E por dois motivos: o primeiro é que é verdade que o Irã possui uma grande quantidade de urânio enriquecido, quase meia tonelada. E essa parte, 275 quilos, está enriquecida a 60%, enquanto a outra está enriquecida a 20%: mas para usá-la como arma, seria necessário elevar o enriquecimento a 90%. E isso me leva ao segundo motivo: as usinas de enriquecimento foram danificadas pela campanha israelense e não conseguem operar como antes. Transformar esse urânio em uma arma, inseri-lo em dispositivos explosivos ou carregá-lo em um navio... é tudo muito difícil: está além das possibilidades do Irã neste momento, na minha opinião.

Israel também possui uma bomba nuclear, embora não o admita oficialmente: para citar o título de um de seus livros, é o segredo mais mal guardado do mundo. Poderia usá-la?

Não, absolutamente não. Há um senso de responsabilidade e cautela em torno do programa nuclear israelense que remonta a anos, décadas. É algo enraizado e completamente separado da política, portanto, não pode ser tocado: nem mesmo por Netanyahu.

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