21 Março 2025
"Que demônio é Trump! Ele adora o telefone. Mesmo em seu primeiro mandato, ele ligava para todos, de Putin, com quem ele tinha, como costuma se dizer, 'um bom relacionamento', até Merkel e Hollande, o incolor inquilino do Eliseu. Assim que retornou à Casa Branca, ele imediatamente voltou a teclar números, até mesmo de casa, da Casa Branca kitsch da Flórida: um dos primeiros a tocar foi um antigo número do homem que, nesse meio tempo, se tornou o criminoso, o reprovado, o homem procurado de Moscou", escreve Domenico Quirico, jornalista italiano, em artigo publicado por La Stampa, 18-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Será que o telefonema de hoje entre Trump e Putin se tornará tão famoso quanto aquele entre Churchill e o presidente dos EUA, Roosevelt, em 07-12-1941?
“O que são essas notícias sobre o Japão? São verdadeiras?”
A resposta que chegou em voz rouca dos Estados Unidos está nos livros de história: “Eles nos atacaram em Pearl Harbour. Agora estamos no mesmo barco”.
Naquela época, os dois líderes se falavam por meio de um complexo maquinário inventado pela American Bell que randomizava a transmissão da voz na saída e usava um mecanismo semelhante na chegada que a recompunha. A guerra russo-ucraniana fez o mundo retroceder meio século.
Aquela de hoje é a primeira ligação telefônica da nova guerra fria, que está sempre prestes a se tornar morna.
Os dois Grandes estão conversando para encontrar uma saída que restabeleça o equilíbrio no mundo, eliminando entre si “detalhes” perigosos e incômodos. Os outros, os Pequenos, a Ucrânia, infelizmente, e a Europa do querer e não poder, ficam olhando torcendo que as decisões não sejam pesadas demais para eles.
Nos anos de Kennedy e Kruschev, se teria contado com o recurso cenográfico do “telefone vermelho”. Nunca existiu. Porque, na realidade, se usava um método de transmissão de mensagens escritas entre Washington e Moscou: pensava-se que uma conversa direta poderia determinar mal-entendidos perigosos, mas compensava o método tradicional de decifrar mensagens codificadas, uma operação que exigia horas enquanto as bombas já estavam em posição em seus bunkers.
Que demônio é Trump! Ele adora o telefone. Mesmo em seu primeiro mandato, ele ligava para todos, de Putin, com quem ele tinha, como costuma se dizer, “um bom relacionamento”, até Merkel e Hollande, o incolor inquilino do Eliseu. Assim que retornou à Casa Branca, ele imediatamente voltou a teclar números, até mesmo de casa, da Casa Branca kitsch da Flórida: um dos primeiros a tocar foi um antigo número do homem que, nesse meio tempo, se tornou o criminoso, o reprovado, o homem procurado de Moscou. O telefone é perfeito para sua ideia de diplomacia: nada de intermediários, os profissionais do Deep State em quem ele não confia porque eles conspiram, segundo ele, com o inimigo democrata. E, além disso, se adequa aos seus métodos truculentos, feitos de blefes, provocações, ameaças e esquisitices.
Fascinante essa reunião de cúpula telefônica versão guerra fria terceiro milênio. De um lado, estamos nas mãos de um necromante, alguém elabora o impulso egocrático e o transforma em um conto de fadas político (Os EUA modelo Teddy Roosevelt duros, imperiais contra as corroídas democracias decadentes do velho mundo).
Ao aparelho está um empresário sem escrúpulos, estamos todos em suas mãos, vamos confessar, porque em três anos de massacre na realidade nós só perdemos tempo. Era preciso alguém que gritasse grosseiramente a nossa bancarrota de belicistas pávidos, hipócritas e prejudiciais especialmente para os nossos amigos.
Será que até mesmo com o ex-KGB, Trump exibirá alguma de suas exuberantes vulgaridades?
Mas ele é, infelizmente, o demiurgo, o único que pode ser encontrado na paisagem desfeita de líderes apresentáveis, mas medíocres. Todos falharam miseravelmente diante do duro teste decisivo da guerra, de Johnson a Macron, de Draghi a Scholz. Ele dissolveu as ideologias ocidentais, diluindo-as em um realismo monocórdico e brutalmente elementar baseado na força.
Ele desenhou o problema ucraniano em conformidade com suas medidas. Reconheçamos sua façanha. Sejamos gratos a ele, pelo menos dissipa as hipocrisias anestésicas.
No entanto, no telefone, lhe responde um astuto jogador de xadrez, com um estilo oposto, embora entenda muito bem a linguagem da força, pois a absorveu desde criança, soletrando nos livros da URSS.
Nesse aspecto, ele é um satanás. É alguém que ama as penumbras, realista implacável, que não tem nada a ver com as toscas lengalengas de seus caudatários, é alguém que reveste o narcisismo com uniformes históricos e reserva as poses turvas a momentos-chave. Há três anos que os que “wishful thinkers” o veem prestes a cair. Mas sanções comerciais e éticas não o perturbam em nada. Pelo contrário: hoje recolhe o sucesso com o qual realmente se importa, não meia dúzia de cabanas a mais na Ucrânia, mas o fato de voltar a conversar de novo com o outro senhor do mundo, como iguais.
Enquanto aqueles que por três anos o difamaram como um bandido sanguinário ficam olhando, plateia atônita, consternada e impotente.
Improváveis 'apaziguamentos' explícitos ou ‘aut aut’ cenográficos são prejudiciais para os negócios e as trocas que os dois certamente já delinearam. Sobre a posse da Crimeia e do Donbass e sobre o não à Ucrânia na OTAN (por sinal, nesse interim, acabou, como é lógico, sendo um apêndice do Pentágono) não restam as mínimas dúvidas.
O crime existiu, mas o tempo sumiu com ele; ou não existe mais a norma incriminadora porque Trump a revogou.
Os procedimentos labirínticos para a trégua serão assunto para os sherpas diplomáticos. Além disso, Putin tem interesse em ganhar tempo. Não porque ele não queira chegar a um acordo como esbravejam senhoras bálticas. O fim das hostilidades também lhe convém, porque a Santa Rússia poderia estar cansada de ser santa. Mesmo assim, quanto mais tempo passar antes do cessar-fogo, mais suas tropas ganharão terreno.
Isso já aconteceu muitas vezes na história dos conflitos, antes de baixar a grade do “uti possidetis”, ou seja, do ponto em que, em um determinado momento se decidirá que as armas se calem, é necessário avançar o máximo possível no Donbass e reconquistar todo o Kursk.
Um exemplo. Em 1973, quando os tanques de Sharon derrubaram o front passando pelo Canal de Suez, os israelenses tentaram adiar a hora X da trégua com a ajuda dos estadunidenses.
Era Sadat, como Zelensky, que precisava do cessar-fogo imediatamente, porque suas tropas, que de forma surpreendente haviam conquistado uma faixa do Sinai, estavam cercadas e sem suprimentos e corriam o risco de ter que se render.
Como o método de Trump é sempre aqueles das ‘mirabilia’ nas mangas, vocês verão que o próximo passo será uma cúpula ad personam.