“O IPCC corre o risco de não divulgar os seus próximos relatórios até 2028”. Entrevista com Kari de Pryck

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06 Março 2025

As negociações destinadas a definir o calendário de publicação do IPCC fracassaram na China. Entre a obstrução dos defensores das energias fósseis e as questões de inclusão, a cientista política Kari de Pryck detalha as razões deste bloqueio.

A entrevista é de Lorène Lavocat, publicada por Reporterre, 04-03-2025. A tradução é do Cepat.

Kari de Pryck tem doutorado em Ciências Políticas e está vinculada à Universidade de Genebra. Ela está interessada na governança ambiental e, em particular, na produção e influência dos conhecimentos científicos. Sem estar presente na China nos dias 01 e 02 de março, acompanhou a última reunião do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que causou decepção.

Eis a entrevista.

As negociações que deveriam definir o calendário do IPCC fracassaram, domingo, na China. O que aconteceu?

Na China, reuniram-se os representantes dos governos membros do IPCC – e não os cientistas. São eles que definem o cronograma, os temas e os planos dos futuros relatórios. Um dos desafios desta reunião foi, portanto, chegar a um acordo sobre um prazo para a divulgação de futuros relatórios sobre o estado do clima.

Existe o risco de o IPCC não conseguir divulgar os seus documentos até 2028. No entanto, em 2028, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (UNCCC) publicará o seu tão aguardado segundo balanço global, ou seja, o balanço das ações realizadas pelos Estados entre 2023 e 2028.

No âmbito do IPCC, alguns países querem que os cientistas acelerem o seu trabalho para cumprir o prazo de 2028; outros países se opõem. Esta questão tem sido debatida há vários meses: desta vez, mais uma vez, não conseguiram chegar a um acordo.

Foram os países europeus e os países mais vulneráveis que defenderam a publicação dos próximos relatórios do IPCC antes de 2028. Por que é que isto é tão importante para eles?

Um balanço global da UNCAC desempenha um papel muito importante nas negociações climáticas. É sobre esta base que os governos devem rever os seus compromissos e estratégias para tentar respeitar os limiares de +2°C e +1,5°C de aquecimento.

Um certo número de países gostaria que o trabalho do IPCC fosse publicado com suficiente antecedência para contribuir para o balanço global. Com outras palavras, esperam que os relatórios do IPCC estimulem todos os países a aumentar as suas ambições climáticas.

Foi o que aconteceu em 2023. As publicações do IPCC reforçaram o primeiro balanço global da UNCAC, este último conduzindo ao texto que propunha a saída das energias fósseis na COP28 em Dubai.

Por outro lado, os países mais refratários gostariam de adiar tanto quanto possível o próximo lançamento do trabalho do IPCC. Como podemos explicar tal bloqueio?

Existem duas razões principais. Por um lado, para certos Estados dependentes das energias fósseis – como a Arábia Saudita – trata-se de obstruir: em suma, de garantir que os conhecimentos mais recentes não estejam todos disponíveis no momento das negociações internacionais.

Mas para outros países – Índia e China, por exemplo – há também uma questão de inclusão. Na verdade, é mais difícil para os pesquisadores dos países do Sul contribuir para os trabalhos do IPCC – porque não têm recursos financeiros, não têm necessariamente acesso às principais revistas científicas...

Quando um pesquisador do Norte é designado para participar do IPCC, poderá contar com uma equipe para auxiliá-lo; isto é mais difícil para os pesquisadores do Sul. Em suma, a produção de conhecimento sobre o clima requer mais tempo para eles do que para os pesquisadores dos países do Norte.

Portanto, acelerar o calendário significa colocar mais pressão sobre estes pesquisadores e correr o risco de não conseguirem contribuir. Este é um problema recorrente dentro da organização, com impactos, in fine, em termos de dados científicos: por exemplo, temos menos conhecimento sobre os impactos das mudanças climáticas em determinadas áreas de África.

Para sair desta situação, o IPCC precisaria apoiar mais estes pesquisadores, financiando melhor a sua participação, proporcionando-lhes o acesso a revistas importantes. Dito isto, mesmo sem calendário, o trabalho científico pode continuar, o processo não está bloqueado.

A China acolheu esta reunião, mas também atrasou o calendário. Qual é o seu papel exato nessas negociações?

Foi a primeira vez que a China organizou esta reunião. Isto pode ser visto como um sinal forte no contexto da saída dos Estados Unidos do IPCC. A China mostra assim que pretende continuar o seu compromisso com as questões de cooperação científica.

Mas por outro lado, o país permanece na sua posição histórica, bastante crítico e desconfiado em relação à organização intergovernamental.

A reunião na China decorreu sem os especialistas e os representantes dos Estados Unidos, na linha da política cética em matéria de clima adotada por Trump. Que impacto poderá ter a saída dos Estados Unidos dos trabalhos do IPCC?

As consequências podem ser significativas. Os Estados Unidos desempenharam um papel fundamental na criação do IPCC e são um grande colaborador, embora recentemente – durante o primeiro mandato de Donald Trump – já tivessem reduzido o seu financiamento.

Deverá também haver impacto em termos da participação de pesquisadores estadunidenses. Kate Calvin, cientista da NASA e copresidente do Grupo de Trabalho 3 do IPCC, não foi autorizada a viajar para a China e já não conta com o apoio financeiro da sua instituição para produzir o relatório.

Se os Estados Unidos já não estiverem presentes, isso poderá pesar no trabalho do IPCC, sabendo que existe um grande número de especialistas disponíveis no Canadá, na Europa e em vários países do mundo inteiro. O único ponto positivo é que os Estados Unidos também são uma força obstrutiva nas discussões; também podemos imaginar que a sua retirada reduzirá determinadas tensões dentro da organização;

Em geral, assistimos a um questionamento dos conhecimentos científicos sobre as mudanças climáticas. Poderá o IPCC sobreviver a esta ofensiva anticiência?

Estamos de fato assistindo a uma onda de ceticismo climático, com uma volta às controvérsias dos anos 2000 – questionamento dos modelos climáticos, crítica aos dados científicos. Este é um problema real. O fato de o presidente dos Estados Unidos se posicionar como um cético climático dá importância a um discurso que durante muito tempo deixou de ser considerado legítimo e sério.

É muito possível que isto afete o trabalho do IPCC. Os pesquisadores colaboradores poderão receber mais críticas, questionamentos e pressões. Tudo dependerá do debate público, do posicionamento da mídia e dos dirigentes.

Os próximos trabalhos do IPCC irão focar muito em soluções, mas estes assuntos podem ser muito delicados: a questão da mudança de comportamento – comer menos carne, por exemplo – é explosiva. Como o IPCC irá encontrar um equilíbrio e fornecer soluções sem parecer uma organização que faz prescrições? Este é o desafio dos próximos anos.

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