28 Fevereiro 2025
Em estudo com 130 voluntários conduzido na UFSCar, foi observada – até seis semanas após a infecção – uma diminuição drástica na variabilidade da frequência cardíaca, ou seja, na capacidade do coração de se adaptar às demandas ambientais e fisiológicas.
A reportagem é de Maria Fernanda Ziegler, publicada por Agência FAPESP, 27-02-2025.
Pessoas que tiveram COVID-19, incluindo quadros leves, tendem a apresentar no curto e médio prazo desequilíbrios no sistema cardiovascular, precisando buscar tratamento de reabilitação. Foi o que constatou um estudo com 130 voluntários conduzido na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) com apoio da FAPESP.
Segundo dados divulgados na revista Scientific Reports, os participantes testados até seis semanas após a infecção apresentaram uma diminuição drástica na variabilidade da frequência cardíaca (VFC), ou seja, na variação do tempo entre cada batimento do coração. Já aqueles testados nos períodos entre dois e seis meses ou entre sete e 12 meses após a infecção mostraram melhoras paulatinas, mas sem chegar ao patamar do grupo-controle (composto por pessoas não infectadas pelo SARS-CoV-2).
A VFC é considerada um bom indicador da saúde, pois sinaliza a capacidade do coração de se adaptar às demandas fisiológicas. Dessa forma, quanto menor for o índice, pior os ajustes da frequência cardíaca e a adaptação a estressores ambientais (situações de fuga, angústia e medo) e fisiológicos (inflamação sistêmica, característica da COVID-19, por exemplo).
“Este estudo reforça a necessidade de programas de reabilitação até para pessoas que tiveram COVID-19 leve e não foram hospitalizadas. Os participantes tinham em média 40 anos de idade e alguns apresentavam fatores de risco para doença cardiovascular, como colesterol elevado, tabagismo, diabetes, obesidade e hipertensão arterial. Aparentemente, a COVID-19 potencializou esse desequilíbrio cardiovascular e, por consequência, aumentou o risco de doenças”, conta Audrey Borghi Silva, coordenadora do Laboratório de Fisioterapia Cardiopulmonar (Lacap) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
O impacto da COVID-19 no controle autonômico cardíaco tem sido demonstrado em diversos estudos. “Nossa pesquisa contribui para a confirmação desse impacto e demonstra que ele pode acontecer também em indivíduos jovens ou de meia-idade que tiveram COVID-19 leve e não precisaram ser hospitalizados”, destaca Aldair Darlan Santos-de-Araújo, pesquisador da UFSCar e primeiro autor do artigo.
Descompasso
Além da menor variabilidade da frequência cardíaca, os pesquisadores observaram nos voluntários infectados pelo SARS-CoV-2 uma predominância do sistema nervoso simpático sobre o parassimpático. Estes são as duas faces do sistema nervoso autônomo, que controla as funções involuntárias do organismo, como a pressão arterial e a temperatura corporal. Enquanto o sistema parassimpático, entre outras tarefas, faz o coração desacelerar quando necessário, cabe ao simpático aumentar a frequência cardíaca em situações que envolvam perigo e medo, por exemplo.
“O bom funcionamento cardiovascular exige um equilíbrio entre esses dois mecanismos e, o que observamos, é que o impacto negativo da infecção pela COVID-19 nesses indivíduos provocou um desbalanço no sistema nervoso autonômico”, conta Santos-de-Araújo. “O padrão observado – de redução da variabilidade da frequência cardíaca e predominância do sistema nervoso simpático [ou redução da atividade parassimpática] – indica não apenas diminuição da modulação autonômica global, mas também sugere uma maior probabilidade de desfechos cardiovasculares desfavoráveis.”
Além disso, destacam os pesquisadores, os resultados inferem uma possível fase de transição da recuperação autonômica cardíaca, uma vez que os indivíduos avaliados no grupo com maior tempo de recuperação desde o diagnóstico apresentavam um comportamento melhor desse equilíbrio simpático-parassimpático.
“Esse efeito transitório pode ser observado com mais clareza no grupo avaliado mais precocemente [até seis semanas após a infecção], que apresentava pior variabilidade de frequência cardíaca, melhorando progressivamente com o tempo, contudo, não atingindo os níveis observados no grupo de participantes não infectados”, explica Santos-de-Araújo.
O estudo mostrou ainda que a dispneia (falta de ar) foi o sintoma mais comum entre os indivíduos com pior modulação autonômica cardíaca, mas não foi o único. “No grupo dos indivíduos monitorados no período mais próximo da infecção observamos maior percentual de tosse [47%], fadiga [50%], cefaleia [56%], ageusia [perda do paladar, 53%], ansiedade [62%], coriza [50%] e maior prevalência de indivíduos não vacinados [44%]”, conta Santos-de-Araújo.
Leia mais
- Covid, o perigo do esquecimento. Artigo de Sergio Harari
- Aprendemos a lição da Covid-19? Artigo de Leonardo Boff
- Três lições da pandemia: diminuir a agressão ao meio ambiente, combater as desigualdades e criar um sistema de saúde público universal. Entrevista especial com Gonzalo Vecina Neto
- Brasil chega a 700 mil mortes da Covid-19. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
- Brasil já tem quase 10 milhões de casos e mais de 50 mil mortes da covid-19 em 2022. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
- Artigo científico quantifica a influência bolsonarista nas mortes por covid-19
- 'Mortes por covid têm a digital do presidente'
- O número de mortes por covid-19 é quatro vezes maior nos países pobres
- Mortalidade da covid-19 no Brasil pode superar a da Gripe Espanhola, alerta sanitarista
- Covid: Brasil poderia ter salvado 47 mil idosos e idosas com vacinação mais ágil
- Covid: como pode ser o quarto ano da pandemia
- “Temos que colocar a saúde no eixo civilizatório”. Entrevista especial com Gonzalo Vecina Neto
- Brasil pode chegar a 600 mil mortes por covid em agosto, alerta Gonzalo Vecina
- Virada sobre as vacinas. Biden dá a partida para a liberação das patentes
- Joe Biden move o mundo das vacinas: “Digo sim à suspensão das patentes”
- “A Laudato Si’ é uma contribuição de extraordinária importância para o desenvolvimento, em escala planetária, de uma consciência ecológica”. Entrevista com Michel Löwy
- “Os efeitos do desastre ecológico estão cada vez mais sendo sentidos”. Entrevista com Herve Kempf
- Pós-Bolsonaro, um plano de combate ao desmatamento pode dar certo?
- A Terra tem seus limites, lembra a Temporada de Criação 2020
- Existem as elites que enriqueceram nos últimos 40 anos e há o resto da população que não aproveita nada das riquezas. Palestra com Gaël Giraud no IHU