21 Novembro 2024
"Giuseppe de Rita sempre nos alerta sobre os dados, que estão sujeitos a diferentes interpretações, e nos pede um espírito crítico ao cruzá-los. Portanto, nos empenhamos em uma leitura crítica. Por exemplo: se o levantamento revela uma necessidade de espiritualidade, deve ser colocado em um oceano de indiferença e em uma expansão do niilismo. A espiritualidade cristã não é essa atenção generalizada em se sentir bem consigo mesmo", escreve o monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado em La Repubblica, 18-11-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
O sínodo da Igreja universal terminou e o sínodo da Igreja italiana começou com uma assembleia em Roma de delegados das dioceses. Mas a celebração desses eventos passou despercebida.
Um estudo do Censis, “Italianos, fé e a Igreja”, despertou mais interesse, confirmando o que está sendo repetido: continua a diminuição da religião católica e da fé, da frequência aos ritos religiosos, e a igreja não tem mais autoridade. Alguns presbíteros são vistos com admiração e simpatia, mas não como pastores da comunidade.
A única voz com autoridade continua sendo a do Papa Francisco, que, no entanto, certamente não é ouvido quando se trata da ética cristã do compartilhamento dos bens com os pobres, o acolhimento dos migrantes e a ética sexual. Giuseppe de Rita sempre nos alerta sobre os dados, que estão sujeitos a diferentes interpretações, e nos pede um espírito crítico ao cruzá-los.
Portanto, nos empenhamos em uma leitura crítica. Por exemplo: se o levantamento revela uma necessidade de espiritualidade, deve ser colocado em um oceano de indiferença e em uma expansão do niilismo. A espiritualidade cristã não é essa atenção generalizada em se sentir bem consigo mesmo.
Hoje há uma necessidade de vida interior que é mais do que compreensível no contexto da expropriação da própria alma devido à alienação dominante, mas não é espiritualidade cristã. É uma espiritualidade do tipo “faça você mesmo”, incentivada por especialistas do diálogo entre as religiões em direção a um sincretismo que desfigura o seguimento de Jesus de Nazaré. E sim, muitos dizem que rezam porque estão passando por necessidades: desde sempre, e Lucrécio já o dizia, o medo cria os deuses, mas não é autêntica oração cristã.
Com esses esclarecimentos, não quero criticar ninguém, mas assumir uma posição clara diante de tantas ambiguidades. Certamente, em minha infância, se rezava mais: quando vinha uma tempestade para esconjurar o granizo, quando havia seca para invocar a chuva. Mas será que havia mais fé? A oração é um mistério que somente Deus conhece.
Agora está em curso o sínodo italiano com um instrumento de trabalho que é uma belíssima síntese dos vários planos pastorais dos últimos trinta anos: não contém nenhuma profecia.
Uma verdadeira profecia seria, antes, a proposta de uma fé mais essencial e menos “eclesializada”, uma fé que tenha apenas Jesus Cristo em seu centro. Outra proposta profética seria tentar viver a sinodalidade nas igrejas particulares por meio da construção da fraternidade. A Igreja é uma fraternidade ou não é igreja, mas apenas uma cena, uma assembleia religiosa.
E como a pesquisa revela que ainda está presente uma esperança na vida após a morte, seria hora de a Igreja pregar as boas novas das realidades últimas, os novíssimos: morte, juízo, entrada ou exclusão do Reino de Deus.
Quando não se crê no julgamento de Deus, não se crê ter cometido o mal, o pecado e nos justificamos. Essa também seria uma boa notícia, há muito pregada como uma má notícia, por ser a última ação de um Deus perverso.
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