Papa despede-se da Ásia com uma garantia: “Todas as religiões são um caminho para Deus”

O Papa na despedida dos jovens que participaram no encontro inter-religioso desta sexta-feira, em Singapura (Foto: Vatican Media)

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16 Setembro 2024

Chegou ao fim aquela que foi a maior viagem apostólica de Francisco. E por último, mas não menos importante, o Papa participou num encontro inter-religioso com centenas de jovens. Como já é habitual nele, deixou de lado o discurso que havia preparado. E aquilo que disse neste seu último compromisso por terras asiáticas poderá gerar controvérsia entre os católicos mais conservadores: “todas as religiões são um caminho para nos aproximarmos de Deus”, assegurou.

A reportagem é de Clara Raimundo, publicada por 7Margens, 13-09-2024.

“São como línguas diferentes, diversos idiomas, para chegarmos lá. Mas Deus é Deus para todos. E porque Deus é Deus para todos, todos nós somos filhos de Deus”, afirmou o Papa perante os olhares atentos e concordantes de cerca de 600 jovens de mais de 50 escolas e organizações religiosas de Singapura, o estado com maior diversidade religiosa do mundo e onde os cristãos correspondem a 18% da população.

Depois de ter escutado os testemunhos de um jovem hindu, uma jovem sikh e uma católica – que falaram de temas como os frutos e os desafios do diálogo inter-religioso, as guerras, ou o uso da inteligência artificialFrancisco quis ter com todos um diálogo espontâneo, feito de perguntas e respostas, e reagindo às realidades por eles apresentadas.

“Se vocês começarem a discutir: ‘a minha religião é mais importante que a tua, a minha é verdadeira e a tua não’, aonde é que isso nos vai levar?”, questionou o Papa. “Só há um Deus, e as nossas religiões são linguagens, caminhos para chegar a Deus. Uns sikhs, outros muçulmanos, outros hindus, outros cristãos, são caminhos diferentes. Entendido?”, insistiu, enquanto muitos jovens acenavam com a cabeça em sinal afirmativo e aplaudiam, entusiasmados.

Mas ao afirmar algo semelhante numa reunião inter-religiosa durante a sua viagem ao Cazaquistão em 2022, Francisco não foi poupado nas críticas. Athanasius Schneider – bispo auxiliar da arquidiocese de Maria Santíssima de Astana e secretário-geral da Conferência dos Bispos Católicos do Cazaquistão – alertou que aquele encontro parecia criar a ideia de existir um “supermercado de religiões”. Afirmou então o bispo Schneider: “Não somos uma das muitas religiões, somos a única religião verdadeira na qual Deus ordenou que todas as pessoas acreditassem”.

A julgar pelo seu discurso improvisado desta sexta-feira, no entanto, o Papa não se deixou intimidar por tal reação. E afirmou que uma das coisas que mais admira nos jovens é precisamente a capacidade de se envolverem no diálogo inter-religioso, reconhecendo que “isso exige coragem”.

Coragem essa que é típica da juventude, continuou o Papa. “Mas a juventude”, alertou, “deve tomar cuidado para não cair nas ‘críticas de sofá’”. A crítica, explicou Francisco, deve ser construtiva; caso contrário, torna-se destrutiva, sem abrir caminho para o novo. É preciso ter a coragem de criticar e de se deixar ser criticado pelos outros, e “este é o diálogo sincero entre os jovens”.

O Papa alertou então para o fenômeno do bullying que, seja verbal, seja físico, “é sempre uma agressão”. E provoca sofrimento particularmente em quem é mais frágil, como as crianças com deficiência: “assim como temos as nossas próprias deficiências, devemos respeitar as deficiências dos outros. Isso é importante. Por que é que eu digo isto? Porque ultrapassar estas coisas ajuda àquilo que vós fazeis, ao diálogo inter-religioso. O diálogo inter-religioso constrói-se com o respeito pelos outros. E isso é muito importante”.

Por fim, recordou que “em todas as ditaduras da história, a primeira coisa que fizeram foi retirar o diálogo”, deixando aos jovens o desafio de “fazer todo o possível para manter uma atitude corajosa e promover um ambiente em que possam entrar em diálogo, porque o diálogo inter-religioso é algo que cria um caminho”. E “se vocês dialogarem como jovens”, concluiu, “continuarão a dialogar como adultos, como cidadãos, como políticos”.

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