Para cada criatura. Artigo de Anna Foa

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09 Mai 2024

"Um dos temas desse versículo do Evangelho de Marcos é o da evangelização. “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura", fala Cristo aos apóstolos antes de ascender ao céu. E novamente no versículo 20: “E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes”. A ênfase está em todas as partes. Como outras passagens dos Evangelhos e dos Atos dos Apóstolos, o versículo alude ao fato de que o mundo inteiro estará sujeito à difusão da Palavra de Deus, que o mundo inteiro a conhecerá", escreve Anna Foa, historiadora, escritora, intelectual da religião judaica, em artigo publicado por L'Osservatore Romano, 02-04-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Um dos temas desse versículo do Evangelho de Marcos é o da evangelização. “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura", fala Cristo aos apóstolos antes de ascender ao céu. E novamente no versículo 20: “E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes”. A ênfase está em todas as partes. Como outras passagens dos Evangelhos e dos Atos dos Apóstolos, o versículo alude ao fato de que o mundo inteiro estará sujeito à difusão da Palavra de Deus, que o mundo inteiro a conhecerá.

O problema surge quando de repente, no século XVI, com as descobertas geográficas, aparecem povos inteiros que dessa palavra parecem ser não inimigos, como os muçulmanos, mas totalmente desconhecedores, como os índios das Américas. O que aconteceu com a profecia tranquilizadora dos textos cristãos?

Na sua Storia d'Italia (VI, 30) Francesco Guicciardini alude ao espanto dos teólogos diante dessa descoberta: “A navegação não confundiu apenas muitas coisas afirmadas pelos escritores das coisas terrenas, mas dada, além disso, certa velhice dos intérpretes da escritura sagrada, acostumados a interpretar (...) que a fé de Cristo fosse, pela boca dos apóstolos, espalhada por todo o mundo: interpretação alheia à verdade, porque não tendo nenhuma notícia dessas terras, nem encontrando qualquer sinal ou relíquia da nossa fé, é indigno crer tanto que a fé de Cristo tenha estado por lá antes destes tempos quanto que essa vasta parte do mundo já tivesse sido descoberta ou encontrada por homens do nosso hemisfério".

O mundo cristão respondeu a essa “velhice”, de imediato, acelerando uma nova obra de evangelização que preenchesse tal inexplicável lacuna. Assim, por exemplo, justamente repetindo a primeira evangelização apostólica, doze franciscanos desembarcaram no México em 1523 para difundir o cristianismo. Ainda por cima interpretando os próprios índios como descendentes dos antigos judeus e a sua ignorância como esquecimento, não como falta de conhecimento.

Eram, os índios, na realidade os descendentes daquelas antigas tribos perdidas de Israel, cuja conversão era necessária ao Apocalipse cristão.

Assim, teria sido a antiga recusa dos judeus em reconhecer o Messias a explicar a ignorância de seus descendentes distantes, não uma falha na difusão da palavra no mundo.

O conhecido se sobrepunha ao desconhecido, os índios eram na realidade judeus e como tais não conheciam o Cristo. A ansiedade dos teólogos era apaziguada, o “em todas as partes” dos Evangelhos estava salvo e o mundo tornava-se compreensível.

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