Rússia-Kirill: desligue as vozes livres

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20 Janeiro 2024

"A sentença do tribunal eclesiástico de Moscou silenciou uma voz profética, e o patriarca designou o arquidiácono Andry Tkachyoy como novo reitor da igreja intitulada à santa Trindade de Khokhly, conhecido por seu apoio incondicional à invasão da Ucrânia", escreve Lorenzo Prezzi, teólogo italiano e padre dehoniano, em artigo publicado por Settimana News, 19-01-2024.

Eis o artigo.

Por trinta anos, Uminsky tem sido o reitor da igreja dedicada à santa Trindade de Khokhly, no centro da cidade, um local de refúgio para muitos fiéis e buscadores, motor de muitas atividades sociais e caritativas. O mesmo tribunal havia privado do sacerdócio Joann Koval. O secretário do colegiado julgador (5 arciprestes) é A. Mironov, reitor da igreja localizada dentro do prédio dos serviços secretos (FSB).

Uminsky se junta à lista dos resistentes. Seu processo desencadeou muitas reações. Já são mais de 11.000 assinaturas para uma carta aberta ao patriarca Kirill. Nela, o extraordinário trabalho evangelizador do reitor é lembrado. Seus livros, sermões, artigos reconciliam as pessoas com a fé ortodoxa. Seu trabalho social vai desde cuidar dos moribundos até os "sem-teto", dos prisioneiros ao hospício, das crianças aos "dissidentes".

"O decreto que impede o padre Alexis de celebrar privará do apoio espiritual milhares de pessoas. Para muitos fiéis, é uma verdadeira tragédia, assim como para os pequenos pacientes do hospital, centenas de prisioneiros e milhares de 'sem-teto'".

Não se enfrenta o mal em seu terreno

Em entrevista ao site Eco de Moscou, ele disse: "Com essa guerra, nenhum povo se tornará melhor, mais inteligente ou mais generoso. Nada disso". E acrescentou: "Há igrejas onde os padres tentam não falar muito sobre o espírito de luta, rezando mais pela paz do que pela vitória. Os fiéis ortodoxos deveriam procurar esses padres que entendem como cada vitória é uma vitória de Pirro. Eles compartilham as mesmas ideias, consolam os penitentes e ajudam a resolver os problemas da guerra".

Há muito tempo o padre estava na mira. Três anos atrás, a emissora de televisão do patriarcado (Spass) o havia chamado de "criminoso de batina" por ter pedido às autoridades que permitissem que os médicos visitassem o conhecido opositor Alexeij Navalny.

É conhecida sua desconfiança em relação à proximidade da Igreja com o poder putiniano. "É um problema que herdamos de Bizâncio, quando o imperador Justiniano falou da 'sinfonia' entre o poder, o estado e a Igreja. A ideia atravessou o tempo da monarquia russa, embora nunca tenha se realizado completamente. Hoje estamos em uma situação surpreendente. A Igreja está separada do Estado pela primeira vez e, teoricamente, está pela primeira vez livre em sua ação, mas é uma liberdade que ela não usa. Ela não tem experiência alguma para isso".

Poder-se-ia indicar a posição eclesiástica de Alexis Uminsky como "pós-sinfônica". "Durante uma reunião, ouvi dizer que a Igreja russa havia deixado de cumprir sua missão histórica no século XIX no país, porque deveria ter denunciado a escravidão (dos camponeses)...

Mas a Igreja não tem uma missão intra-histórica. Não deve lutar contra a escravidão, nem contra o sistema político. A Igreja não tem nenhum fim histórico e político. Ouso dizer que a Igreja não deve 'lutar' contra o mal porque falhará sempre. Talvez sejam afirmações bizarras, mas o fim da Igreja não é lutar contra o aborto, o crime, a dependência química, o casamento homossexual. Por uma razão simples: ela não 'combate' o mal, ela se 'opõe' ao mal... devemos perceber que não se resiste ao mal usando as mesmas ferramentas do mal.

Não se resiste à mentira usando a mentira, à agressão com a agressão, ao insulto com o insulto. A resistência ao mal não pode acontecer no mesmo território do mal. Lutar contra o mal em seus próprios caminhos é impossível. É 'normal' para a política, mas para a Igreja é impossível...

O fim da Igreja é Cristo e seu Reino. Por isso, rezamos pelos crentes 'Dê-lhes algo do céu, não da terra, do eterno, não do temporário, do sólido em vez do perecível'. Nossa luta contra o mal é um testemunho de vida pura, que Deus é amor e luz, que Nele não há trevas. A Igreja manifesta essa verdade, e essa verdade liberta as pessoas do mal".

A sentença do tribunal eclesiástico de Moscou silenciou uma voz profética, e o patriarca designou o arquidiácono Andry Tkachyoy como novo reitor da igreja intitulada à santa Trindade de Khokhly, conhecido por seu apoio incondicional à invasão da Ucrânia.

 

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De acordo com os cânones eclesiásticos e "com base na 25ª regra dos Santos Apóstolos, o padre Alexis Uminsky está proibido (do serviço eclesiástico) por se recusar a consentir à bênção patriarcal e ler a oração pela glória da santa Rússia durante a divina liturgia". A sentença do tribunal eclesiástico moscovita é de 13 de janeiro e força ao silêncio uma voz importante no clero russo.