Francisco e os bispos estadunidenses

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14 Novembro 2023

O cardeal Christophe Pierre é núncio apostólico nos Estados Unidos desde 2016 e, a pedido do Papa Francisco, continuará a desempenhar essa função no futuro. Ele concedeu à revista America uma entrevista exclusiva de Roma no início de outubro passado.

A reportagem é de Gerard O'Connell, publicada por America Magazine, 12-11-2023. A tradução é de Luisa Rabolini

O novo cardeal, na conversa com Gerard O'Connell, descreveu Francisco como “um homem de visão” e “um homem de oração” e como alguém “escolhido pelo Espírito Santo” para guiar a Igreja neste momento histórico.

Ele também falou de sua experiência como núncio nos Estados Unidos. O cardeal Christophe Pierre disse que ficou chocado ao saber que muitos bispos católicos americanos não sabiam que a sinodalidade se desenvolveu na América do Sul nas últimas décadas e que estão tendo dificuldade para entender do que se trata.

“Não podemos dizer que há bispos de esquerda e outros de direita. Essa é uma análise falsa". São “boas pessoas”, mas “todos estão se empenhando” para encontrar formas válidas de evangelizar neste novo momento decisivo da história e para lidar com as consequências econômicas causadas pelo escândalo dos abusos.

Uma vida complicada

Comecei a entrevista de uma hora com o cardeal Pierre na igreja de San Luigi dei Francesi, em Roma, em 2 de outubro, perguntando por informações sobre sua vida e seus 46 anos de serviço nas missões diplomáticas da Santa Sé em todo o mundo.

“Minha vida é um pouco complicada”, disse, referindo-se a ter passado 20 anos na África e 20 na América do Sul. “Cresci em Madagascar, porque o meu pai decidiu, quando eu tinha 3 anos, levar a família para aquele país. Ele era advogado e trabalhava em Madagascar. Ficamos lá por cerca de dez anos e depois voltamos para a França".

Depois de se formar na Pontifícia Academia Eclesiástica, que forma os diplomatas do Vaticano, em 1977 Pierre começou o seu serviço na missão diplomática da Santa Sé na Nova Zelândia, com subsequentes missões em Moçambique, Zimbábue, Cuba, Brasil, onde, declarou ele, aprendeu muitas coisas sobre a teologia da libertação – e em Genebra, na Suíça, como observador permanente da Santa Sé nas Nações Unidas. O Papa João Paulo II nomeou-o núncio apostólico no Haiti em 1995 e posteriormente em Uganda, em 1999.

Em 22 de março de 2007, o Papa Bento XVI nomeou o então Dom Christophe Pierre, núncio no México. Ele chegou ao país no fim da etapa da V Conferência do CELAM (Conferência Episcopal Latino-americana e Caribenha), em Aparecida, Brasil. Pierre foi recebido por Carlos Aguiar Retes, hoje cardeal-arcebispo da Cidade do México e um dos presidentes delegados do Sínodo sobre a sinodalidade.

“Ainda me lembro que quando cheguei ao aeroporto conversamos sobre Aparecida porque ele tinha acabado de voltar de lá no dia anterior. Interessava-me porque tinha um bom conhecimento da América do Sul. Eu estava naquele continente na época da teologia da libertação e muitas coisas haviam acontecido desde a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, até a minha chegada ao México”. A Conferência de Aparecida, disse, foi “uma espécie de caminho sinodal dos bispos sul-americanos. Esse é o único continente que realizou um processo sinodal semelhante”, destacou.

“Os bispos desenvolveram uma dinâmica de trabalho e de busca de soluções compartilhadas, para uma melhor evangelização, tema de que trata o Sínodo sobre a Sinodalidade. Nada mais: uma melhor evangelização. E acompanharam as pessoas nos seus sofrimentos, nas suas dificuldades e nos seus desafios”. Em Aparecida, os bispos decidiram redigir um documento para tratar “da dificuldade de transmitir a fé de uma geração a outra” num novo contexto cultural. O então cardeal Bergoglio, futuro Papa Francisco, foi eleito presidente da comissão dos redatores com 112 votos em 130. “Quando cheguei ao México em 2007, li o documento de Aparecida”, recordou o cardeal.

“Estávamos a seis anos da eleição do Papa Francisco. Eu li e disse: ‘Meu Deus, isso é uma novidade! Os bispos finalmente elaboraram um plano pastoral como resultado do seu caminho sinodal’. O fruto de Aparecida é uma nova abordagem pastoral”, afirmou. “Eu vi isso à obra no México. A Igreja muda".

Os bispos americanos e Aparecida

Ao chegar aos Estados Unidos, nove anos depois, em 2016, o Pierre disse: “Fiquei surpreso que muitos bispos não soubessem o que havia acontecido em Aparecida. Eles não sabiam que a Evangelii gaudium, o primeiro documento do Papa Francisco, tinha aí as suas raízes. Eles não tinham percebido o que havia acontecido em seu continente, na América do Sul”, observou Pierre. “Isso é muito grave, porque o que aconteceu não foi trivial. Foi o início do que vivemos hoje. Eles não sabiam que o Papa era um dos bispos de Aparecida, nem que toda a Igreja sul-americana havia feito um formidável esforço de sinodalidade”.

Em Aparecida, explicou Pierre, “os bispos afirmaram que a Igreja e a sociedade mudaram, e a transmissão da fé não ocorre através da cultura como no passado e, portanto, é preciso oferecer novas oportunidades e modos para que as pessoas possam ter um encontro pessoal com Cristo por meio de uma Igreja que se adapta à nova sociedade, a uma nova forma de ser católico. Isso requer um reajuste da abordagem pastoral, que é muito difícil de fazer porque as pessoas, como todos nós, estão presas às suas opiniões, à sua forma de pregar e de organizar”.

“Fiquei surpreso que muitos bispos não soubessem o que aconteceu em Aparecida”. “Isso é particularmente verdadeiro nos Estados Unidos, onde temos uma Igreja muito bem organizada, que funciona magnificamente há muitos anos”, afirmou o Card. Pierre. “Em 200 anos construímos fantásticas escolas, hospitais, paróquias e igrejas. Mas quase ninguém frequenta mais [a igreja]… então o Papa Francisco disse: ‘Saiam da igreja’. Mas nós ainda estamos lá dentro. Por quê?"

O Papa Francisco afirmou: “Quero uma Igreja missionária. Quero uma Igreja dos pobres que vá em direção aos pobres”. Mas o cardeal lembrou que quando chegou nos Estados Unidos como núncio em 2016, ficou “chocado” ao ouvir alguns membros da Igreja zombarem daquela afirmação e rejeitá-la como “ideia de Bergoglio”.

Pierre acrescentou: “A realidade é que por trás da visão do Papa está Aparecida. Bergoglio não é o inventor dessa abordagem. O Espírito Santo inspirou essa abordagem sinodal em Aparecida”. “Seis anos depois, Bergoglio foi eleito papa pela graça do Espírito Santo”. “É nisso que acredito. E o novo papa seguiu os passos de Aparecida”.

Você viu alguma mudança na igreja dos EUA?

Perguntei ao cardeal se ele tinha visto alguma mudança significativa na Igreja nos Estados Unidos desde que chegou em 2016. “Não tenho certeza”, respondeu. “Vejo uma mudança significativa na sociedade. O fenômeno analisado por Aparecida é real para a Igreja [também nos Estados Unidos], no sentido da dificuldade de transmissão da fé. Embora as pessoas estejam cientes disso, não tenho certeza se essa consciência é muito forte”.

Lembrou que o Papa Francisco a definiu como um grande desafio para a Igreja hoje e sublinhou: “Devemos responder a isso. Não podemos simplesmente adormecer e continuar a dizer que temos estruturas, porque a questão é: mas, funcionam?” Pierre comparou a fase anterior da evangelização nos Estados Unidos com o desafio que a Igreja deve enfrentar agora, no século XXI. A evangelização representou o início da história da Igreja na América. Os católicos eram marginalizados, mas abriram caminho lutando para realizar o sonho americano e propondo a sua fé.

Os imigrantes irlandeses, por exemplo, chegaram acompanhados de professores, freiras, padres e geraram vocações. Houve um investimento fenomenal na educação, na assistência de saúde e assim por diante, com grande número de freiras como em nenhum outro lugar do mundo. A transmissão da fé nos Estados Unidos funcionou por meio de uma espécie de consonância entre a organização da Igreja e a da sociedade... Mas as freiras desapareceram. Antigamente havia vocações e seminários em 200 localidades, mas agora os seminários estão vazios. Portanto, hoje a Igreja enfrenta novas questões e novos desafios, e um desses resulta da migração hispânica.

Migração hispânica, um desafio para a evangelização

Muitos imigrantes hispânicos que chegam hoje aos Estados Unidos são católicos, destacou o cardeal. Mas, “ao contrário dos imigrantes irlandeses de antigamente, os católicos hispânicos não vêm com os seus padres. Eles chegam como pobres. Batem à porta e são barrados porque os EUA de hoje não são mais os EUA que acolhem as pessoas, porque aqui também há a crise”. Segundo o cardeal, essa é “também uma crise de identidade: quem somos? Ainda somos o país dos imigrantes que pode lhes dar a esperança de realizar o sonho americano?”.

A Igreja nos Estados Unidos encontra-se diante do problema da evangelização dos migrantes hispânicos: “Muito está sendo feito”, admitiu. “A Igreja oferece-lhes missa, mas depois? Será que nós, como Igreja, os ajudamos a fazer a transição, por exemplo, de ser católico no México para ser católico nos Estados Unidos?”.

“Passei 20 anos na América do Sul e vi que o modo de ser católico de um mexicano é muito diferente do modo de ser católico de um irlandês em Nova York”. A sensação é diferente. Na sua opinião, o problema da evangelização é uma questão muito mais profunda do que a simples oferta da Missa e disse que valoriza o esforço feito pelo Encuentro, um processo plurianual de consulta e de construção de comunidade liderado pela Igreja Hispânica nos Estados Unidos.

Os bispos estadunidenses e o papa

Quando perguntei a ele como ele interpretava a evidente desconexão entre muitos bispos estadunidenses e o Papa Francisco, o cardeal observou: “Esse é um aspecto que precisamos aprofundar um pouco mais [para entender]”. Mas – continuou – “eu não me concentraria tanto em Francisco, porque hoje Francisco é visto por alguns como o grande pecador. Há alguns sacerdotes, religiosos e bispos que são firmemente contra Francisco, como se ele fosse o bode expiatório de todos os fracassos da Igreja ou da sociedade”.

“Estamos em uma mudança de época na Igreja”, afirmou. “As pessoas não entendem. E pode ser por isso que a maioria dos jovens sacerdotes hoje sonham em usar a batina e celebrar a missa da maneira tradicional [pré-Vaticano II]”.

“Em certo sentido, estão perdidos numa sociedade que não tem segurança, e todos nós, quando nos sentimos perdidos, procuramos alguma segurança, mas que tipo de segurança?” O cardeal lembrou que o Papa Francisco declarou: “Minha segurança é Jesus”. E acrescentou: “Não é a Igreja que me protegerá. Não é o costume."

Quanto aos católicos que se prendem à liturgia antiga, ressaltou: “Dizem que as pessoas gostam, os jovens gostam. Então por que não?" Mas acrescentou: “A liturgia é [apenas] algo de que você gosta? É um refúgio? A Igreja é um refúgio? Se vocês a consideram um refúgio, vocês se isolam." E especificou: “A Igreja é missionária. Não é um grupo de pessoas que se dão bem juntas."

Nesse contexto de Igreja missionária, o cardeal destacou a importância da sinodalidade para a renovação da Igreja nos Estados Unidos neste momento histórico. “A sinodalidade não consiste em mudar a doutrina. É um método", explicou. “O problema é que os jornalistas, mesmo nos Estados Unidos, continuam a falar de doutrinas divergentes, só falam de homossexualidade e de casamento dos padres, e assim favorecem a ambiguidade. Mas não é disso que estamos falando. Repito isso aos bispos há sete anos”. Foi difícil para ele acreditar que ainda hoje “alguém possa dizer que o Sínodo é uma caixa de Pandora”. “É claro que algumas pessoas têm uma falsa ideia de sinodalidade, mas não o Papa”.

Questionado sobre onde vê hoje sinais de esperança na Igreja nos Estados Unidos, o cardeal disse: “Acho que não podemos separar as coisas boas e más. Acho que a Igreja é assim. Não se pode dizer que há bispos de esquerda e outros de direita. Essa é uma análise falsa. Digo isso porque conheço os bispos. Estão todos se empenhando. Todos estão lutando em seus próprios âmbitos. São todos boas pessoas. Seu desejo é evangelizar. Alguns sentem de uma forma, outros de outra. E estão sobrecarregados com grandes problemas. Têm o caso dos abusos e agora os advogados estão esvaziando os cofres das suas dioceses. Muitos bispos estão falidos. Então, eles estão lutando. Não é fácil para eles.

“Por outro lado – continuou o card. Pierre – Acho que todos, de alguma forma, sentem que devem evangelizar, mas nem sempre encontram uma forma de fazê-lo. E muitas vezes estão cercados por pessoas que simplesmente dizem: ‘Faça isso, faça aquilo’”. Na sua opinião, “precisam fazer uma pausa, parar e refletir juntos. Não apenas realizar reuniões sobre a administração, mas escutar-se uns aos outros. Observar a realidade. Orar juntos, discernir e decidir”.

O senhor continuará como núncio?

Quando perguntei ao cardeal, hoje com 77 anos, se ficaria núncio por um tempo como o que passou no México, ou seja, nove anos, ele respondeu: “Não sei. O papa me pediu para continuar. Não sou jovem, sou idoso, mas ele me pediu para continuar. E não estabeleceu um limite de tempo. Então eu obedeço. Sou muito obediente ao Papa. Durante toda a minha vida fui obediente."

Pelo fato do card. Pierre ter se encontrado muitas vezes com o Papa Francisco nos últimos anos, perguntei-lhe: qual a impressão mais profunda que teve desses encontros? Sua resposta: “Ele é um homem de visão. Admiro sua visão. E é um homem de oração. Ele tem uma serenidade profunda. É o homem que o Espírito Santo quis para este tempo. Ele é o Papa que o Espírito quis para este tempo. Tenho certeza. Servi quatro papas, por isso não sou admirador de apenas um papa. Todos os papas que servi, os servi com o mesmo entusiasmo que com Francisco”.

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