Fósseis não são “ponto-chave” para presidência da COP28, revela documento

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03 Agosto 2023

Vazada ao jornal The Guardian, estratégia dos Emirados Árabes aprofunda desconfiança quanto a Sultan Al-Jaber, que chega ao Brasil nos próximos dias para Cúpula da Amazônia.

A reportagem é de Leila Salim, publicada por Observatório do Clima (OC), 01-08-2023.

“A carreira completa do Dr. Sultan (nas áreas de energia, clima e diplomacia) lhe confere a experiência necessária para construtivamente mobilizar, inovar e unir os diversos setores indispensáveis para alcançar uma ação significativa”. É assim que, segundo o jornal The Guardian, o governo dos Emirados Árabes Unidos pretende justificar a dupla posição de Sultan Al-Jaber, presidente da próxima Conferência do Clima da ONU e, ao mesmo tempo, CEO da petroleira estatal Adnoc. Nesta terça-feira (1/8), o jornal britânico publicou trechos de um documento vazado que lista “pontos sensíveis” ao governo emiradense e a estratégia de comunicação oficial para respondê-los.

Rodeado de desconfianças e criticado por conflito de interesses, Al-Jaber desembarca no Brasil na semana que vem para participar da Cúpula da Amazônia, em Belém. Nos dias 8 e 9 de agosto, o evento reunirá chefes de Estado sul-americanos para discutir o Tratado de Cooperação Amazônica. O “Dr. Sultan”, como ele mesmo se chama, encontrará uma Belém lotada (literalmente, pois já não há mais hotéis disponíveis na capital paraense) de ativistas climáticos. Nos dias que precedem a cúpula, um evento preparatório reunirá organizações da sociedade civil, universidades e centros de pesquisa em centenas de atividades autogestionadas para discutir o futuro da floresta, do clima e do planeta.

A notícia desta terça-feira não ajuda a minimizar as críticas ao presidente da próxima COP, que acontece em novembro, em Dubai. O documento, segundo o The Guardian, começa com três páginas que apresentam as “mensagens-chave da COP28” e não trazem sequer uma referência aos combustíveis fósseis. O foco está na promoção de energias renováveis — que, sozinhas, não são suficientes para alcançar a meta do Acordo de Paris e controlar o aquecimento do planeta.

O último relatório-síntese do IPCC foi enfático ao apontar que é preciso frear com urgência a produção e queima de fósseis para estabilizar o aumento da temperatura global em 1,5ºC. Como mostrou o levantamento do Energy Institute deste ano, apesar do aumento recorde nas energias renováveis em 2022, as emissões de gases de efeito estufa resultantes da queima de combustíveis fósseis continuaram subindo.

Entre fragilidades relacionadas ao clima listadas ao longo do documento, há uma referência ao “aumento da capacidade de produção [de fósseis] versus ambição climática”. Os Emirados Árabes Unidos têm um dos maiores planos de expansão da produção de petróleo e gás no mundo, como revelou o mesmo The Guardian em abril deste ano. Em sua NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada, a meta para o Acordo de Paris), falam apenas em reduzir emissões da produção utilizando “melhores tecnologias”, sem indicar intenção em reduzir o volume da produção. É o mesmo caso de outros líderes mundiais na produção de fósseis, como Estados Unidos, Canadá e Arábia Saudita e o próprio Brasil.

A única menção direta aos combustíveis fósseis no texto é o item “Os Emirados Árabes Unidos, como uma economia baseada em hidrocarbonetos (lobby de combustíveis fósseis)”, indicado também como ponto sensível. A resposta prevista a possíveis questionamentos sobre isso, em consonância com o que país apresenta em sua NDC, é dizer que o país está “ajudando a construir o sistema de energia do futuro ao reduzir a intensidade de carbono da produção de óleo e gás” — ou seja, pretende diminuir a quantidade de emissões de CO2 na produção e ignorar a poluição climática gerada pela queima desses combustíveis.

Na mesma linha, outra vulnerabilidade listada é a taxa de emissões de CO2 por habitante dos Emirados Árabes, que está entre as mais altas do mundo. A resposta, “reconhecemos que há um espaço significativo para melhorias, e é por isso que nossa liderança nos colocou no caminho para atingir a neutralidade de carbono até 2050”, é vaga. A NDC do país não indica caminho viável para zerar emissões líquidas, ao mesmo tempo, em que expande a produção de fósseis.

Além disso, o documento cita que a Adnoc não apresenta relatório de suas emissões ou um plano de sustentabilidade desde 2016. A isso, o governo pretende responder afirmando apenas que “a Adnoc está conduzindo os estudos necessários”.

A estratégia vazada indica uma liderança muito mais comprometida com a indústria fóssil do que aquela promovida por Al-Jaber duas semanas atrás, quando apresentou uma carta de intenções a diplomatas do mundo inteiro. Ali, o presidente da COP28 falava em defender corte de emissões antes de 2030, incluindo um chamado aos países para melhorarem suas NDCs, pressionar os países por financiamento climático e em reduzir os combustíveis fósseis, avançando em relação a posição apresentada no começo do ano (que se resumia justamente ao que aparece no documento interno, a redução de “emissões dos combustíveis fósseis” sem prever redução no volume da produção).

Aparentemente, há um conflito entre o que se disse ao mundo e o que se combina nos bastidores da liderança emiradense. Nos próximos dias, a sociedade civil brasileira terá uma oportunidade de perguntar pessoalmente a Al-Jaber qual das duas versões devemos esperar para a próxima COP. Aguardamos os desdobramentos.

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