Sem Igreja e sem Deus? Artigo de Andrea Lebra

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22 Julho 2023

"Uma crise que parece ser 'reflexo e consequência direta da crise da imagem de Deus' da tradição judaico-cristã (pp. XV-XVI) e que, para não ser sofrida, mas transformada em ocasião de 'oportunidades extraordinárias e surpreendentes' (p. 226), nos convida a empreender com coragem também 'caminhos espinhosos, cansativos, mas inevitáveis' (p. XVIII)", escreve Andrea Lebra, leigo católico italiano, em artigo publicado por Settimana News, 20-07-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

No título do livro publicado em abril de 2023 pela Editora Laterza, Senza Chiesa e senza Dio. Presente e futuro dell’Occidente post-cristiano (Sem Igreja e sem Deus - Presente e futuro do Ocidente pós-cristão, em tradução livre) não há o ponto de interrogação. Pareceria, portanto, que foi escrito para demonstrar mais uma vez que, em nosso Ocidente secularizado, não há mais lugar para Deus ou para a Igreja e que, portanto, o cristianismo está destinado a recolher tristemente os remos no barco, tendo encerrado sua jornada.

Na realidade, o pressuposto básico do autor, Brunetto Salvarani, é colocar-se, com uma perspectiva teológica alicerçada na história e nas ciências humanas, "na perspectiva da Igreja de amanhã, identificando seus traços já na situação atual" (p. 15).

O termo "pós-cristão" citado no subtítulo indica que não é o cristianismo que está sendo cancelado, mas uma determinada forma de ser cristãos (p. 20), com a consequente e urgente necessidade de repensar e reformular o seu legado (p. 10).

O cristianismo está se transformando e "não é certo que esteja morrendo" (p. 66). Apesar das teorias sociológicas de Friedrich Nietzsche da morte de Deus em voga nos anos sessenta e setenta do século XX (p. 11) ou das crenças de que "o mundo moderno da racionalidade fosse naturalmente destinado a cavar fossos intransponíveis com o universo das religiões" (pp. 37-38), Deus, que parece ter "reaparecido conjugado no plural" (p. 27), “não está morto, estamos apenas controlando os seus documentos” (p. 196).

Salvarani, teólogo respeitado (casado e pai de família) que fala com parrésia, ensaísta atento aos acontecimentos eclesiais, professor de missiologia e teologia do diálogo na Faculdade Teológica da Emilia-Romagna de Bolonha e nos Institutos Superiores de Ciências Religiosas de Bolonha, Modena e Rimini, está consciente de que, apesar do estado de crise em que se encontram, as Igrejas poderão continuar "cumprindo o seu mandato divino de evangelizar seus contemporâneos" (p. 15) graças à sua "extraordinária capacidade de adaptação às novas situações" ( p. 1 9).

Com uma condição: que estejam dispostas, deixando de lado toda forma de letargia e pessimismo (p. 111) e neutralizando toda tentação de "fuga da história" (p. 6), a "arregaçar não só as mangas, mas também e sobretudo o pensamento" (p. 17 e 221), investindo na formação "criativa, recursos econômicos e mentais, visão ampla e a paciência dos passos curtos na consciência dos tempos longos" (p. 221).

"O cristianismo que herdamos do passado e no qual muitas gerações cresceram acriticamente (...) já não funciona: se quer ser credível e ser praticado num futuro próximo, deve ser repensado do zero" (p. 225) ou, pelo menos, continuamente remotivado percorrendo o caminho da autenticidade, simplicidade e essencialidade do Evangelho a ser falado e anunciado "com palavras precisas e apropriadas" (p. 143).

Brunetto Salvarani, Senza Chiesa e senza Dio, Presente e futuro dell’Occidente post-cristiano, Laterza 2023

Estrutura do ensaio

Uma introdução, oito capítulos e uma conclusão.

Na introdução, o autor ilustra a crise de credibilidade que a Igreja vive. Que a Igreja, aliás, que as Igrejas estejam em crise não é novidade. Se há algo de novo, encontra-se no fato de que nas últimas duas ou três décadas “a reação média às conclamadas dificuldades que o cristianismo atravessa, no seu esforço de se transmitir às novas gerações em territórios de antiga tradição e de se apresentar como palavra credível e de autoridade no espaço público, corresponde geralmente a um encolher de ombros, a um desinteresse transparente e endémico” (p. IX).

Uma crise que parece ser "reflexo e consequência direta da crise da imagem de Deus" da tradição judaico-cristã (pp. XV-XVI) e que, para não ser sofrida, mas transformada em ocasião de "oportunidades extraordinárias e surpreendentes" (p. 226), nos convida a empreender com coragem também "caminhos espinhosos, cansativos, mas inevitáveis" (p. XVIII).

Como o convite impiedoso - esta é a análise do sociólogo australiano John Carroll, autor de um intrigante ensaio intitulado L’enigma di Gesù (Fazi Editore 2013) – a reconhecer, por um lado, que "as Igrejas cristãs falharam coletivamente em sua tarefa fundamental, ou seja, continuar a contar sua história fundadora de uma maneira que saiba falar à sua época. Elas falharam naquilo que os judeus chamavam Midrash: a arte de repaginar as histórias para adaptá-las aos tempos" e, por outro, que "o Jesus da Igreja é um resíduo lenhoso de uma doutrina desgastada que fala de um Deus benevolente e onipotente que está no céu, da Trindade, da remissão dos pecados, da Santa Comunhão, da ressurreição dos mortos e assim por diante", conceitos que hoje parecem não "interessar às pessoas" (pp. 219-220).

John Carroll, L'enigma Gesù, Fazi 2013

Os oito capítulos do ensaio podem ser divididos em duas grandes partes.

A primeira parte inclui os cinco primeiros. Centrando-se na situação atual do cristianismo em nosso Ocidente, Salvarani destaca cinco "sinais dos tempos" que as Igrejas são convidadas a perscrutar e levar a sério: da crise atual que precisa ser assumida e transformada em oportunidade (cap. 1) até a aquisição do fim do mundo cristão como o conhecemos (cap. 2); do desaparecimento da figura do praticante ao nascimento daquela do nômade e do peregrino ou do convertido (cap. 3); da presença de um contexto social marcado durante séculos quase exclusivamente por tradições cristãs e caracterizado hoje por um irreversível pluralismo cultural e religioso (cap. 4) ao surgimento de uma nova forma de cristianismo destinada a destacar muitas daquelas Igrejas que permaneceram por muito tempo na sombra (cap. 5).

Não sem propiciar um ponto firme ao seu itinerário: "Se não nos livrarmos do beco sem saída do clericalismo e do espírito de casta que inevitavelmente o caracteriza, nenhuma reforma da Igreja poderá se revelar duradoura, real e frutífera" (p. 3).

Na segunda parte, o autor recorda três aspectos tradicionalmente decisivos para que a autoconsciência eclesial seja repensada à luz do contexto cultural atual: o papel da Bíblia, que não é apenas o grade código do Ocidente, mas também o texto que, para os cristãos, contém a Palavra de Deus (cap. 6); a centralidade da figura de Jesus de Nazaré que é o coração, sempre antigo e sempre novo, de todo caminho de fé (cap. 7); a reproposição, também em termos não estritamente religiosos, das três virtudes teologais caras ao cristianismo, como a fé, a esperança e a caridade (cap. 8).

Na conclusão, o autor exorta a reconhecer que a mudança de época que caracteriza o cristianismo contemporâneo "não só não deveria assustar, mas, se enfrentada com a abordagem certa, pode fazer bem ao Evangelho, às Igrejas e à sua credibilidade" (p. 225).

Então, Senza Chiesa e senza Dio – Presente e futuro dell’Occidente post-cristiano é um livro corajoso e de extraordinária utilidade, que nos ajuda a superar com responsabilidade "a cultura da reclamação" (p. 7) e que olha, sem adoçá-la, para a crise do cristianismo ocidental para contribuir a desenhar alternativas ao "progressivo naufrágio do barco da Igreja" (p. XV).

"Toda crise – nos lembra Francisco na exortação apostólica Amoris laetitia n. 232 – esconde uma boa notícia que é preciso saber escutar, afinando os ouvidos do coração" (p. 6): Brunetto Salvarani está mais do que nunca convencido disso, que também acredita que para os cristãos a condição de crise "deveria ser a situação normal" (p. 3).

Os sinais dos tempos a escrutinar

O primeiro "sinal dos tempos" a ser escrutinado e levado a sério (p. XVI) é a crise que caracteriza o Cristianismo e as Igrejas do Ocidente (cap. 1): uma crise não para ser sofrida, mas para ser bem aproveitada, considerando-a um momento propício (p. 4) para continuar a anunciar, servir e testemunhar a beleza e as potencialidades humanizadoras do anúncio cristão do reino de Deus (p. 5) cuja profecia - como disse o Papa Francisco em 29 de novembro de 2013 durante uma entrevista com 120 superiores gerais dos institutos de vida consagrada – "não é negociável" (p. 51).

O segundo "sinal dos tempos" é o fim de um determinado modo de ser cristão (cap. 2) que tem "a sua origem no século IV, como consequência das escolhas políticas do imperador Constantino (e depois Teodósio) e dos grandes concílios dogmáticos, de Niceia (325) a Constantinopla (381)" (p. 17).

O Cristianismo de hoje e de amanhã não é uma questão de herança, mas de escolha (p. 19). No nosso Ocidente pós-cristão e religiosamente plural, as Igrejas, constituídas majoritariamente por "pequenos restos de crentes convictos e praticantes", irão provavelmente reunir-se "em torno do essencial: a Palavra de Deus presente na Bíblia e os sacramentos resumidos na Eucaristia" (p. 21).

E o farão medindo sua qualidade de presença no mundo pela "disponibilidade e capacidade de testemunhar a diferença evangélica na vida" e vivendo "o diálogo ecumênico e inter-religioso como uma extraordinária oportunidade de purificação e crescimento, e não como uma ameaça à própria (suposta) integridade" (pp. 22-23).

Um terceiro "sinal dos tempos" (cap. 3) sobre o qual se questionar pode ser encontrado no "desaparecimento progressivo do chamado praticante" (p. 39) e no nascimento de duas figuras típicas da religiosidade pós-moderna: o "do nômade, do peregrino, do crente errante, que vai além das filiações confessionais e territoriais" (p. 42) e a do convertido (pág. 44).

Esta última articula-se em três modalidades principais: a pessoa que muda de religião, a pessoa que experimenta formas de religiosidade em relação às quais era completamente alheia, a pessoa que opta por viver experiências religiosas particularmente fortes - muitas vezes emocionais (pp. 44-46). Fenômeno típico da "quarta secularização" que "não teria esvaziado a religião de suas experiências espirituais", mas teria transformado o religioso "em formas mais personalizadas, independentes de conteúdos dogmáticos definidos e dos confins das religiões históricas" (p. 39).

Pela credibilidade da fé cristã - escreve Brunetto Salvarani, referindo-se ao cristianismo como estilo de Christoph Theobald - os conteúdos relacionados, segundo o princípio da concordância entre conteúdo e forma, devem ser inseparáveis "de uma precisa modalidade de se situar na existência no seguimento de Jesus de Nazaré", modalidade não só a ser indicada, mas sobretudo a ser vivida pessoalmente e testemunhada (p. 55).

O crescimento do fenômeno do pluralismo religioso é outro "sinal dos tempos" sobre o qual refletir (cap. 4). Ele - como afirmou Carlo Maria Martini em diversas ocasiões - constitui "um desafio para todas as grandes religiões, especialmente para aquelas que se definem como caminhos universais e definitivos de salvação" (p. 60).

Salvarani, um dos maiores especialistas em diálogo ecumênico e inter-religioso, é de opinião que esse desafio é "em muitos aspectos mais temível do que o ateísmo ou a indiferença religiosa, visto que questiona diretamente o entendimento tradicional da identidade cristã em sua pretensão de unicidade e universalidade" (p. 69).

No que diz respeito aos processos de aproximação e às relações entre as diversas confissões cristãs, o modelo a valorizar é o da unidade na diversidade reconciliada (p. 73): o que, por um lado, implica passar do "diálogo de fachada ou dos afagos" ao diálogo "de franqueza e da colaboração" (p. 72); por outro, exige que o ecumenismo finalmente "saia das prateleiras dos especialistas para entrar permanentemente nas agendas dos conselhos pastorais, dos movimentos eclesiais, do atual Caminho sinodal, daquela que se chama(va) de pastoral ordinária" (pág. 74).

Por outro lado, no que diz respeito às relações com as outras religiões, Salvarani assinala a afirmação decididamente inovadora do ponto de vista teológico sobre o tema do pluralismo religioso contida no Documento sobre a fraternidade humana assinado em 4 de fevereiro de 2019 pelo Papa Francisco e o Grande Imã de Al-Azhar Ahmad Al-Tayyeb: "O pluralismo e a diversidade de religião, cor, sexo, raça e língua são uma sábia vontade divina, com a qual Deus criou os seres humanos. Esta sabedoria divina é a origem da qual deriva o direito à liberdade de crença e à liberdade de ser diferentes" (p. 78).

O último "sinal dos tempos" sobre o qual Brunetto Salvarani convida as Igrejas a refletir são as formas de cristianismo que florescem na África, na Ásia e na América Latina (cap. 5) em um ritmo tão elevado que sugere que "aquela que estamos vivendo hoje é uma das fases mais intensas da difusão do cristianismo jamais registradas na história", autorizando os analistas das religiões contemporâneas a acreditar que, de um ponto de vista global, "não há razão para olhar com ceticismo para as possibilidades de sobrevivência do cristianismo" (p. 100).

Isso graças aos novos cristãos que vivem o Evangelho em condições diferentes dos cristãos ocidentais e com quem as Igrejas históricas terão que fazer as contas (p. 95): e haverá muitas surpresas (p. 91) em nível da inculturação da fé cristã, que talvez seja a questão mais urgente e controversa da missão cristã da Igreja num contexto de cristianismo global (p. 113).

Por onde recomeçar?

No cristianismo de hoje, mas também no cristianismo de amanhã, o que deve ser conservado e "o que poderia ser dispensado sem maiores problemas" (p. 126)?

O teólogo tenta dar uma resposta à pergunta tanto nos capítulos 5, 6 e 7 quanto na conclusão de seu ensaio.

Quanto ao que poderia ser dispensado, Salvarani subscreve o que afirmou Tomáš Halík, teólogo muito atento às transformações do cristianismo, em sua obra Pazienza con Dio (Vita e Pensiero, Milão 2020): "Talvez tenha chegado o momento de abandonar muitas daquelas palavras piedosas que continuamente exibimos em nossos lábios e em nossas bandeiras. Essas palavras, pelo uso contínuo, muitas vezes superficial demais, estão desgastadas, perderam seu sentido e peso, se esvaziaram, se tornaram leves e fáceis. Outras, ao contrário, estão sobrecarregadas, enrijecidas e enferrujadas; tornaram-se demasiado pesadas para poderem expressar a mensagem do Evangelho, a boa nova" (p. 221).

Tomáš Halík, Pazienza con Dio (Sestante), Vita e Pensiero 2020

Por outro lado, não se pode prescindir da Bíblia (p. 126), que "não é simplesmente Palavra de Deus, mas a contém: distinção crucial para evitar suas leituras fundamentalistas, hoje tão em voga e tão perigosas" (p. 130).

Apesar do "indubitável despertar bíblico" ocorrido após a aprovação, pelo Concílio Vaticano II, em novembro de 1965, da constituição dogmática Dei Verbum sobre a revelação divina, deve-se constatar com realismo que, na pastoral ordinária das comunidades cristãs, "a fase de relançamento da leitura da Bíblia", no mínimo pôs em evidência "um certo cansaço" (p. 135).

Além disso, como não concordar com Salvarani que "qualquer apelo a uma maior atenção à Bíblia deve enquadrar-se numa atenção mais ampla ao fenômeno religioso em todas as suas diversas expressões" (pp. 144-145)?

Além disso, dever-se-á adquirir cada vez mais a consciência de que "o elemento distintivo da ação cristã só pode ser o seguimento de Jesus". De fato, como icasticamente afirmado em a essência do cristianismo de Romano Guardini, o cristianismo é o próprio Jesus Cristo (p. 149). "Aconteça o que acontecer, seja qual for a mudança que se produza num futuro mais ou menos próximo na atormentada história das Igrejas, pode-se afirmar com tranquilidade que é d'Ele que será necessário em todo o caso recomeçar: do significado de seguir os gestos e as histórias daquele jovem rabino itinerante de Nazaré que – independentemente de como se pensa a respeito – em poucas décadas revirou a história mundial e inaugurou uma inédita relação com o Deus de Israel e de seus pais" (pp. 149-150).

É necessário voltar a Jesus, assumindo a interpretação da sua figura que foi formulada por duas viradas cruciais do século XX: a sua judaicidade e a sua humanidade (p. 148). Isso, por um lado, significa que Deus, ao encarnar-se, escolheu ser judeu e que a assunção da judaicidade não deve ser considerada como um fato acidental e secundário na vida de Jesus" (p. 175), e, por outro, exige aos cristãos que "procurem tentar seguir Cristo na sua real humanidade", na certeza de que na compreensão do mistério de Jesus existe uma relação diretamente proporcional entre a sua humanidade e a sua divindade: "quanto mais divino, mais humano; quanto mais humano, mais divino" (p. 179).

Conscientes de que hoje as fronteiras entre o crer e o não crer "se tornaram mais recortadas e porosas", os cristãos de hoje e de amanhã deveriam consolidar a prática de se colocar à escuta dos diferentes crentes e de se confrontar com as razões dos chamados não crentes, "não para se entregarem à incerteza sistemática, mas para amadurecerem as suas convicções" (p. 181).

Como? Relendo revisitando e repensando a fé, a esperança e a caridade à luz dos novos contextos sociais e culturais. Como virtudes teologais, elas "têm Deus como objeto e são o fundamento da ação humana, favorecendo - por assim dizer - um acesso direto ao próprio Deus". Mas, analisando melhor, todos nós somos chamados a acertar as contas com elas, "sejamos crentes ou não crentes ou de outra forma crentes" (p. 182).

A fé, ou seja, a necessidade de crer em algo ou em alguém, é um "elemento fundamental do ser humano" (p. 194): tanto que é possível afirmar que "a crise atual da fé cristã é sobretudo filha do progressivo esfacelamento do ato humano de crer" (pp. 186-187).

A esperança, que é talvez a mais desconsiderada das virtudes teologais, apesar de nos fazer - como escreve Agostinho em A cidade de Deus – "propriamente cristãos" (p. 200), "não tem nada a ver com o otimismo banal" (p. 204) e é "uma virtude antropologicamente mais necessária do que nunca" (p. 201). De fato, "quando se perde a esperança no futuro, o que está em jogo é sobretudo o que resta de humano em nós" (p. 198).

Quanto à virtude da caridade, entendida como a capacidade de ir gratuitamente ao encontro do próximo em situação de pobreza ou sofrimento, para Brunetto Salvarani permanece "sublime" (p. 206) a definição leiga dada por Luigi Pintor nas suas memórias autobiográficas (Servabo, Boringhieri Bollati, Turim 1991): "Não há coisa a fazer mais importante em toda uma vida do que dobrar-se para que outro, abraçando o seu pescoço, possa se levantar" (pág. 207).

Leia mais

BRUNETTO SALVARANI, Senza Chiesa e senza Dio, Presente e futuro dell’Occidente post-cristiano, Série. "Tempi Nuovi", Laterza, Roma-Bari 2023, pp. 248, 20,00€, EAN: 9788858150979.

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