Lula: “Com tanta fome no mundo, estamos gastando em armas”

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23 Junho 2023

"O presidente sabe muito bem que o Brasil não é neoliberal como os Estados Unidos e não é autoritário como a China, exerce uma liderança segura em todo o continente neolatino", escreve Domenico De Masi, sociólogo italiano, autor entre outros de “Ócio criativo” (Ed. Sextante), em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 22-06-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Com Lula não se passa ano sem que nos vejamos e passemos algumas horas de afetuosa amizade juntos. Mesmo quando ele estava preso em Curitiba, consegui uma visita de 60 minutos em sua cela. Desta vez, assim que ele chegou a Roma, nos presenteamos com algumas horas de tranquila troca de ideias.

A guerra na Ucrânia e a guerra interna

O que se pode falar de um personagem como Lula, de volta da recente cúpula do G7 em Hiroshima onde também apareceu o onipresente Zelensky? A Ucrânia está longe do Brasil, mas o eco da guerra e seus possíveis desdobramentos nucleares estão vivos e alarmantes em todas as latitudes. Há meses Lula tece uma vasta trama que vai da Índia à China e tem como ideia central de paz aquela mesma defendida pelo Papa Francisco. Nessa conversa romana também está presente o nosso amigo em comum Celso Amorim, assessor do presidente e ex-ministro das Relações Exteriores, que acaba de voltar de viagens exploratórias em Kiev e Moscou.

Mas Lula tem uma guerra interna à qual dar prioridade absoluta: aquela contra a pobreza e o analfabetismo de 30 milhões de brasileiros que já em seus dois primeiros mandatos representaram sua preocupação prioritária. O Brasil, juntamente com a China, foi o único país onde as desigualdades diminuíram. 40 milhões de brasileiros subiram na escala social passando de subproletários para proletários, de proletários à pequena burguesia, de pequena burguesia à classe média. "Como é possível fazer uma guerra sem sentido e gastar bilhões em armas mortíferas enquanto um bilhão de seres humanos passam fome no mundo?”, questiona Lula.

Um olhar para o imenso país

Tom Jobim, um dos autores da bossa-nova mais conhecidos e amados, diz que “o Brasil não é um país para iniciantes”. Então, vamos tentar nos equipar com alguns dados estatísticos.

28 vezes o tamanho da Itália. Seus 211 milhões de habitantes pertencem a mais de 40 etnias que vão dos negros de origem africana aos amarelos de ascendência chinesa e aos loiros de origem alemã. Os descendentes de italianos são 30 milhões, seis dos quais residem em São Paulo formando assim a maior cidade italiana do mundo. 1.400 empresas italianas operam no Brasil e 20 empresas brasileiras operam na Itália.

No ranking mundial de países com base no PIB, a Itália está em 8º lugar e o Brasil em 9º. A diferença cresce consideravelmente quando se comparam o PIB per capita: em média um brasileiro dispõe de 9 dólares, um italiano de 33 dólares. A estrutura do PIB dos dois países é muito parecida: 74,5% no Brasil e 75% na Itália vem dos serviços. No entanto, a diferença é notável quanto ao número de trabalhadores agrícolas: 9% no Brasil, 4% na Itália. Mas o setor agrícola permite que o Brasil seja o primeiro do mundo na produção de café; o segundo na produção de soja e açúcar; o terceiro na produção de carne e frutas.

No ranking mundial da produção manufatureira, a Itália está em 7º lugar enquanto o Brasil está em 14º. Se considerarmos a produção de energia, o Brasil está em 10º lugar no mundo enquanto a Itália está depois do trigésimo. Se considerarmos então a produção de energia limpa, o Brasil está de longe em primeiro lugar: 87% da eletricidade vem de energia renovável, contra 28% da média mundial.

Essa é a identidade rápida da República presidencial do Brasil, da qual Lula da Silva é presidente pela terceira vez. Nascido em 1945 no Estado de Pernambuco, filho de pais muito pobres e analfabeto, cursou a escola de forma irregular, mas isso não o impediu de ser o presidente brasileiro que criou o maior número de novas universidades. Com a mãe e os sete irmãos viveu por anos no quarto dos fundos de um bar. Foi engraxate, vendedor ambulante, metalúrgico, sindicalista.

Em 1980 foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT). Duas vezes presidente da República (2003-2011) foi depois o principal adversário de Bolsonaro e seu governo de extrema direita. Preso por 580 dias com base em falsas provas, foi posteriormente exonerado e reeleito presidente em 2 de outubro de 2022.

Em busca de uma ordem multipolar

O presidente sabe muito bem que o Brasil não é neoliberal como os Estados Unidos e não é autoritário como a China, exerce uma liderança segura em todo o continente neolatino e pode guiar o destino do Mercosul, do qual é o parceiro mais forte. Portanto, o Brasil “tem um importante papel a desempenhar pela necessária e urgente transição de um mundo unipolar (EUA) e depois bipolar (EUA-China) para um mundo multipolar em que cada país tenha a liberdade e a possibilidade real de se desenvolver e formar alianças com base em seus valores e escolhas".

Após a queda do Muro de Berlim, os Estados Unidos alimentaram o sonho de "americanizar" o planeta. A globalização perseguida pelo neoliberalismo estadunidense não se contenta - assim como fez a Grã-Bretanha - em controlar as rotas marítimas e cobrar mercadorias inglesas. Ao seu domínio comercial os EUA querem somar aquele financeiro e cultural; à exportação de dólares quer acrescentar a exportação da americanidade composta de cinema, música, roupas, hábitos e costumes, todos Made in USA. Como disse Illich: "Agora ter sede significa ter sede de Coca-Cola".

O Brasil talvez seja o país ocidental onde essa operação onívora dos Estados Unidos ainda continua inacabada: apesar dos esforços de todos os tipos, os EUA não conseguiram conquistar a alma brasileira.

A Europa renunciatória e o amor pela Itália

Ao contrário daquela francesa, canadense, alemã ou italiana, a mentalidade dos brasileiros é ainda predominantemente brasileira. Hollywood não derrubou os estúdios do Projac da Globo, o jazz não silenciou a bossa-nova, os romances de De Lillo não substituíram aqueles de Jorge Amado. Os valores dominantes no Brasil ainda são a alegria, a sensualidade, a hospitalidade, a solidariedade, o multiculturalismo. Em mais de 500 anos desde o descobrimento, o Brasil travou apenas uma guerra (contra o Paraguai entre 1864 e 1870) enquanto os EUA levaram incessantemente seu exército e suas armas no mundo inteiro.

Sob esse respeito, a atitude da Europa resulta menos compreensível e talvez justificável.

Dezenas de Estados, cada um com sua própria língua, sua própria literatura, sua própria arte e sua própria música, todos complementares entre si em termos de história e recursos, não conseguem nutrir um sentimento de orgulho de sua própria riqueza cultural, para se dotar de um guia e de um programa comuns capazes de valorizar o mais rico mercado do mundo e o mais extraordinário viveiro de inteligências.

Além de uma coexistência de etnias, o Brasil desfruta, dentro de um mesmo perímetro nacional, de uma extraordinária simultaneidade de épocas históricas, de forma que convivem, lado a lado, a sociedade pré-rural da Amazônia, aquela rural do Ceará, aquela industrial de Minas Gerais e aquela pós-industrial do Rio de Janeiro. Isso permite uma troca de experiências que suaviza as arestas e confere ao povo brasileiro aquela suavidade que o torna único no cenário mundial atravessado por prepotências insensatas.

Com Lula - democrata coerente e lutador incansável pelas igualdades e pela liberdade – é difícil interromper o diálogo que vai desde o Brasil, com seus problemas e suas preciosidades, à Itália também com problemas e mais numerosas oportunidades perdidas, e para todo o mundo cada vez mais distante da globalização de molde EUA e cada vez mais em busca de um novo equilíbrio multipolar. O que é certo é que Brasil e Itália têm uma alma em fecunda sintonia que precisa ser alimentada e que encontra em Lula um precioso aval.

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